10 de abril de 2018

PLATÃO



Por: Jonas J. Berra

       Conhecido como um dos maiores pensadores de todos os tempos, juntamente com seu mestre Sócrates e seu discípulo Aristóteles, Platão nasceu em 428 a.C. na Grécia Antiga e faleceu no ano de 347 a.C. Suas ideias influenciaram a religião, a ética, a política e a teoria do conhecimento no mundo ocidental de modo decisivo, principalmente ao que se popularizou como a teoria das ideias e a alegoria da caverna.
       Ao ler a obra “Politeía”, que curiosamente ficou famosa pela tradução latina como “A República”, podemos ficar perplexos com a negatividade com que ele trata a ideia de democracia. Deve ser devido a influência sofrida pela injusta morte de seu mestre Sócrates, que foi obrigado a tomar um veneno após ser julgado culpado (de corromper a juventude e de não crer nos deuses da cidade) pelos políticos de Atenas. Essa influência é tão decisiva que as obras de Platão, escritas em forma de diálogo, tem como principal personagem a figura emblemática de Sócrates.
        Percebe-se que que as motivações que levaram os políticos a votarem democraticamente a condenação de Sócrates eram baseadas no ódio e na ignorância. Esta que seria a marca daqueles que vivem na “caverna”, como descrito no livro VII de “Politeía”, a conhecida “Alegoria da Caverna”. 
       Para Platão, a realidade é dividida em mundo sensível e mundo das ideias. Mas ele não tirou essa diferença magicamente de dentro de uma cartola. Quem já apontava para o mundo sensível era o filósofo Heráclito, que defendia a mudança. E quem já apontava para uma realidade não material e, portanto, mundo das ideias, era o Parmênides, que defendia a ideia de permanência. A partir do conhecimento das duas filosofia, de Heráclito e Parmênides, que Platão construiu a sua teoria, optando majoritariamente pelo pensamento de Parmênides. Observa-se a imagem abaixo, em que temos a ideia de cavalo (mundo das ideias) da qual origina o cavalo físico (no mundo sensível). 
        O verdadeiro conhecimento, portanto, não está nas coisas sensíveis, mas no mundo imaterial, das ideias. É através da dialética que é se torna possível que nossa alma acesse o mundo das ideias, onde está o verdadeiro conhecimento, a essência das coisas. 

Senso comum --> Conhecimento 
     Doxa          --> Episteme          

       Para demonstrar como a sua teoria a respeito dos dois mundos está correta, Platão criou a famosa "Alegoria da caverna", na qual existem prisioneiros dentro de uma caverna, cuja única realidade observável são as sombras projetadas diante da parede à sua frente. Isso acontece porque desde o nascimento eles estão acorrentados e não podem mover a cabeça para trás, apenas para frente e olhar para o fundo da caverna. Atrás deles há um caminho e mais atrás ainda há uma fogueira. Pelo caminho passam pessoas e animais carregando objetos, que tem suas sombras projetadas na parece pela luz do fogo. Certo dia um dos prisioneiros é libertado e retirado da caverna. Ao sair fica quase que cego devido à forte luz do Sol, mas aos poucos vai percebendo que o mundo que conhecia era muito limitado e ilusório. Depois de um tempo ele resolve voltar para contar o que descobriu aos seus companheiros, mas nenhum deles parece estar disposto a acreditar, pois ele próprio é visto apenas como uma mera sombra no fundo da caverna. 
        Para se ter uma ideia do método dialético utilizado por Platão em suas obras, pode-se ler o seguinte trecho em que o personagem Sócrates fala a respeito da "Alegoria da caverna" a seu amigo Glauco. 

Texto: A alegoria da caverna – A República (514a-517c)

Sócrates: Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo.

Glauco: Entendo

Sócrates: Então, ao longo desse pequeno muro, imagine homens que carregam todo o tipo de objetos fabricados, ultrapassando a altura do muro; estátuas de homens, figuras de animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. Provavelmente, entre os carregadores que desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros se calam.

Glauco: Estranha descrição e estranhos prisioneiros!

Sócrates: Eles são semelhantes a nós. Primeiro, você pensa que, na situação deles, eles tenham visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos que o fogo projeta na parede da caverna à sua frente?

Glauco: Como isso seria possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça imóvel?

Sócrates: Não acontece o mesmo com os objetos que desfilam?

Glauco: É claro.

Sócrates: Então, se eles pudessem conversar, não acha que, nomeando as sombras que vêem, pensariam nomear seres reais?

Glauco: Evidentemente.

Sócrates: E se, além disso, houvesse um eco vindo da parede diante deles, quando um dos que passam ao longo do pequeno muro falasse, não acha que eles tomariam essa voz pela da sombra que desfila à sua frente?

Glauco: Sim, por Zeus.

Sócrates: Assim sendo, os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objetos fabricados.

Glauco: Não poderia ser de outra forma.

Sócrates: Veja agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados de sua desrazão. Tudo não aconteceria naturalmente como vou dizer? Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente. Na sua opinião, o que ele poderia responder se lhe dissessem que, antes, ele só via coisas sem consistência, que agora ele está mais perto da realidade, voltado para objetos mais reais, e que está vendo melhor? O que ele responderia se lhe designassem cada um dos objetos que desfilam, obrigando-o com perguntas, a dizer o que são? Não acha que ele ficaria embaraçado e que as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco: Certamente, elas lhe pareceriam mais verdadeiras.

Sócrates: E se o forçassem a olhar para a própria luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram?

Glauco: Sem dúvida alguma.

Sócrates: E se o tirarem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros.

Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos primeiros momentos.

Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos outros objetos refletidas na água, depois os próprios objetos. Em segundo lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para a luz dos astros e da lua mais facilmente que durante o dia para o sol e para a luz do sol.

Glauco: Sem dúvida.

Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra superfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o sol tal como é.

Glauco: Certamente.
Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que é ele que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que é, de algum modo a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

Glauco: É indubitável que ele chegará a essa conclusão.

Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros, não acha que ficaria feliz com a mudança e teria pena deles?

Glauco: Claro que sim.

Sócrates: Quanto às honras e louvores que eles se atribuíam mutuamente outrora, quanto às recompensas concedidas àquele que fosse dotado de uma visão mais aguda para discernir a passagem das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se lembrar com exatidão daquelas que precedem certas outras ou que lhes sucedem, as que vêm juntas, e que, por isso mesmo, era o mais hábil para conjeturar a que viria depois, acha que nosso homem teria inveja dele, que as honras e a confiança assim adquiridas entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não pensaria antes, como o herói de Homero, que mais vale “viver como escravo de um lavrador” e suportar qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna e viver como se vive lá?

Glauco: Concordo com você. Ele aceitaria qualquer provação para não viver como se vive lá.

Sócrates: Reflita ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do sol?

Glauco: Naturalmente.

Sócrates: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?

Glauco: Sem dúvida alguma, eles o matariam.

Sócrates: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo o caso eis o que me aparece tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a idéia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.

Glauco: Tanto quanto sou capaz de compreender-te, concordo contigo.


Referências:

A Alegoria da caverna: A Republica, 514a-517c tradução de Lucy Magalhães. In: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: dos Pré- socráticos a Wittgenstein. 2a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Ética: De Platão a Foucault. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

REALI, Giovani. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulus, 1990.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da Filosofia. 2 ed.  São Paulo: Odysseus Editora, 2005. 


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