28 de janeiro de 2019

Resenha: “Cartas de uma Menina Presa (Débora Diniz e Talia)


Por: Everton Marcos Grison

“um livro para se demorar uma década”.

           
            Trata-se de um grande assalto. A pesquisadora é furtada pela jovem infratora, mas não nos seus bens materiais. Talia retira as categorias de uma pesquisadora, ambientada com o espaço do presídio, pois a investigação sobre a realidade das presas já havia se apresentado no livro: “Cadeia: relatos sobre Mulheres” (Civilização Brasileira, 2015). Neste livro, o subtítulo poderia ser uma anatomia do abandono, pois é exatamente isso que acontece com grande parte das presidiárias e os presidiários no Brasil. Há uma máquina sistemática da negação da ressocialização.
            Ocorre uma situação diferente no livro de cartas, publicado pela editora Letras Livres, no qual Débora se comunica com Talia, interna da Unidade Socioeducativa de Internação de Santa Maria, no Distrito Federal. A singularidade desse acontecimento, que não são apenas cartas, não se trata de uma denúncia, não é um drama, não é uma comédia, não é um romance. É o puro gênero da tragédia anunciada do roubo da liberdade, do fórceps que cala a voz de quem errou e precisa exorcizar seus sentidos por meio da fala. A fala, a escrita são negadas às internas, que fazem das paredes o papel de exorcismo de suas existências.
            O assalto é generalizado pois, enquanto a pesquisadora tem suas categorias colocadas em cheque, as próprias internas analisam o furto da justiça, materializado na caneta da juíza que nega e permite benefícios, a partir de critérios inscritos em planilhas bem organizadas, com relatórios de bons comportamentos, mas que não conseguem traduzir e falar da palavra dor, da ausência da liberdade, do esforço para se tornar alguém melhor. Os relatórios auxiliam a reforçar processos travados, que dão pouca perspectiva, aumentam o ódio e mantém as mãos das internas conectadas com a criminalidade.
            A acometida do tempo é  tamanha que só sobra o tempo da demora, da espera que não termina e do dia que não chega. Qual dia? Aquele em que a interna poderá tomar banho de chuva, molhando além das pontas dos dedos por entre as grades. Os sonhos são muitos, mas muitos infelizmente serão tragados pelo ritmo da rua, a sanha do crime, as falhas de oportunidades e a escassez de opções. Não é uma questão se escolher o crime, mas de ser conduzida pela própria mão a um pacto de sangue, que mata o primeiro que trair.
            A agressão deixa marcas e a principal delas é definida pelo tédio, ou seja, a inexistência de atividades, que ocupem o tempo, façam o indivíduo encaixar os cacos da existência, trocando as engrenagens ruins e azeitando as dobras de sua vida. “O tédio é insuportável. O que me ajuda a fazer os dias passarem um pouco mais rápido é a leitura. Eu leio todos os tipos de livro: história, mitologia grega, ação, suspense, espírita etc... Os livros são a minha fuga” (p. 09).
            Fuga do quê parece se perceber, mas para onde? Eis um dilema complexo e que tritura a mente da jovem Talia, pois quando lhe é concedido um benefício para sair no Natal, marcada com o gosto da desesperança da negação de um benefício anterior, para visitar a mãe no seu aniversário, tendo cumprido todo o ritual de regras e comportamentos, este novo benefício não havia sido solicitado e ao mesmo tempo que lhe traz alegria a saída, uma nuvem de tristeza se apresenta diante dos olhos, pois está desacostumada no tema da liberdade:

“E agora fico sabendo de uma noticia que eu já esperava, mas que não deixou de ser surpresa: eu ganhei um benefício de saída no dia do Natal. Uma parte de mim ficou feliz, mas outra, triste. Eu tenho um bom comportamento, meu relatório desceu excelente, todos da equipe técnica e da segurança me elogiaram para a juíza, eu fiz pedidos de saída e ela não respondeu nenhum, e mandou um ofício autorizando a minha saída em uma data que nem cheguei a pedir. Ela negou os outros pedidos e aceitou só o do Natal? Por quê?” (p. 83)


            O benefício assume um papel de prova, ou seja, se trata de um teste para ver se o interno vai resistir ao olhar convidativo da vida antiga, do acesso rápido à criminalidade, ao tráfico... Está em jogo uma análise de quanto a tranca se naturalizou na vida desse ser, do quanto ela ocupou espaços antes recheados de vida e risco. A investida completa da tranca é o retorno da interna, depois de três dias, para a vida mórbida da cadeia de papel:  


O benefício é um teste. Dia santo é um mercado bom para armadilha da vida antiga. Mas o que se testa nessa saída solitária de três dias? A morbidez da tranca. Não há isso de reabilitação, regeneração, ressocialização, ou qualquer outra palavra difícil para justificar os sentidos da prisão. O relatório excelente diz que você não tem gritado com menina ou donagente, encartuchado coisa proibida ou descumprido procedimento. Com isso, estaria preparada para sair, mas esquece o relatório que o mundo fora da tranca está o mesmo. É um teste: se pinar, é porque a rua ganhou; se voltar, é porque a esperança moveu as suas pernas... O benefício santo foi uma prova de ousadia: você ter que ser outra na rua, sendo a rua a mesma de antes. Eu não sei o que faria no seu lugar: voltar ou pinar não é escolha, é opção maldita” (p. 85).

            O sistema todo parece costurado com a linha do azar, que mantém os pontos atados, mas eles parecem estar espalhados diante de uma malha que se desfaz no corpo dos internos. Os poucos sonhos se desfazem na morbidez, nas dificuldades diárias, na herança da rua, que não se altera para receber o novo indivíduo produzido pelo Estado. A rua está de braços abertos para acariciar as dores de cada ser, sem qualquer alteração, promovendo os momentos de anestesia, com a cobrança da doação da vida. Ocorre quase que um pacto, pois cada ser perde se estiver ausente da rua e perde se estiver presente nela, pois suas possibilidades são micrológicas e seu nome será mais um no obituário daqueles que não passam dos quarenta anos.
            Como analisar isso, pensar enquanto ser que possui experiência, trabalhos reconhecidos internacionalmente, com uma intensa atuação em diferentes áreas do conhecimento, além de toda a proteção daqueles que são sábios, pois desses será o reino da proteção? Débora Diniz demonstra claramente sua grandeza e porque muitos lhe odeiam. É porque ela é honesta. Nada mais. Temos alguém honesto que troca cartas com as jovens da Unidade Socioeducativa de Internação de Santa Maria, no Distrito Federal.
            Trata-se da grandiosidade de alguém com 46 anos que reconhece para outro ser com 30 anos a menos, que a sua existência é uma antítese:

Não é fácil viver aí. A cada três dias, quando durmo no módulo, o cheiro demora a despregar de mim. Os sons do mundo me perturbam, a viagem de volta para casa é sempre apressada. Não sei por que acelero, se daí três dias volto. Eu era uma das pessoas que desconheciam a sua realidade. Agora a conheço e não sei ainda o que fazer com ela. Talvez eu não tenha a mente boa, talvez eu seja uma fraca; melhor confessar: não sou tão parecida a você. Eu não conseguiria sobreviver tanto tempo em uma tranca sem saber o dia da liberdade” (p. 89).

            Essa honestidade intelectual é um traço de poucos, infelizmente, pois manifesta o cuidado com a vida do outro. Seria mais fácil manter-se no pedestal da tranquilidade acadêmica, que igualmente ao presídio, produz relatórios para poucos lerem, alguns aceitarem e outros negarem os benefícios. É um mundo corporativo, protegido e de castas. Entretanto, o veio antropológico que cobra seu preço, exige o reconhecimento e posiciona cada indivíduo em contato com outro ser. Para ser antropólogo é necessário pagar um preço alto: se desfazer das amaras da proteção é um passo dado apenas pelos grandes.
            Para viver na cadeia de papel,

“...não uma cadeia de verdade, mas uma cadeia de papel: tem muros, grades, maldades e injustiças, mas não chega a ser uma cadeia do sistema prisional. Sabe qual é a diferença? Aqui apesar de não ser igual à cadeia regular, nós vamos para a escola; aqui, não precisamos pagar para dormir e comer; aqui, não precisamos dividir uma cela com trinta pessoas; aqui, nós temos um acompanhamento e pessoas que se preocupam com nós, e os agentes da segurança, não andam com uma arma apontada para nós. Essas são as diferenças”. “(p. 91)

            Não é simples, pois todos os dias são permeados pelas mais inusitadas relações e os mais complexos acontecimentos. Não basta ter sangue frio, ter fogo nos olhos e “peitar” os demais. O problema, para além da disputa, está nos momentos se silêncio, quando cada uma está em sua cela, perdida em pensamentos e lidando com o choque do escuro solitário. O rosto da solidão é enlouquecedor e leva muitas a saltarem no vazio do fim da existência. Muitas conseguem sucesso no salto. Já outras, quando estão perto de chegarem ao chão, tem o calcanhar agarrado pela interrupção. Até quando, é uma pergunta com resposta de ampulheta.
            O livro se organiza em um total de 24 pares de cartas trocadas entre Débora Diniz e Talia, além de finalizar com um “capitulo” de confissões da autora, perpassada e despida da figura de pesquisadora. Ao fim há uma espécie de glossário intitulado “palavra de menina”, que apresenta os significados de palavras e expressões usadas na cadeia. O download do e-book pode ser feito gratuitamente, e o livro físico pode ser adquirido por meio de contato com o ANIS (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero), em sua página no facebook. Os valores arrecadados com a venda, serão usados para ajudar a custear um curso a distância que Talia está fazendo.
 A cadeia é um lugar  linguístico, pois para além do som encravado nas paredes, existe as dobras das linguagens que se fazem por resistência. São pura criação. Por ser adornado de criação, sofrimento e choque, as 105 páginas do livro exigem uma década para serem digeridas. É possível deglutir o assalto da liberdade do Outro? Eis uma questão para daqui dez anos.

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