18/07/2020

Mercado financeiro - um cassino entre sardinhas e tubarões

Por: Jonas J. Berra

      Na última semana as redes sociais e os noticiários da internet se viram polarizados novamente. Dessa vez, pelo vídeo produzido pelo youtuber Felipe Neto e publicado na página de opinião do The New Yourk Times no dia 15 de julho (veja aqui). Após grande repercussão no Brasil, e nem tanto nos EUA, os grupos divergentes do progressismo se defrontaram, mais uma vez, com a reflexão sobre a atuação do personagem Felipe Neto. A questão que estaria em jogo é ele poder ou não ser admitido nas trincheiras "nobres" da esquerda, ou se ele seria apenas um liberal capitalista infiltrado para vender seus produtos. Há quem diga que ele já conseguiu fazer isso. Mas não é sobre isso que estou escrevendo. Há uma outra fala polêmica, que data do dia 25 de junho, que gerou grande repercussão e desconforto nos grupos ligados ao mercado financeiro, toda a turma que ganha a vida trabalhando para as corretoras de investimentos (e diga-se de passagem, ganham muito dinheiro).
Day trade operando na bolsa
Operações de compra e venda no mesmo dia

      Não entrando nos pormenores chatos do ti-ti-ti de internet (que é perca de tempo), quero destacar a fala do youtuber no que tange à bolsa de valores. Ele diz basicamente que não investe nada na bolsa porque não acha certo produzir riqueza - ganhar dinheiro - "sem produzir nada". Como exemplo de algo que é produzido, ele cita o malabarista de farol e ele próprio como youtuber, que fornecem aos espectadores momentos de entretenimento, recebendo um pagamento em troca. Na fala de Felipe Neto, fica implícito que os chamados day traders e outros investidores da bolsa, ao aplicarem dinheiro, por meio das corretoras, visam exclusivamente o ganho de capital, a multiplicação de sua riqueza sem trazer qualquer contribuição para a sociedade. Mas a repercussão foi tamanha no Youtube, por críticas feitas pelos influenciadores do mercado, que o Felipe Neto precisou se retratar no dia 13 de julho e dizer que cometeu um erro ao falar de investimento e ações.

“Mudei de ideia sim, porque fui estudar mais e entendi a principal função da bolsa de valores: viabilizar os IPOs. Sem a bolsa, não existiria IPO, então essa justificativa, para mim, é suficiente [para mudar de opinião].”

     Mas ele não está completamente errado. Vou explicar melhor porque penso dessa forma. No último ano, tenho estudado o mercado financeiro e a lógica por trás dele. Muito se fala a respeito. Políticos como Meirelles, Ciro Gomes, Haddad, Amoedo, assim como criadores de conteúdo para o Youtube, entre outros, costumeiramente fazem comentários sobre a economia e como ela funciona, relacionando benefícios e malefícios do mercado financeiro em relação à vida das pessoas, o povo brasileiro. Militantes de esquerda costumam combater o mercado financeiro ao expor a ganância capitalista (com razão). Veja, por exemplo, que existem pessoas planejando seus investimentos com base na desgraça causada pelo coronavírus, utilizando da fragilidade da economia para lucrar. Por outro lado, militantes de direita usam argumentos opostos, defendendo a liberdade de escolha dos que investem aproveitando oportunidades no próprio mercado, a fim de obter maior lucro. Tudo bem. São pontos de vista. 
      Os investidores de direita, aqueles que apoiam o ministro Paulo Guedes e defendem até hoje (pasmem) um governo podre, fantasiam o liberalismo, o capitalismo de mercado e a especulação financeira como algo positivo para todos, como se toda geração de riqueza por meio da bolsa, levasse a uma melhoria considerável das condições de vida da população. Ignoram completamente a raiz do problema: a concentração de renda e a desigualdade social (indicação de livro aqui, "Desigualdade" de Eduardo Moreira). A forma como são feitas as operações na bolsa e inclusive na renda fixa, são dois dos principais culpados por nossa concentração de renda e desigualdade. 
      A concentração de renda no Brasil é um grave problema e caberia outro texto a respeito. É ela que permite que alguns investidores da bolsa, sobretudo os mais ricos e os provenientes de uma classe média alta, consigam manipular o movimento das ações na bolsa. Existem grupos de pessoas, muitas vezes apontadas por pesquisadores em economia (veja aqui um exemplo desse tipo de fraude) que combinam operações para derrubar ou levantar as ações de uma empresa. Outro exemplo é de investidores ricos que pagam robôs traders para dispararem ordens de compra e venda de ações, visando produção de dinheiro, não de produtos. Notícias na mídia também são pagas, até por corretoras consideradas "sérias", para induzir a massa de investidores agressivos  e inexperientes a agir de um ou outro modo. Em grupos de investidores no Facebook e WhatsApp esses investidores, muitos iniciantes e com baixas quantias investidas, que operam na compra e venda de ações no mesmo dia (day trade) são conhecidos e tratados pelos grandes investidores como "sardinhas". São literalmente enganados e induzidos ao erro. 
      Então o que se percebe é que existe uma verdade na declaração do Felipe Neto. Grande parte das operações da bolsa são manipuladas e objetivam enganar o maior número de pessoas possível, as "sardinhas". Essas pessoas que manipulam o mercado não são nossos amiguinhos e não esperam que todos nós consigamos melhorar de vida, por meio de investimentos. Essa visão utópica é falsa e, muitas vezes, é a forma básica de pensar da elite ou classe dominante, ao se referir ao comunismo, com argumentos do tipo: "não funciona, pois as pessoas são individualistas e gananciosas. Se não há uma boa recompensa, as pessoas não produzem, não trabalham". 
       Por isso, a bolsa em si, mesmo tendo seu lado de grande cassino legalizado, pode não ser nosso maior inimigo, já que havendo mecanismos de controle, como leis que garantem uma segurança nos investimentos, os riscos de fraudes diminuem. O maior problema a ser combatido ainda são os tubarões, de uma elite que ganha dinheiro em cima da desgraça dos pobres. Que constroem verdadeiras armadilhas para enganar, concentrando a renda e a malandragem por gerações (inclusive criando verdadeiras famílias políticas na manutenção do poder), que não produzem nada, que aplicam em renda fixa obrigando o governo a pagar um alto juro garantido por décadas (juro sobre juro, sobre juro), independentemente da crise que a população esteja passando. Esta, por sua vez, se endividando, sem nenhuma economia em caixa, pois trabalha hoje para pagar as dívidas de meses atrás. Essa é uma grande massa populacional do Brasil, que não sabe e nunca saberá o que são ações, bolsa de valores, investimento, porque a concentração de renda não lhes deu oportunidade de saberem. E não há previsão, no atual quadro político e econômico, de que isso seja revertido, pois todos os que tentarem mudar isso serão queimados pelo mercado financeiro, as grandes mídias e a elite suja e oligarca.
Tio Patinhas acumula dinheiro.
Mas e a vida do povo como fica?

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