29 de novembro de 2018

A cultura de venerar policiais e o esquecimento dos reais problemas da criminalidade

                                                                                                  Por: Andrej Carraro




 Não precisamos fazer muito esforço para encontrar vídeos de algum policial, em exercício de sua função, passando orientações, dando alguma notícia de apreensão de drogas, armas ou de prisão de alguma pessoa ou uma quadrilha, etc. Ainda há os vídeos com propósitos humorísticos, como perseguições (de carro ou a pé) ou mesmo algum “tapa na nuca” de alguém que está sendo revistado, vídeos que muitas vezes viram memes da internet. Mas o que é inegável é que na sociedade, seja na internet ou fora dela, há uma alta aprovação, respeito e admiração aos policiais. São profissionais que encontram fácil apoio popular mesmo que algumas atitudes sejam exageradas se configurando como abusos de poder e mesmo que as pessoas não estejam cientes do contexto do vídeo. Tanto que ver em um vídeo um rapaz de calção floral e chinelo sendo rendido ao chão por um policial, já é um bom motivo para arrancar aplausos de muita gente e enchem o peito para falar os chavões “tem que tomar pau” e “bandido bom é bandido morto”.
O foco desse texto não é discutir as atitudes de policiais se estão certas ou erradas, não é discutir o fim da polícia e nem dizer que devemos deixar os “bandidos em paz, pois são vítimas da sociedade”. O que deveríamos entender é que no Brasil, se venera policiais, mas se esquece das políticas de combate à criminalidade, odeiam os bandidos ou qualquer suspeito (mesmo sendo ainda suspeito) e esquecem que não é apenas apoiando policiais que estaremos combatendo o crime, precisamos saber o que fazer para combatê-lo de uma maneira mais inteligente.
Os índices de criminalidade e violência no Brasil são altos e o crescimento da população carcerária anual é assustador. O que colabora com isso é o número de presos por tráfico de drogas, sendo que em 2014 cerca de 67,7% dos presos por tráfico de maconha tinham menos de 100 gramas, ou seja, baixa quantidade da droga que mais se caracteriza para consumo próprio. Enquanto vemos o preconceito por uma parte de civis e por uma parte de policiais em relação à maconha, o álcool continua matando muito mais, sendo considerada por alguns estudos 144 vezes mais letal que a maconha.
Não existe hoje no país um interesse popular em discutir combate aos crimes e violência, mas existe uma forte onda de ódio que colabora até mesmo com o extermínio e a diminuição da maioridade penal. Há uma crença que os policiais são a solução e que é preciso aumentar o número desses profissionais nas ruas em combate ao tráfico e melhorar o seu salário e assim estaremos no caminho certo à um descenso de criminalidade no pais. Não há dúvidas que a polícia é necessária, merece sim um salário digno e é o Brasil o líder do ranking de país onde mais morrem policiais. Porém existem outras alternativas que podem colaborar com o combate ao crime. Primeiro que em um período de 14 anos o número de escolas no Brasil reduziu de 200.549 escolas públicas em 1994 para 161.783 em 2009, uma queda de 19,3% segundo o IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - e no mesmo período o número de presídios aumentou 253%, 511 presídios em 1994 e 1806 em 2009. Definitivamente o Brasil investiu mais em punição que educação. O resultado disso é o crescimento da desigualdade social, o crescimento da violência e criminalidade, aumento de 450% da população carcerária sendo que 55% (mais da metade) estão entre 18 a 29 anos. Essas políticas retrógradas de fechamentos de escolas e construção de presídios como de São Paulo no governo Alckmin, Paraná no governo Beto Richa e Rio Grande do Sul de Sartori são facilmente verificáveis na internet, assim como em outros Estados.
Prisão holandesa.
Também é de fácil acesso as notícias de que alguns países da Europa estão fechando presídios por falta de presos. Holanda, segundo a revista Super Interessante, em 2017 fechou cerca de 24 presídios devido a queda de 43% de detentos na última década. A solução encontrada para essa redução e o esvaziamento das cadeias está na modificação das leis, na descriminalização das drogas, na forma de tratar certos crimes e também como puni-los. Em alguns casos, é preferível que a pessoa que tenha cometido algum delito cumpra a pena com multa, mas solto e trabalhando normalmente, perto de sua família. Se o problema é com dívida, negocia-se a dívida, se o problema é drogas, procura-se tratar o vício. Os presídios mudaram os ares de lugar com aspectos sombrios e visto como um ambiente negativo com apenas finalidade de punir para se tornar um lugar mais arborizado, com mais atividades físicas, com quadras de esportes, bibliotecas e menos estresses tanto para detentos quanto para os guardas.
Isso geraria estranheza por aqui, pois veriam como “tratamento vip para bandidos”. Mas a questão é: até quando vamos tratar detentos como lixo, jogá-lo numa cela sem se importar com a superlotação em um presídio fedorento e insalubre? Essa maneira de tratar pessoas já vem se mostrando um verdadeiro fracasso por muito tempo. A vontade de punir é maior que a de resolver os problemas. Tratar detentos como escórias é uma maneira de torná-los mais agressivos e as chances de reincidências aumentam em um sistema prisional que coloca na mesma cela um grande criminoso com um preso por pequeno delito, além de ser um sistema estressante e desumano, se torna uma escola do crime, lembrando que cerca de 40% dos presos no Brasil nem sequer foram condenados, mas estão presos.
O Brasil precisa, com urgência, tratar desse assunto. Trata-se de segurança pública, uma medida que poderia resultar numa melhora do sistema prisional brasileiro e até mesmo funcionar no combate ao crime, uma vez que estaríamos cuidando melhor de quem estamos colocando na cadeia e cada crime ser tratado de forma específica, acabando de vez com as “escolas do crime” nas cadeias e o teu amigo que fuma “unzinho” todo dia, mas trabalha e nunca fez nada de mal à ninguém pode ficar tranquilo que não será preso por portar 50 gramas de maconha e ser colocado junto com um traficante que comanda uma facção inteira de uma cela.
Concluindo, a solução vai muito além de apoio aos policiais e entendemos que é sim importante esse apoio, mas os problemas não serão resolvidos apenas com punição e devemos, sim, repudiar os abusos de autoridade, como também devemos nos preocupar, sim, com essa cultura de venerar policiais.

Referências:

67,7% dos presos por tráfico de maconha tinham menos de 100 gramas da droga. Disponível em: <https://ultimosegundo.ig.com.br>. Acesso em 28/11/2018.
Álcool é 144 vezes mais letal que a maconha, segundo pesquisas. Disponível em: <https://oglobo.globo.com>. Acesso em 28/11/2018.
Holanda enfrenta ‘crise penitenciária’; sobram celas, faltam condenados. Disponível em <https://www.bbc.com>. Acesso em: 28/11/2018.
Por falta de presos, Holanda fecha 24 prisões. Disponível em: <https://super.abril.com.br>. Acesso em: 28/11/2018.
Suécia e Holanda fecham prisões. Brasil fecha escolas e abre presídios. Disponível em: <https://professorlfg.jusbrasil.com.br>. Acesso em: 28/11/2018.


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