18/12/2019

O que é um energúmeno?


Por Oseias Marques Padilha





A palavra energúmeno é utilizada para designar uma pessoa possessa, endemoninhada, ou, se não quisermos apelar para uma espécie de semiologia oriunda das profundezas, podemos encontrar na língua portuguesa outras definições, como por exemplo, uma pessoa desequilibrada ou descontrolada. A grande pergunta que todas essas informações suscita é: quais destas designações melhor se adéquam a Paulo Freire, o maior educador da história do Brasil e um dos maiores do mundo? Eu ousaria dizer que as duas primeiras. Calma! Tenho razões puramente etimológicas para isso.

A palavra demônio radica no grego δαίμων (daímon), e na antiguidade era utilizada como referência a um espírito puro e intermediário, inferior as demais divindades. Entretanto, por volta do século IX a.C., o grande poeta Homero utilizava em seus versos épicos esta mesma palavra fazendo alusão a divindades. Desse modo, pode – se perceber que a palavra demônio não era compreendida como uma espécie de entidade puramente maligna ou diabólica, acepção que vai adquirir uma maior predominância na cultura judaico-cristã.

Sócrates por exemplo, foi um dos maiores energúmenos da história da Filosofia. O pensador grego, que fora mestre de outro energúmeno chamado Platão, afirmava ser auxiliado por um demônio, um espírito guia que por diversas vezes o havia livrado de vários perigos. Conforme afirma Reale(1990, p.95), muitos estudiosos ficaram perplexos “diante desse daimonion. E as exegeses que dele foram propostas são as mais díspares. Alguns pensaram que Sócrates estivesse ironizando, outros falaram de voz da consciência, outros do sentimento que perpassa o gênio.”. Independentemente do que realmente fosse esse daimonion, para Reale, não era ele a fonte da reflexão filosófica de Sócrates. Porém, em seu julgamento, entre outras questões, esta também acabou sendo levantada pelos acusadores de Sócrates, embora em tom extremamente jocoso. Contudo, Sócrates foi condenado à morte pelo tribunal de Atenas por introduzir novas entidades divinas e corromper a juventude. Na realidade, o que incomodava em Sócrates eram suas interpelações, diante das quais eram capazes de soçobrar os mais incríveis sábios de seu tempo. Sócrates foi condenado por querer que a juventude de seu tempo pensasse.

Pensar envolve inquietações. Quando somos inquietados por algo, é com este algo que nos ocupamos e muitas vezes de forma absolutamente angustiante. Não é à toa que a expressão “possuir demônios”, pode ser entendida também como uma metáfora para inquietações. E nesse sentido, energúmeno, enquanto sinônimo de endemoninhado se adéqua perfeitamente a Paulo Freire, um educador que durante toda sua vida, fora tomado por inquietações em face dos problemas sociais de seu tempo, muitos dos quais ainda perduram, seja em maior ou menor intensidade, como por exemplo, o analfabetismo.

Paulo Freire, criara um método capaz de alfabetizar 300 pessoas em 40 horas, concentrando – se na realidade vivida por elas cotidianamente. O educador brasileiro era movido pela máxima apresentada em sua obra Pedagogia da Autonomia “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 2007, p.47). Desse modo, Paulo Freire retira o aluno de uma condição essencialmente passiva no processo ensino-aprendizagem, na qual o mesmo se apresentaria como um mero depósito de conhecimento, a fim de posteriormente reproduzir o que lhe foi passado, trazendo a lume a autonomia do discente neste processo. Enquanto o aluno aprende ele também cria e constrói. Do mesmo modo, o professor aprende enquanto ensina. Dá para perceber, que qualquer tentativa de rotular Paulo Freire como um doutrinador, não passa de um profundo desconhecimento de seu pensamento, ou, até mesmo uma falta de probidade intelectual. É importante destacar aqui também, que Paulo Freire nunca foi terraplanista, nunca questionou o fato da terra girar em torno do sol e também jamais foi contra o método científico. Atitudes que aqueles que responsabilizam seu método de ensino e seu pensamento pelo baixo desempenho do Brasil no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) praticam escancaradamente.

De Sócrates na Grécia antiga à Paulo Freire no Brasil, o mundo foi habitado por diversos energúmenos. Energúmenos certamente incomodam. Por esta razão, quando desafiam o poder e instituições corruptas, e estão ligados à luta por justiça social, seus algozes lançam mão das mais diversas técnicas de exorcismo. Mas vale o preço, pois como disse Ludwig Fuerbach, outro energúmeno, “Prefiro ser um demônio aliado a verdade, do que ser um anjo aliado a mentira”.




 Referências



           BORBA, Álvaro. LESNOVSKI, Ana. Tudo o que você precisou desaprender para              virar um idiota.  São Paulo : Planeta do Brasil, 2019.

           FREIRE,Paulo. Pedagogia da Autonomia : saberes necessários à pratica                           educativa. São Paulo : Paz e Terra, 2007.

          FEUERBACH, Ludwig. A Essência do Cristianismo. Petrópolis, RJ : Editora Vozes            LTDA, 2007.


GOBRY, Ivan. Vocabulário Grego da Filosofia. WMF Martins Fontes, 2007.

REALE,Giovanni. DÁRIO, Antisseri. História da Filosofia - Antiguidade e Idade                 Média. São Paulo: Paulus,1990.




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