15 de agosto de 2019

Resenha: "Desigualdade" de Eduardo Moreira


Por: Jonas J. Berra


       Sabe-se que ao longo do século XX o capitalismo se tornou predominante no mundo ocidental com base em valores liberais como a liberdade, a iniciativa privada e a competitividade. Foi a partir desses valores que o homem ocidental foi se tornando cada vez mais individualista e egoísta, contra os valores do coletivismo que predominava nas sociedades tribais mais antigas. É em defesa de uma sociedade em que as pessoas sejam menos individualistas e egoístas é que Moreira propõe uma crítica ao que ele considera o maior problema do Brasil: a desigualdade.
         Seria muito bom se a tese de Eduardo Moreira fosse analisada por todos de um modo menos preconceituoso e mais racional. Afinal, não se trata de um astrólogo, ator pornô ou youtuber teen, mas um ex-banqueiro de investimento que tem a experiência real sobre um mundo de injustiças e desigualdades.
          Na obra “Desigualdade”, ele apresenta um pouco de sua trajetória desde a saída do mercado financeiro até se dedicar ao entendimento das comunidades que vivem em situação de vulnerabilidade social.
       Moreira propõe uma nova forma de compreender a riqueza, não em termos de dinheiro, individualismo e exclusão, mas recursos, comunidade e inclusão. Afinal, “vivemos no país que possui a maior desigualdade social do mundo, com 1% mais rico concentrando a maior parcela do total da renda gerada” (MOREIRA, 2019, p. 26).
      Dentre as vantagens ou qualificações da obra está o fato de que foi escrita principalmente voltada ao público leigo em economia. Dessa forma, pode ser usada como uma fonte de estudos inicial. Além disso, possibilita que pessoas dos diferentes níveis culturais leiam e compreendam onde o autor pretende chegar com suas ideias.
        Mas aí que está o “calcanhar de Aquiles” por assim dizer. O que não é um erro, porque provavelmente tenha sido intencional. Mas Moreira não coloca fontes bibliográficas. O texto todo parece ser um relato pessoal de sua experiência real, juntando com teorias econômicas e sociais que para quem vem da academia, salta aos olhos que não são ideias novas. Porém, por não ter referências parecem ser ideias do próprio Moreira. São evidentes ideias fundamentais de Rousseau e Marx, por exemplo. Parece uma tentativa de não se vincular às esquerdas. O que como estratégia pode ser válida, mas que coloca em xeque a cienticidade de suas ideias, já que é muito fácil acusá-las de não terem base teórica e não passarem de senso comum.
           Essa prática de não citar e escrever textos livres, contudo, levanta uma inquietação, que é a de se parecer com o texto de outros autores, de ideologia oposta, e que se utilizam de práticas anticientíficas por desprezarem o saber acadêmico e as letras. O que seria muito injusto, para quem conhece o discurso e acompanha a vida de Eduardo Moreira.
            O fato de não citar grandes economistas e filósofos parece uma técnica para pegar os iletrados desprevenidos, os fazendo ler a respeito daquilo que já tacharam de esquerdismo. Por essa razão, é uma obra que possui um grande mérito e pode contribuir muito com o desenvolvimento de um novo modo de pensar a economia brasileira fora de caixinhas ideológicas. 

MOREIRA, Eduardo. Desigualdade & caminhos para uma sociedade mais justa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.

Nenhum comentário :