28/05/2020

Reflexão Dialogada: Arte e Filosofia em tempos de Pandemia.

Arte por Débora Bacchi


Texto por Everton Marcos Grison

          Números, o que eles representam? Estatísticas, para que elas são elaboradas? Aquilo que é apresentado como a realidade corrobora a completude do real? Seria possível definir, por meio de cifras o imensurável do que existe? O que é o real? Essas e outras questões parecem estar permeando a obra em questão, pois a frase alude acerca do para-além, ou seja, aquilo que não se apresenta a olho imediato. Trata-se de uma provocação para que se olhe a similitude do que está posto, para o além propriamente dos números, das estatísticas, das listas, das planilhas, da virtualidade que assalta a todos de forma irremediável. O foco, portanto, está na relação que se inscreve.
            A vida aparece representada na cor vermelha da flecha. O sangue pulsante, enquanto movimento vital, que não acontece por intermédio de uma linearidade. A existência, a realidade mais imediatas, o ser e os objetos que se apresentam, não estão congelados em sua ocupação de espaço. Eles se movimentam e na obra, estão em sentido de coalização com o sujeito armado de um guarda-chuva, que se protege da vida que tenta lhe tocar. Por que não lhe toca?
            Que tipo de chuva se expressa? Não parece ser a chuva de água, que possui diversas representações, aquela que para os mais ricos que vivem na parte alta da cidade representa fartura, mas para os pobres do subúrbio é o sinônimo de destruição, como se percebeu com o filme: O Parasita. Seria a chuva de cadáveres da pandemia de Covid-19, que buscam tocar a mente de um presidente Genocida, o qual minimiza a proporção do problema, além de publicamente demonstrar falta de empatia e preocupação com as vidas ceifadas?
            Em qual direção olha o indivíduo representado? Ele não tem identidade definida, seu corpo não está delineado, pois pode não representar propriamente uma singularidade humana, mas a materialização do desprezo, do desapego, da falta de cuidado e responsabilidade, uma espécie de negação da vida, que se protege com o guarda-chuva do “E daí?”.
            Não há caminho, não se apresenta nenhuma direção, pois a obra parece apontar para a total inoperância humana diante de um inimigo microscópico. Também representa a ignorância daqueles que não sabem conviver com o Outro. Trata-se, portanto, da paralisia da razão, que se instrumentalizou ao ponto de esquecer de sua própria representação. A verdade enquanto foco principal da razão é o cabo do guarda-chuva segurado pela insensibilidade. Sendo assim, se não é uma crise é um Projeto. 

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