15 de maio de 2019

Resenha: Peixes coloridos de Alto-Mar (Paulo Sandrini).

Por: Everton Marcos Grison


            Parece ser o movimento, no sentido pensado por Heráclito na Grécia antiga. O deslocamento do Ser e as intempéries estonteantes que representa a realidade mais imediata, o acontecimento diante dos olhos. É assustadoramente crível perceber que o ser humano é um movimento de “arremedo de si mesmo”, o pior que podia ser após uma chuva ácida desastrosamente gerada pela mesquinhez, egoísmo, destruição e individuação, expressões que nos definem enquanto seres caminhantes e defecantes.
            É no sentido de Thomas Hobbes e sua concepção de uma natureza humana má, que precisa dos freios do Estado, desse Leviatã que lhe controla a vida, os prazeres e aplica os desprazeres, pois soltos a própria sorte somos o pior do que podia ser. Parece o suprassumo da maledicência, da catástrofe anunciada, do grito das bocas silenciadas que insistem em dizer que somos uma total aberração cognitiva e causamos vergonha aos seres irracionais.
            O livro é movimento, tapa na cara e assalto de consciência. Lembra muito o cuidado linguístico de Dante Alighieri, que aparece citado na obra. Este mar com peixes coloridos em festa vem antes ou depois do Inferno da Divina Comédia? Certamente não estão relacionados à subida cansativa do Purgatório, que literamente cansa de ser lido, ou a monotonia do Amor de Dante e Beatriz no Céu. O Céu é sem graça e Dante faz questão de registrar isso.
            Sandrini elabora um livro apimentado por uma excelente carreira literária, trajeto de militância que não se arvorou aos ditames do mercado editorial, para estar na lista dos mais vendidos. Poderíamos dizer que é o autor que vai ser realmente reconhecido depois de morto. Eis uma das nossas facetas do quanto somos ridículos e fracos, do quanto carregamos a pedra como Sísifo na mitologia e no livro de Albert Camus, mesmo sabendo que vai dar sempre no mesmo e o resultado está traçado.
            Por vezes é o movimento do ódio e para saber trabalhar com isso é preciso mãos de aço. Sandrini nesta obra parece um observador que colocou uma capa de chuva, e está vendo as manchas aparecerem pelo corpo, enquanto anota tudo o que vê e aquilo que sente, do belo mundo que seus olhos presenciam. As cenas são muito fortes e, portanto, verdadeiras.
            A força da imagem transmitida pelas palavras lembra José Saramago e seu Ensaio sobre a Cegueira, mas com uma diferença muito específica: peixes coloridos de alto-mar é mais perverso. A força da imagem em movimento lembra o cuidado com a cena orquestrado por Raduan Nassar, nas obras: Um copo de Cólera e Lavoura Arcaica. Na verdade, a força da palavra se impõe dizendo: “chega de me comparar com os outros. Ninguém fez igual a mim. Audácia é para poucos e eu tive coragem de colocar tudo isso no papel. O embrulho queima. Pegue-o”.
            O livro, publicado pela Editora Kafka (Kafka teria orgulho dessa obra), possui 170 páginas, com um interessante texto de abertura (prefácio não é. Introdução não é. Enfim...) de Fernando Koproski, que ressalta: “É aquele tipo de livro que me faz acreditar em Literatura apesar da tamanha descrença desses tempos em que vivemos”. Essa mesma crença nos mobilizou a escrever essas parcas linhas, para dizer que o livro é um clássico. Provavelmente Nietzsche diria: é um extemporâneo. Cuidado,  pois a chuva se aproxima e as manchas começam a fisgar! Esperamos não ter estragado a festa. Do contrário, usem a automática com a mão firme e sem titubear. 

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