08/07/2020

Um aprendiz de pai na Pandemia


Por: Everton Marcos Grison

Estou imerso no Google Classroom, planilhas, atividades online, textos para ler, artigos para submeter e em meio a toda essa avalanche de atividades e informações ("E daí? Vocês têm tara por diploma"), troco um áudio pelo whatsapp discutindo algum tema. Eis que Helena Sofia surge das profundezas do meu esquecimento, ela estava a exatos 30 centímetros de mim, dividindo a mesa e aproveitando o tablet para assistir Maria Clara e Joãozinho (viciou nesses dois. Proibi de assistir. Não adiantou nada. Sou minoria nesse espaço chamado casa e a posição de pai autoritário é algo que busco não aplicar. As vezes sai uns berros e uns, é 1, é 2, é...) ela chama minha atenção sobre a falta de percepção, das várias coisas que estava fazendo ao mesmo tempo:
- Papai, enquanto eu estou assistindo desenho você não pode falar. Atrapalha.
Parei. Olhei. Pensei. Tens razão. Não é apenas a minha intromissão ao desenho que uma criança com quase 04 anos de idade está apontando. Existe uma camada mais profunda de significado: estava fazendo muitas atividades ao mesmo tempo, sem ter atenção devida para cada uma, imerso em uma dinâmica doentia de cumprir prazos, o famoso dar conta do recado, pois não conseguir é o mesmo que cometer um crime. Não acertar é criminoso. Não entregar é criminoso. Não ver é criminoso. Estamos adoecendo sem perceber. O dia que percebermos a vida terá passado. E o tempo é devorador. Não tem como retornar. É sempre adiante.
Fico pensando nisso e ela permanece vendo o seu desenho. Deveríamos estar fazendo outras coisas, pois nossas vidas têm sido mediadas por telas em boa parte do dia. O que fazer? Como fazer frente a essa dinâmica que nos engole e nos faz negar a nós mesmos? Esquecemos como se diz não?
Depois de responder mais uma mensagem que chegou pelo sistema de controle chamado whatsapp web, o mesmo projeto de ser humano muito mais atento que seu pai dá uma segunda dica:
- Vamos fazer um bolo?
Penso novamente no quanto não percebi os sinais de que ela está me apontando. Olho para ela e digo:
- Hoje à tarde faremos o bolo. Você escolhe o sabor. Agora o papai precisa continuar sendo escravo da tela.
O que é mais importante nós teimamos em deixar para depois, visto que se não der tempo, ao menos os prazos terão sido cumpridos, as atividades estarão lançadas, os chefes baterão palmas e o lado profissional será um sucesso, enquanto individualmente reverbera o som de um grande fracasso. Segue a vida. Teremos bolo, mas depois. Os grilhões que eu mesmo aceitei e me imponho cobram o seu tempo e o seu preço. Agora é a vez deles. Minha filha PODE SEMPRE esperar.

Um comentário :

Eduardo Luiz Packer disse...

Show de bola!!!