09/04/2020

Positivismo e a ironia do destino.

Por: Andrej Carraro

Ao ler o livro A Formação das Almas de José Murilo de Carvalho tive a oportunidade de aprender um pouco sobre as origens dos principais símbolos da nossa República, um desses é a nossa bandeira. Ao observar as incoerências explícitas em certos grupos que se manifestam nas ruas ou redes sociais, quero me debruçar aqui sobre a história da bandeira do Brasil e explicar mais sobre a sua origem, como por exemplo, a frase Ordem e Progresso. Frase essa que remete a uma corrente filosófica, iniciada por um intelectual francês nascido no final do século XVIII, Auguste Comte.

Sendo o criador do positivismo, Comte era adepto do profundo conhecimento científico, segundo o qual, para que a sociedade pudesse evoluir deveria estar alicerçada na ciência, ou seja, em estudos e pesquisas concretas e objetivas da realidade. Desse modo, cada vez mais seríamos capazes de buscar respostas por meio da ciência, que seria uma forma superior de saber, se comparada a todos os outros meios de conhecimento. Sendo assim, a sociedade rumaria a uma linha reta de evolução sem desvios, um contínuo progresso. Além disso, Comte foi o primeiro que propôs a necessidade de estudar mais profundamente e desvendar os diversos aspectos de como funciona a sociedade e como direcioná-la para o que ele consideraria um melhor desenvolvimento. Por isso é considerado o pai da Sociologia.

Comte fundou a Religião da Humanidade ou a Religião Positivista que tinha como princípio a ciência como maneira de organizar cada aspecto da vida social e que pudesse posteriormente substituir as religiões tradicionais com o objetivo de levar a sociedade ao pleno avanço científico, tecnológico, social e moral.

No final do século XIX as ideias comtianas positivistas no Brasil, difundidas mais fortemente pelos militares, foram capazes de derrubar uma monarquia e estabelecer a República como um sistema político mais “evoluído” que o “atrasado” modelo monárquico, mesmo que para isso fosse necessário um golpe. Um presidente foi escolhido, sendo ele o militar Marechal Deodoro da Fonseca. Um hino foi preciso fazer. Surgiu Leopoldo Miguez como vencedor do Grande Concurso, mas não foi aceito pelo povo. Espertamente, Deodoro decidiu manter o antigo hino de Francisco Manuel da Silva para não contrariar o povo e, posteriormente, a letra foi composta por Joaquim Osório Duque Estrada. Surgiu o tão conhecido hino nacional brasileiro que é cantado orgulhosamente até os dias de hoje.

A bandeira era também um importantíssimo símbolo a ser modificado, os autores dessa mudança foram Raimundo Teixeira Mendes, Miguel Lemos, Manuel Pereira Reis e Décio Vilares. Estes, apenas modificaram alguns aspectos como o losango redimensionado e a substituição do elemento central da bandeira que representava as Armas do Império para uma esfera azul com uma faixa branca, onde se estende a frase de Auguste Comte: Ordem e Progresso.

A escrita Ordem e Progresso na então nova bandeira teria origem na frase “o Amor por princípio e a Ordem por base; Progresso por fim” de Comte, uma de suas mais conhecidas. Na década de 1930, Noel Rosa criou a música Positivismo, rica em detalhes e referências como já de início quando cantava o verso “a verdade meu amor, mora num poço” em referência ao quadro do francês Jean-Léon Gérôme “A Verdade Saindo do Poço”, baseado em uma parábola.

Agora, em 2020, estamos vivendo em um momento de muita incerteza, tristeza, insegurança e negacionismo da ciência, muito bem representado por boa parte de nossos governantes. Um perigoso encontro entre poder e ignorância que se espalha e se sente orgulhoso de se manifestar pelas ruas de nossas cidades. A anticiência, o negacionismo, o ódio, a ignorância, o preconceito e a preguiça de buscar conhecimento de pessoas que enrolam a bandeira brasileira e vestem camisetas da CBF, gritando contra a ciência, a OMS e os cientistas que defendem o isolamento horizontal para controlar a propagação do coronavírus. Os mesmos negacionistas também gritam contra as instituições políticas como o Congresso e o STF para implantar um regime político que dê praticamente um fim à ciência, ou pelo menos a possibilidade dela ficar subalterna da crença e do senso comum.

Eis aí a ironia! Uma frase positivista estampada na nossa bandeira. Não perceberam que estão usando a filosofia positivista indiretamente contra a ciência, contra o conhecimento e a evolução de uma sociedade! É claro que se imagina que esses manifestantes não conhecem a história de nossa bandeira. Se conhecem não entenderam, e se conhecem e entenderam, agem com desonestidade e mau-caratismo. Ironia do destino que tais cristãos “cidadãos de bem” que enrolam no corpo uma bandeira que leva uma frase de Auguste Comte, que tinha como objetivo, aos poucos e com a criação da Religião Positivista, eliminar a religião tradicional como conhecimento a ser seguido. Seriam eles inconscientes blasfemadores?

Não sou defensor do positivismo, penso que a ciência não é o único conhecimento que devemos adotar. Paulo Freire e Boaventura de Souza Santos, por exemplo, se opõem a essa linha de pensamento por achar que o senso comum e o conhecimento religioso também são importantes para a formação da pessoa na sociedade, assim como a ciência. Claro que não se referiam ao senso comum anticiência e negacionista, espalhados pelo WhatsApp, mas entendiam que nem tudo é preciso um estudo elaborado para comprovação de uma afirmação. Para explicar melhor, usarei como exemplo o conhecimento de nossas avós sobre o chá de boldo para dor no estômago. Não é originado de um estudo científico, mas esse conhecimento é passado de geração para geração.

Mesmo assim, dada às proporções é mais plausível que essa bandeira esteja enrolada em quem defende o Amor, Ordem e Progresso e que sabe que a ciência é fundamental para tudo isso. Essa bandeira pertence mais aos opositores desse pessoal apelidado nas redes sociais de “gado”.

Portanto, caro leitor, voltemos à parábola pintada no quadro de Jean-Léon Gérôme. A Verdade está saindo do poço, a Mentira roubou a roupa de Verdade e saiu vestida de Verdade, mas agora a Verdade está saindo do poço para castigar a humanidade, ou pelo menos àqueles que chamam os cientistas e os estudantes universitários de comunistas, maconheiros e surubeiros.

A_Verdade_saindo_do_poço, 1896
Referências:

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


História da bandeira do Brasil disponível em: 
https://brasilescola.uol.com.br/brasil/bandeiradobrasil.htm

História do hino nacional disponível em: 
https://brasilescola.uol.com.br/historiab/hinonacionaldobrasil.htm


Música Positivismo de Noel Rosa disponível em: 
https://www.youtube.com/watch?v=YRif-VzbCSs

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