21/03/2020

Um livro necessário contra o senso comum


Por: Jonas J. Berra

    O livro “Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota” de Álvaro Borba e Ana Lersnovski foi publicado no final de 2019. Tem como objetivo destruir as mentiras da obra do pseudointelectual Olavo de Caralho e seus asseclas, principalmente no que tange à compreensão dos problemas das ciências naturais (física, astronomia, química e biologia) e das ciências humanas (filosofia, sociologia, história, política e economia). Porém, não se trata de criar uma outra verdade, tão falsa quanto a do pseudointelectual, pois o que está em jogo não é apenas quem tem mais razão, mas impedir o mal da ignorância e desinformação, tão nocivos à uma compreensão genuína da verdade objetiva. Não sendo, desse modo, aquela “verdade” fabricada com interesses políticos e religiosos, tais como a do astrólogo enganador.


     A obra mistura a seriedade do problema a ser combatido, isto é, a idiotice, com pitadas de humor, que exige certo grau de atenção para quem não está familiarizado com a temática. Isto porque quando se fala do tal “guru” da direita com a população não acadêmica e menos interessada em política e ciência, a resposta é: “quem?”. Claro que a maioria das pessoas não saberá de quem se está falando, o tal “filósofo. Mas há um grande risco de que pessoas simples e desinformadas entrem em alguma livraria e se deparem com um livro volumoso, cujo título parece revelar toda a verdade sobre o mundo: “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”. É tentador, não é? A tentação está justamente no fato de que nenhum de nós deseja ser idiota. Nisso consiste seu sucesso: massagear o ego arrogante do IDIOTA.
    É diante da ameaça da continuidade do avanço da massa arrogante e pseudointelectual que a obra “Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota” se torna uma luz de esperança. Durante a leitura da mesma, é possível encontrar capítulos discutindo idiotices de redes sociais, como o “terraplanismo” e o “gaysismo esquerdista comunista”. Parece que quanto mais bizarra é a ideia ou teoria da conspiração, mais ela se espalha. Desse modo, entende-se por teoria da conspiração uma ideia falsa que é aceita pelas pessoas. A obra de Álvaro Borba e Ana Lersnovski é uma espécie de antídoto contra ela.

Veja abaixo alguns capítulos da obra, que desconstroem as principais teorias conspiratórias que corroem a mente de parte da população do Brasil:

Capítulo 1 - Teorias conspiratórias são irrefutáveis, mas isso não as torna verdadeiras.
Capítulo 6 - Direitos humanos não são uma ferramenta de dominação global.
Capítulo 7 - Politicamente correto é coisa da direita.
Capítulo 12 - Ideologia de gênero, não; Estudos de gênero, sim.
Capítulo 16 - Vacinas são seguras.
Capítulo 17 - A Terra é plana, e mais: ela gira em torno do sol.
Capítulo 19 - Não há razão para duvidar das mudanças climáticas.
Capítulo 21 - O Foro de São Paulo jamais foi uma organização secreta.
Capítulo 22 - A lei Rouanet não é uma mamata.

    Observando-se os títulos dos capítulos, percebe-se que é uma obra que não possui a necessidade de ser lida de uma maneira linear. Se você quiser pode começar desconstruindo aquele assunto que você mais ouve falar por aí, como a ideia de que a Terra é plana ou de que a lei Rouanet é coisa de vagabundo esquerdista para roubar dinheiro público.
    Um dos méritos da obra é ser uma crítica realista, honesta e objetiva sobre pensamentos, ideias, teorias conspiratórias que se popularizaram em meio ao senso comum de grupos mais vulneráveis: pessoas de várias faixas etárias, que em geral possuem pouca leitura e baixo ou nenhum conhecimento dos procedimentos da pesquisa científica. Não é à toa que a maioria dessas pessoas nunca deve ter lido algo de Richard Dawkins, Umberto Eco, Maquiavel, Gramsci, Freud, Hannah Arendt ou Paulo Freire. Tudo que dizem saber é por intermédio do “guru”, que fez todo o trabalho sozinho. E elas, não se dão o trabalho de checar o conteúdo da obra.
    Portanto, creio que a obra de Álvaro Borba e Ana Lersnovski se situa em meio a um paradoxo: virar referência dos mais estudiosos contra a pseudointelectualidade e, por outro lado, ser criticada pelos alienados como ofensa ao “guru”. Desse modo, não cabe a este texto resumir a obra para os preguiçosos que se alimentam do senso comum, mas provocar o desejo dos que buscam o saber por conta própria, como ensinava Horácio e Kant: “Ouse saber!”.

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