26 de novembro de 2018

Capitalismo, o melhor sistema para se viver?


Por: Andrej Carraro

Não faz muito tempo que youtubers de (extrema) direita soltaram suas pérolas como a de que “Marx é responsável pela morte de milhões de pessoas”, “o comunismo matou mais gente que o nazismo”, “Che Guevara era um assassino sanguinário”, entre tantas outras baboseiras ditas sem aprofundamentos teóricos, ou melhor, por pura desonestidade intelectual. Criaram por todo esse tempo um conceito deformado da esquerda, a transformando em grupos de pessoas ou partidos com propósitos malignos na Terra. Algo preocupante que culminou no massacre das fake news sobre os partidos de esquerda nas ultimas eleições no Brasil, principalmente o Partido dos Trabalhadores e alavancou o crescimento do fascismo e a vitória da extrema direita para governar a partir de 2019.
Esse discurso é preocupante, pois se trata de uma grande mentira contada várias vezes até se tornar verdade, uma tática Goebbelista que conseguiu atingir seu objetivo. Outro agravante nessa crescente onda de ódio para cima de partidos de esquerda e comunistas ou qualquer coisa que supõem ser comunista é a retirada do foco nos reais problemas do mundo: o sistema capitalista. E fortalecem o conceito de que é “o melhor sistema em que a humanidade pode existir”. Esse consenso é a maior preciosidade dos capitalistas que permanecem explorando os trabalhadores e trabalhadoras cada vez mais alienados e crentes que estão vivendo no sistema mais justo e livre possível.
Com o crescimento de lideranças fascistas (Brasil, 2018) e a sua chegada ao poder, a esquerda se vê obrigada a fazer uma reflexão e a se unir, mas têm um grande trabalho pela frente que é derrubar o senso comum anticomunista e construir uma nova compreensão da realidade, mais progressista e com interesse à classe trabalhadora. Derrubar aqueles conceitos que formaram o senso comum popular anticomunista é uma tarefa fácil para um bom entendedor de política, mas é tarefa árdua tornar isso um entendimento popular.
Enquanto isso, grandes empresários e banqueiros estão com a faca e o garfo na mesa esperando o banquete que o novo governo lhes oferecerá, sem medidas que promovam qualquer tipo de reforma bancária ou agrária e sem medo de fazer reformas trabalhista e previdenciária, pelo menos em primeiro momento ainda usufruindo da popularidade.
Consequentemente o novo governo colocará na bandeja da privatização nossas estatais e enfraquecerá a soberania nacional, ironicamente por um governo que se diz patriota, dando inicio a neocolonização que insiste na América Latina e no chamado outrora de Terceiro Mundo. Mas o que isso tem a ver com os youtubers conservadores do início do texto? Trata-se de uma cortina de fumaça ideologicamente falsa que criou uma grande teoria da conspiração mirabolante com inspiração nas falácias de Olavo de Carvalho, o mesmo “grande filósofo” que diz que "vacinas servem para adoecer" e a "Terra é plana".
A verdade é que não existem sistemas perfeitos. Também é verdade que nunca existiu e nem existe atualmente um país comunista (Marx) e seria praticamente impossível que surgisse no mundo atual. Existiram e existem países governados por socialistas, que sobrepõem políticas parcialmente socialistas em suas nações. Cuba, por exemplo, é um país cujo governo exerce forte política socialista internamente, mas precisa sustentá-lo abrindo para economias capitalistas, ou seja, importa e exporta assim como também tem como forte movimentação econômica o turismo. Logo, nem mesmo socialismo (anterior ao comunismo segundo Marx) existe plenamente em qualquer lugar do mundo sendo que para isso precisaria derrubar a hegemonia capitalista global.
Mao Tse-Tung à esquerda e Josef Stalin à direita.
Em relação às milhões de mortes provocadas pelo comunismo e que foram impulsionadas pela ideologia marxista é outra grande sacada dos olavetes de plantão. Existe uma grande insistência em dizer que comunismo é pior que nazismo, pois matou mais (e até mesmo que nazismo é de esquerda). De fato, em nenhum momento deveríamos passar a mão na cabeça de Stalin e nem de Mao, mas as milhões de mortes ordenados por Hitler foram impulsionadas pelo antissemitismo e pela crença da superioridade alemã acima de outras nações. É fato que muitas pessoas morreram na URSS e na China de Mao, mas a razões estão muito mais ligadas aos erros estratégicos de governos e pela exaustiva exploração da massa de trabalhadores na construção de uma nova nação que seja forte suficientemente para permanecer independente do capitalismo e para competir com a política expansionista dos EUA.
Outra grande desonestidade está em culpar Karl Marx por essas mortes, sendo que nunca na sua vida escreveu um livro relatando a “sua luta” contra alguma “raça” e concordando com seu extermínio. Marx foi um pensador cujo princípio ideológico era a liberdade dos trabalhadores. Quanto a Che Guevara, vale lembrar que se trata de um revolucionário que guerreou com um exército de outros revolucionários contra um exército militar cubano do governo Batista e numa guerra se mata ou morre, infelizmente. Essa falácia é facilmente derrubada com a leitura de livros de História.
Mas e o capitalismo? É o melhor sistema para a humanidade? Para a humanidade, certamente que não, mas para algumas dezenas de pessoas é excelente! O capitalismo como o próprio nome diz, é um sistema em que os que ditam as regras são os capitalistas. Mas quem são os capitalistas? Detentores de meios de produção ou qualquer outro meio de poder sobre uma imensa maioria, cuja sua imensa propriedade privada e bens lhes colocam a uma posição que permite controlar as outras classes através do preço e circulação de mercadoria e também controlar as leis constitucionais.
Para esses que interessa a alienação popular, a degradação da capacidade crítica, a dependência pelo celular, games, programas de televisão, o projeto Escola sem Partido, a onda anticomunista, privatizações etc, tudo isso para manter e expandir seus bens, propriedades, luxo e poder. Não interessa para essa minoria mais rica da população mundial uma educação libertadora, que estimule o pensamento crítico, pois isso colocará em risco o seu sistema. Não interessa para elas um mundo mais igualitário, muito pelo contrário, lucra com a desigualdade. Não interessa um mundo de paz porque lucra com a guerra. Não interessa que países pobres e subdesenvolvidos se desenvolvam social e economicamente porque perde sua (neo)colônia, onde extrai e explora seus recursos naturais a baixo custo, em países ou continentes riquíssimo em sua natureza, mas com sérios problemas sociais e econômicos. Investem na derrubada de governos, causam caos, implantam a “bagunça” social justamente para que esses países não se organizem rumo ao desenvolvimento tornando-os presas fáceis de um grupo de ricaços que estão às sombras de governos e militares pelo interesse na exploração de trabalho e da terra alheia. Não é à toa que nenhum país da África e da America Latina é desenvolvido plenamente.
A exploração do homem pelo homem está sendo anestesiada pela religião e pela ideia de que trabalho lhe trará riquezas, enganam os trabalhadores, mentem! Enquanto destroem a natureza e seguem com a exterminação de povos nativos. Envenenam a terra, a água e o ar tudo pelo “desenvolvimento” e “crescimento”, mas somente o desenvolvimento e crescimento de suas riquezas, suas terras, suas contas bancárias, suas mordomias e poder.
Não estão preocupados com a saúde das pessoas, mas sim em vender remédios e serviços médicos quase sempre sem compromisso com a cura plena de doenças, pois lucram com a doença alheia.
O capitalismo é o sistema que não produz alimento para a humanidade, mas para vender à humanos e quem não tem condições que se virem com as políticas governamentais ou ONGs se tiver sorte de existir no seu país. Como consequência disso, da maioria que não pode pagar e nem usufrui de assistências governamentais ou de ONGs, cerca de 18 milhões de crianças morrem de fome anualmente.
Não vemos críticos colocar na conta do capitalismo a exploração de crianças e mulheres grávidas até dar a luz dentro das fábricas em troca de mixaria de salário apenas para sobreviver, não contabilizam as mortes por inanição das pessoas dependentes de trabalhadores que ganhavam essa mixaria. Nem de trabalhadores na construção de grandes edifícios de empresas pela falta de equipamentos de segurança. Nem contabilizam a alta taxa de mortalidade infantil no “grande” século da Revolução Industrial na Inglaterra, nem em qualquer país que ainda sofre com essa barbárie. As mortes por petróleo, pelo ouro, diamantes vamos colocar na conta do capitalismo? E para concluir, a destruição da natureza que extingue milhares de espécies de animais e plantas, o aquecimento global, o desgelo nos polos, a caça para vender peles, chifres, dentes, penas, óleos de animais, não vamos colocar na conta capitalismo? Toda essa situação que vivemos hoje em relação ao nosso planeta se não houver uma mudança radical entraremos na era da extinção da humanidade e para isso é preciso acabar com esse sistema que lucra com a destruição, é preciso acabar com o capitalismo. Se não for assim, não apenas bilhões de pessoas morrerão, mas TODA a humanidade morrerá e consigo levará praticamente todas as espécies de animais. Definitivamente esse é o pior sistema para a humanidade.



Fontes:

GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Tradução de Sérgio Faraco. Montevidéu: LP&M, 2010.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos.O breve século XX 1914-1991. 2 ed. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MARX, Os Pensadores. Manuscritos Econômico-filosóficos e outros textos escolhidos/ Karl Marx; seleção de textos de José Arthur Giannotti; traduções de José Carlos Bruni...(et al.). - 2. ed. - São Paulo: Abril Cultural, 1978.
Onde o Socialismo deu Certo? Disponível em: <http://omarxistaleninista.blogspot.com>. Acesso em: 25/11/2018.
EL Che. Direção de Matías Gueilburt. Argentina/Cuba: Netiflix, 2017. (119 min.), son., color.
CUBA e o Cameraman. Direção de Jon Alpert. EUA: Netiflix, 2017. (114 min.), son., color.


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