29 de novembro de 2018

A cultura de venerar policiais e o esquecimento dos reais problemas da criminalidade

                                                                                                  Por: Andrej Carraro




 Não precisamos fazer muito esforço para encontrar vídeos de algum policial, em exercício de sua função, passando orientações, dando alguma notícia de apreensão de drogas, armas ou de prisão de alguma pessoa ou uma quadrilha, etc. Ainda há os vídeos com propósitos humorísticos, como perseguições (de carro ou a pé) ou mesmo algum “tapa na nuca” de alguém que está sendo revistado, vídeos que muitas vezes viram memes da internet. Mas o que é inegável é que na sociedade, seja na internet ou fora dela, há uma alta aprovação, respeito e admiração aos policiais. São profissionais que encontram fácil apoio popular mesmo que algumas atitudes sejam exageradas se configurando como abusos de poder e mesmo que as pessoas não estejam cientes do contexto do vídeo. Tanto que ver em um vídeo um rapaz de calção floral e chinelo sendo rendido ao chão por um policial, já é um bom motivo para arrancar aplausos de muita gente e enchem o peito para falar os chavões “tem que tomar pau” e “bandido bom é bandido morto”.
O foco desse texto não é discutir as atitudes de policiais se estão certas ou erradas, não é discutir o fim da polícia e nem dizer que devemos deixar os “bandidos em paz, pois são vítimas da sociedade”. O que deveríamos entender é que no Brasil, se venera policiais, mas se esquece das políticas de combate à criminalidade, odeiam os bandidos ou qualquer suspeito (mesmo sendo ainda suspeito) e esquecem que não é apenas apoiando policiais que estaremos combatendo o crime, precisamos saber o que fazer para combatê-lo de uma maneira mais inteligente.
Os índices de criminalidade e violência no Brasil são altos e o crescimento da população carcerária anual é assustador. O que colabora com isso é o número de presos por tráfico de drogas, sendo que em 2014 cerca de 67,7% dos presos por tráfico de maconha tinham menos de 100 gramas, ou seja, baixa quantidade da droga que mais se caracteriza para consumo próprio. Enquanto vemos o preconceito por uma parte de civis e por uma parte de policiais em relação à maconha, o álcool continua matando muito mais, sendo considerada por alguns estudos 144 vezes mais letal que a maconha.
Não existe hoje no país um interesse popular em discutir combate aos crimes e violência, mas existe uma forte onda de ódio que colabora até mesmo com o extermínio e a diminuição da maioridade penal. Há uma crença que os policiais são a solução e que é preciso aumentar o número desses profissionais nas ruas em combate ao tráfico e melhorar o seu salário e assim estaremos no caminho certo à um descenso de criminalidade no pais. Não há dúvidas que a polícia é necessária, merece sim um salário digno e é o Brasil o líder do ranking de país onde mais morrem policiais. Porém existem outras alternativas que podem colaborar com o combate ao crime. Primeiro que em um período de 14 anos o número de escolas no Brasil reduziu de 200.549 escolas públicas em 1994 para 161.783 em 2009, uma queda de 19,3% segundo o IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - e no mesmo período o número de presídios aumentou 253%, 511 presídios em 1994 e 1806 em 2009. Definitivamente o Brasil investiu mais em punição que educação. O resultado disso é o crescimento da desigualdade social, o crescimento da violência e criminalidade, aumento de 450% da população carcerária sendo que 55% (mais da metade) estão entre 18 a 29 anos. Essas políticas retrógradas de fechamentos de escolas e construção de presídios como de São Paulo no governo Alckmin, Paraná no governo Beto Richa e Rio Grande do Sul de Sartori são facilmente verificáveis na internet, assim como em outros Estados.
Prisão holandesa.
Também é de fácil acesso as notícias de que alguns países da Europa estão fechando presídios por falta de presos. Holanda, segundo a revista Super Interessante, em 2017 fechou cerca de 24 presídios devido a queda de 43% de detentos na última década. A solução encontrada para essa redução e o esvaziamento das cadeias está na modificação das leis, na descriminalização das drogas, na forma de tratar certos crimes e também como puni-los. Em alguns casos, é preferível que a pessoa que tenha cometido algum delito cumpra a pena com multa, mas solto e trabalhando normalmente, perto de sua família. Se o problema é com dívida, negocia-se a dívida, se o problema é drogas, procura-se tratar o vício. Os presídios mudaram os ares de lugar com aspectos sombrios e visto como um ambiente negativo com apenas finalidade de punir para se tornar um lugar mais arborizado, com mais atividades físicas, com quadras de esportes, bibliotecas e menos estresses tanto para detentos quanto para os guardas.
Isso geraria estranheza por aqui, pois veriam como “tratamento vip para bandidos”. Mas a questão é: até quando vamos tratar detentos como lixo, jogá-lo numa cela sem se importar com a superlotação em um presídio fedorento e insalubre? Essa maneira de tratar pessoas já vem se mostrando um verdadeiro fracasso por muito tempo. A vontade de punir é maior que a de resolver os problemas. Tratar detentos como escórias é uma maneira de torná-los mais agressivos e as chances de reincidências aumentam em um sistema prisional que coloca na mesma cela um grande criminoso com um preso por pequeno delito, além de ser um sistema estressante e desumano, se torna uma escola do crime, lembrando que cerca de 40% dos presos no Brasil nem sequer foram condenados, mas estão presos.
O Brasil precisa, com urgência, tratar desse assunto. Trata-se de segurança pública, uma medida que poderia resultar numa melhora do sistema prisional brasileiro e até mesmo funcionar no combate ao crime, uma vez que estaríamos cuidando melhor de quem estamos colocando na cadeia e cada crime ser tratado de forma específica, acabando de vez com as “escolas do crime” nas cadeias e o teu amigo que fuma “unzinho” todo dia, mas trabalha e nunca fez nada de mal à ninguém pode ficar tranquilo que não será preso por portar 50 gramas de maconha e ser colocado junto com um traficante que comanda uma facção inteira de uma cela.
Concluindo, a solução vai muito além de apoio aos policiais e entendemos que é sim importante esse apoio, mas os problemas não serão resolvidos apenas com punição e devemos, sim, repudiar os abusos de autoridade, como também devemos nos preocupar, sim, com essa cultura de venerar policiais.

Referências:

67,7% dos presos por tráfico de maconha tinham menos de 100 gramas da droga. Disponível em: <https://ultimosegundo.ig.com.br>. Acesso em 28/11/2018.
Álcool é 144 vezes mais letal que a maconha, segundo pesquisas. Disponível em: <https://oglobo.globo.com>. Acesso em 28/11/2018.
Holanda enfrenta ‘crise penitenciária’; sobram celas, faltam condenados. Disponível em <https://www.bbc.com>. Acesso em: 28/11/2018.
Por falta de presos, Holanda fecha 24 prisões. Disponível em: <https://super.abril.com.br>. Acesso em: 28/11/2018.
Suécia e Holanda fecham prisões. Brasil fecha escolas e abre presídios. Disponível em: <https://professorlfg.jusbrasil.com.br>. Acesso em: 28/11/2018.


26 de novembro de 2018

Capitalismo, o melhor sistema para se viver?


Por: Andrej Carraro

Não faz muito tempo que youtubers de (extrema) direita soltaram suas pérolas como a de que “Marx é responsável pela morte de milhões de pessoas”, “o comunismo matou mais gente que o nazismo”, “Che Guevara era um assassino sanguinário”, entre tantas outras baboseiras ditas sem aprofundamentos teóricos, ou melhor, por pura desonestidade intelectual. Criaram por todo esse tempo um conceito deformado da esquerda, a transformando em grupos de pessoas ou partidos com propósitos malignos na Terra. Algo preocupante que culminou no massacre das fake news sobre os partidos de esquerda nas ultimas eleições no Brasil, principalmente o Partido dos Trabalhadores e alavancou o crescimento do fascismo e a vitória da extrema direita para governar a partir de 2019.
Esse discurso é preocupante, pois se trata de uma grande mentira contada várias vezes até se tornar verdade, uma tática Goebbelista que conseguiu atingir seu objetivo. Outro agravante nessa crescente onda de ódio para cima de partidos de esquerda e comunistas ou qualquer coisa que supõem ser comunista é a retirada do foco nos reais problemas do mundo: o sistema capitalista. E fortalecem o conceito de que é “o melhor sistema em que a humanidade pode existir”. Esse consenso é a maior preciosidade dos capitalistas que permanecem explorando os trabalhadores e trabalhadoras cada vez mais alienados e crentes que estão vivendo no sistema mais justo e livre possível.
Com o crescimento de lideranças fascistas (Brasil, 2018) e a sua chegada ao poder, a esquerda se vê obrigada a fazer uma reflexão e a se unir, mas têm um grande trabalho pela frente que é derrubar o senso comum anticomunista e construir uma nova compreensão da realidade, mais progressista e com interesse à classe trabalhadora. Derrubar aqueles conceitos que formaram o senso comum popular anticomunista é uma tarefa fácil para um bom entendedor de política, mas é tarefa árdua tornar isso um entendimento popular.
Enquanto isso, grandes empresários e banqueiros estão com a faca e o garfo na mesa esperando o banquete que o novo governo lhes oferecerá, sem medidas que promovam qualquer tipo de reforma bancária ou agrária e sem medo de fazer reformas trabalhista e previdenciária, pelo menos em primeiro momento ainda usufruindo da popularidade.
Consequentemente o novo governo colocará na bandeja da privatização nossas estatais e enfraquecerá a soberania nacional, ironicamente por um governo que se diz patriota, dando inicio a neocolonização que insiste na América Latina e no chamado outrora de Terceiro Mundo. Mas o que isso tem a ver com os youtubers conservadores do início do texto? Trata-se de uma cortina de fumaça ideologicamente falsa que criou uma grande teoria da conspiração mirabolante com inspiração nas falácias de Olavo de Carvalho, o mesmo “grande filósofo” que diz que "vacinas servem para adoecer" e a "Terra é plana".
A verdade é que não existem sistemas perfeitos. Também é verdade que nunca existiu e nem existe atualmente um país comunista (Marx) e seria praticamente impossível que surgisse no mundo atual. Existiram e existem países governados por socialistas, que sobrepõem políticas parcialmente socialistas em suas nações. Cuba, por exemplo, é um país cujo governo exerce forte política socialista internamente, mas precisa sustentá-lo abrindo para economias capitalistas, ou seja, importa e exporta assim como também tem como forte movimentação econômica o turismo. Logo, nem mesmo socialismo (anterior ao comunismo segundo Marx) existe plenamente em qualquer lugar do mundo sendo que para isso precisaria derrubar a hegemonia capitalista global.
Mao Tse-Tung à esquerda e Josef Stalin à direita.
Em relação às milhões de mortes provocadas pelo comunismo e que foram impulsionadas pela ideologia marxista é outra grande sacada dos olavetes de plantão. Existe uma grande insistência em dizer que comunismo é pior que nazismo, pois matou mais (e até mesmo que nazismo é de esquerda). De fato, em nenhum momento deveríamos passar a mão na cabeça de Stalin e nem de Mao, mas as milhões de mortes ordenados por Hitler foram impulsionadas pelo antissemitismo e pela crença da superioridade alemã acima de outras nações. É fato que muitas pessoas morreram na URSS e na China de Mao, mas a razões estão muito mais ligadas aos erros estratégicos de governos e pela exaustiva exploração da massa de trabalhadores na construção de uma nova nação que seja forte suficientemente para permanecer independente do capitalismo e para competir com a política expansionista dos EUA.
Outra grande desonestidade está em culpar Karl Marx por essas mortes, sendo que nunca na sua vida escreveu um livro relatando a “sua luta” contra alguma “raça” e concordando com seu extermínio. Marx foi um pensador cujo princípio ideológico era a liberdade dos trabalhadores. Quanto a Che Guevara, vale lembrar que se trata de um revolucionário que guerreou com um exército de outros revolucionários contra um exército militar cubano do governo Batista e numa guerra se mata ou morre, infelizmente. Essa falácia é facilmente derrubada com a leitura de livros de História.
Mas e o capitalismo? É o melhor sistema para a humanidade? Para a humanidade, certamente que não, mas para algumas dezenas de pessoas é excelente! O capitalismo como o próprio nome diz, é um sistema em que os que ditam as regras são os capitalistas. Mas quem são os capitalistas? Detentores de meios de produção ou qualquer outro meio de poder sobre uma imensa maioria, cuja sua imensa propriedade privada e bens lhes colocam a uma posição que permite controlar as outras classes através do preço e circulação de mercadoria e também controlar as leis constitucionais.
Para esses que interessa a alienação popular, a degradação da capacidade crítica, a dependência pelo celular, games, programas de televisão, o projeto Escola sem Partido, a onda anticomunista, privatizações etc, tudo isso para manter e expandir seus bens, propriedades, luxo e poder. Não interessa para essa minoria mais rica da população mundial uma educação libertadora, que estimule o pensamento crítico, pois isso colocará em risco o seu sistema. Não interessa para elas um mundo mais igualitário, muito pelo contrário, lucra com a desigualdade. Não interessa um mundo de paz porque lucra com a guerra. Não interessa que países pobres e subdesenvolvidos se desenvolvam social e economicamente porque perde sua (neo)colônia, onde extrai e explora seus recursos naturais a baixo custo, em países ou continentes riquíssimo em sua natureza, mas com sérios problemas sociais e econômicos. Investem na derrubada de governos, causam caos, implantam a “bagunça” social justamente para que esses países não se organizem rumo ao desenvolvimento tornando-os presas fáceis de um grupo de ricaços que estão às sombras de governos e militares pelo interesse na exploração de trabalho e da terra alheia. Não é à toa que nenhum país da África e da America Latina é desenvolvido plenamente.
A exploração do homem pelo homem está sendo anestesiada pela religião e pela ideia de que trabalho lhe trará riquezas, enganam os trabalhadores, mentem! Enquanto destroem a natureza e seguem com a exterminação de povos nativos. Envenenam a terra, a água e o ar tudo pelo “desenvolvimento” e “crescimento”, mas somente o desenvolvimento e crescimento de suas riquezas, suas terras, suas contas bancárias, suas mordomias e poder.
Não estão preocupados com a saúde das pessoas, mas sim em vender remédios e serviços médicos quase sempre sem compromisso com a cura plena de doenças, pois lucram com a doença alheia.
O capitalismo é o sistema que não produz alimento para a humanidade, mas para vender à humanos e quem não tem condições que se virem com as políticas governamentais ou ONGs se tiver sorte de existir no seu país. Como consequência disso, da maioria que não pode pagar e nem usufrui de assistências governamentais ou de ONGs, cerca de 18 milhões de crianças morrem de fome anualmente.
Não vemos críticos colocar na conta do capitalismo a exploração de crianças e mulheres grávidas até dar a luz dentro das fábricas em troca de mixaria de salário apenas para sobreviver, não contabilizam as mortes por inanição das pessoas dependentes de trabalhadores que ganhavam essa mixaria. Nem de trabalhadores na construção de grandes edifícios de empresas pela falta de equipamentos de segurança. Nem contabilizam a alta taxa de mortalidade infantil no “grande” século da Revolução Industrial na Inglaterra, nem em qualquer país que ainda sofre com essa barbárie. As mortes por petróleo, pelo ouro, diamantes vamos colocar na conta do capitalismo? E para concluir, a destruição da natureza que extingue milhares de espécies de animais e plantas, o aquecimento global, o desgelo nos polos, a caça para vender peles, chifres, dentes, penas, óleos de animais, não vamos colocar na conta capitalismo? Toda essa situação que vivemos hoje em relação ao nosso planeta se não houver uma mudança radical entraremos na era da extinção da humanidade e para isso é preciso acabar com esse sistema que lucra com a destruição, é preciso acabar com o capitalismo. Se não for assim, não apenas bilhões de pessoas morrerão, mas TODA a humanidade morrerá e consigo levará praticamente todas as espécies de animais. Definitivamente esse é o pior sistema para a humanidade.



Fontes:

GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Tradução de Sérgio Faraco. Montevidéu: LP&M, 2010.
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos.O breve século XX 1914-1991. 2 ed. Tradução de Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MARX, Os Pensadores. Manuscritos Econômico-filosóficos e outros textos escolhidos/ Karl Marx; seleção de textos de José Arthur Giannotti; traduções de José Carlos Bruni...(et al.). - 2. ed. - São Paulo: Abril Cultural, 1978.
Onde o Socialismo deu Certo? Disponível em: <http://omarxistaleninista.blogspot.com>. Acesso em: 25/11/2018.
EL Che. Direção de Matías Gueilburt. Argentina/Cuba: Netiflix, 2017. (119 min.), son., color.
CUBA e o Cameraman. Direção de Jon Alpert. EUA: Netiflix, 2017. (114 min.), son., color.


29 de outubro de 2018

Redação sobre a Violência contra a mulher

Por: Fernando Dias
Aluno do Colégio Estadual professora 
Marli Queiroz Azevedo

       As mulheres sofrem com a violência doméstica há séculos, decorrente de uma sociedade patriarcal. Diante disso, no Brasil conseguimos a criação da lei Maria da Penha que tem como objetivo protegê-las. Porém, o medo de uma reação violenta de seus parceiros acaba impedindo que a denúncia ocorra, tornando a aplicabilidade desta lei ainda mais complicada. 
        Nós ainda vivemos em uma sociedade que tem como base de sua organização o patriarcado, colocando assim, o homem como superior às mulheres. Com isso, os mesmos acabam pensando que detêm o direito de agredir suas parceiras e as mesmas não podem realizar nenhuma denúncia, visto que elas possuem o medo de uma reação ainda mais agressiva de seus parceiros frente a uma possível queixa. Isto acaba dando cada vez mais poder ao agressor, enquanto a vítima se vê coagida a aceitar as repetitivas agressões sem conseguir recorrer à ajuda de terceiros. 
        A mulher agredida, na grande maioria dos casos, acaba se sentindo humilhada e culpada, por conta de pessoas que justificam as agressões pelo seu comportamento e vestuário. Este fato, acaba se tornando outro fator que impede a vítima de denunciar, permitindo assim que o seu agressor fique livre para cometer o crime novamente.
       Nessa perspectiva, portanto, somente a criação de uma lei não é satisfatório. Diante disso, é necessário um incentivo maior para que essas vítimas realizem a denúncia e percebam que não devem assumir a culpa pelas agressões sofridas. Outro fator que deve ser combatido é o patriarcado, uma solução é o trabalho contínuo de conscientização tanto da sociedade atual, quanto das futuras gerações, para que assim seja possível desconstruir esse pensamento machista que vem oprimindo as mulheres. 

23 de agosto de 2018

12 de agosto de 2018

Sobre deficiência e o mercado de trabalho: uma reflexão filosófica


 Lucas Antonio Ferreira
Estudante de Ciências Sociais da UFPR

    O dia do trabalho, para mim, configura-se todos os anos como uma data lúgubre, tristonha, melancólica. Não consigo escrever sobre a história dos movimentos trabalhistas; não consigo falar sobre as conquistas dos trabalhadores de todo o mundo, tampouco demonstrar o otimismo incorrigível daqueles que veem nessa data um marco de reconhecimento e respeito ao trabalhador. Não; nesse caso, sou um eterno pessimista.
     No ano passado, em 1º de maio, eu questionei, através de um artigo, as horríveis condições de trabalho das pessoas com deficiência no país, e fui mais além: sem subterfúgios, falei de uma forma desassombrada sobre as enormes dificuldades que enfrentamos no mercado, sendo muitas vezes vistos como funcionários sem valor, incapazes de desempenhar qualquer função.
   Disse, sem muita convicção, que esperava escrever, neste ano, um texto menos pessimista. Entretanto, não consigo. Não posso simplesmente deixar de pensar em todos os problemas de dignidade e de falta de oportunidade que nos rondam sempre.
Somos pessoas com deficiência; para o mercado, talvez, sejamos apenas mecanismos imperfeitos que tendam se adequar à cruel máquina do capital. Não, não sou socialista; nem comunista, nem qualquer "ista" que me queiram imputar.
     Sou, apenas, alguém que luta por direitos sociais para minha classe. Direito à cidadania, à educação... mas também ao trabalho, trabalho digno e seguro. Eu sei o que você talvez esteja pensando, leitor; em seu íntimo, decerto está lembrando de um cego, ou surdo, ou cadeirante de suas relações, que trabalha em igualdade de condições com os demais. Sim, esses casos existem; mas podemos afirmar seguramente que são uma pequeníssima minoria. No Brasil e no mundo, infelizmente, ainda somos desprezados dentro das empresas, jogados para lá e para cá sem rumo nem esperança.
     Lutamos por respeito, por dignidade, por trabalho, por tudo. Nossos esforços, todavia, de pouco adiantam. Temos a LBI, ferramenta extremamente importante criada no governo Dilma para nos fornecer amplo amparo legal em nosso cotidiano, nas tantas vezes em que temos de brigar para garantir qualquer direito básico. Mas será suficiente? Garanto-vos que há muito o que melhorar, muito o que fazer até que possamos dizer que o Brasil é um país onde a inclusão é plenamente feita na prática. E a coisa não para por aí. Eu seria muito egoísta se, no dia de hoje, me limitasse a escrever apenas acerca das dificuldades dos deficientes na sociedade de mercado na qual vivemos.
      É preciso mencionar os demais excluídos, os demais marginalizados do sistema, os tantos e tantos componentes do lumpesinato hoje. "Lumpesinato? Que raio é isso?"
    Quando ouvi tal expressão pela primeira vez, senti certa estranheza: "teria ouvido direito? Que negócio era aquele?" Estávamos na primeira semana de aulas, e o professor, um senhor simpático, bonachão e de inconfundível sotaque, falava sobre as relações de trabalho. De repente, diz: "Porque o lumpesinato bla, bla, bla...". Não pude prestar atenção no restante da sentença. Rapidamente, sim, no mesmo momento, pesquisei na internet sobre aquilo; seria difícil continuar à acompanhar a aula sem entender aquele conceito. E a definição é muito simples! Em verdade, "lumpesinato" é apenas um nome pomposo para algo que está presente desde o início da sociedade.
     A grande camada social pobre, sem recursos, trabalho formal ou consciência política é, segundo teorias da sociologia, chamada "lumpesinato". E como está tal classe no Brasil? Infelizmente, tem aumentado muito nos últimos anos. Em Curitiba, mesmo, podemos notar sem grande esforço um número cada vez maior de pessoas recorrendo ao trabalho informal a fim de garantir a subsistência para si e para os seus. São vendedores de doces, confeitos, chaveiros, água... viajando em nosso transporte público, dia a dia tentando ganhar algum dinheiro. Estão também nos semáforos, esquinas, praças, sobrevivendo numa cidade que, tantas vezes, não os acolhe como cidadãos.
    A realidade atual é triste; pessoas com deficiência, imigrantes, indígenas e tantos outros grupos vivem, em sua maioria, a margem do mercado. Não conseguem um trabalho digno, nem tampouco uma oportunidade de emprego onde possam se desenvolver como sujeitos de sua própria história. Há alguma solução?

17 de junho de 2018

O problema ético do aborto no Brasil

Por:Ohayna Lisboa
(aluna do ensino médio no colégio estadual Ivo Leão - Curitiba-Pr)


Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br

          A interrupção proposital de uma gravidez através da falência e retirada do feto é denominado aborto, um tema que fere questões morais, religiosas e culturais. A prática pode levar as mulheres a morte, ou caso sejam denunciadas, serem exclusivamente punidas pela legislação. 
          De acordo com estatísticas mundiais da ONU (Organização das Nações Unidas), 78% dos abortos são realizados em países subdesenvolvidos e 22% em desenvolvidos, sendo no Brasil a quinta maior causa de morte de mulheres. Das aproximadamente 800 mil mulheres que abortam anualmente, dessas, 200 mil tem alguma complicação e recorrem a hospitais. Pelas pesquisas do Ministério da Saúde, a cada dois dias há uma morte por complicações geradas pela prática clandestina sem ajuda de um profissional. 
          A lei determina que são praticas legais os abortos realizados nos seguintes casos: gravidez gerada de estupro, fetos anencefalia e risco de vida da mãe. Segundo o artigo 128, qualquer aborto que esteja fora dessas situações é considerado crime. Aquelas que abortam, caso sobrevivam, são denunciadas e presas, acusadas sozinhas. Seus parceiros não são considerados criminosos pelo código penal, mesmo tendo participação crucial sobre a gravidez. As mulheres também correm risco de vida, saúde e de serem detidas, enquanto seus parceiros ficam livres de quaisquer acusações. 
          O aborto não é uma prática ética e permitir que mulheres morram também não, portanto, a legalização não diminuiria a prática abortiva, porém, faria com que os índices de mortes de mulheres caíssem consideravelmente. Caso fosse legalizado, aquelas que optassem pelo aborto, teriam que passar por aconselhamento psicológico para obter certeza da escolha. Após o aborto, seguir utilizando os métodos contraceptivos. 

11 de junho de 2018

O problema ético do Aborto no Brasil

Por: Camila Vitória Xavier
(aluna do ensino médio no colégio estadual Ivo Leão - Curitiba-Pr)

Fonte: https://revistatrip.uol.com.br/tpm/precisamos-falar-sobre-aborto

          A interrupção da gravidez pela remoção do feto de seu desenvolvimento uterino é chamada de aborto. Precisa-se urgentemente de uma solução para diminuir o número de mulheres que morrem durante a realização da prática clandestina e a prisão das que são descobertas. 
          O aborto está entre os cinco problemas que mais matam mulheres no Brasil. A prática é proibida pela legislação e permitida apenas em casos de estupro, risco à vida da mãe e fetos anencéfalos. Muitas mulheres que realizam a prática clandestinamente não tem condições de criar a criança, não tem apoio do pai e/ou família, são ricas ou apenas não desejam ter o bebê e acabam recorrendo a métodos perigosos como; uso de remédios ou em clínicas que não possuem infraestrutura para realizar o procedimento, podendo levar as mulheres a óbito. 
          Para Débora Diniz, pesquisadora da Anis, "A cada um minuto uma mulher faz aborto no Brasil" - (publicado em 5 de novembro de 2016 pela revista Carta Capital). Se todas essas mulheres que realizam o aborto fossem presas, 525,600 mulheres seriam presas por ano. E os pais dos bebês abortados? O que acontece com eles? Nada, a lei é aplicada apenas para as mulheres e, então, o pai fica livre e a mãe presa. 
          Portanto, legalizar o aborto não significa influenciar as mulheres a realizá-lo, mas que campanhas de educação sexual e prevenção sejam reforçadas para evitá-lo. O aborto e um direito das mulheres decidirem o que querem para a vida e o corpo delas. O Estado deveria dar essa opção para as mulheres, evitando assim, serem presas ou mortas. 

7 de junho de 2018

Um antídoto em relação às Fake News

Por: Luiz Henrique Leme Dal Negro
(aluno do ensino médio no colégio estadual Ivo Leão - Curitiba - Pr). 

Fonte: Cena do filme Matrix I


          A arte e a cultura são fundamentais para a sociedade, pois sem elas nós não conseguimos viver. A arte é uma manifestação de algo que pode ser a expressão de emoções ou com a intenção de deixar um legado. Já a cultura são os costumes de um povo, que são herdados e permanecem até os dias atuais. 
          Um grande problema que encontramos na atualidade são as Fake News (notícias falsas). Essas notícias falsas são cada vez mais comuns, pois as pessoas compartilham e acreditam em qualquer coisa que encontram na internet, televisão e em diversas mídias. Essas notícias são encontradas com mais facilidade em aplicativos como o facebook, um tipo de mídia que muitas pessoas tem contato. 
          As Fake News tem como o principal objetivo fazer com que os leitores acreditem no que as notícias estão abordando, e as pessoas acreditam pois geralmente não conhecem o outro lado da história. 
          Portanto, estas Fake News podem ser combatidas utilizando e conhecendo melhor a arte e a cultura. Agregando com sabedoria essas duas coisas na nossa vida, isso nos fará pensar diferente e discutir sobre tais notícias. Uma maneira de agregar a arte e a cultura é estudando ela e tendo curiosidade para descobrir cada vez mais sobre esse assunto, assim obtendo mais conhecimento. 

4 de junho de 2018

A Cultura como antídoto em relação às Fake News

Por: Stefany Rodrigues Ferraz
(aluno do ensino médio no colégio estadual Ivo Leão - Curitiba-Pr). 

Fonte: http://entrementes12c.blogspot.com/2013/03/cultura_5082.html .

          Cultura é cultivar. É tudo aquilo que pode ser produzido, como por exemplo, a música, a escrita e a pintura. E é através da arte que as pessoas se expressam e se comunicam. 
          Com o aumento do uso da tecnologia está cada vez mais fácil reproduzir a arte e levar para um grande número de pessoas, mas essa arte reproduzida está se tornando uma mercadoria e perdendo seu valor e sua capacidade de incentivar as pessoas a pensar, formando uma sociedade alienada e preguiçosa, pois se esforçam muito em coisas desnecessárias e fúteis, para usufruírem pouco desse esforço. 
          Um exemplo dessa sociedade alienada é a grande relevância que estão dando as fake news, que são notícias falsas ou com a verdade distorcida, compartilhadas por pessoas "leitoras de títulos", que são aquelas que não veem necessidade de se aprofundar no assunto, mas o que importa é não ficar fora do tema do momento. Mas por que as pessoas acreditam em tudo que leem ou compartilham, sem saber se é realmente verdade? A recusa de refletir, em fazer perguntas difíceis e perceber as falhas de pensamento e de julgamento, levam-nas a pensar que se a notícia está pronta, com uma linguagem fácil, por que perder tempo pesquisando. Logo, a mídia usa disso para dispersar a atenção das pessoas dos assuntos relevantes e se beneficiar com isso. 
          É preciso que as pessoas despertem em si a sensibilidade e a curiosidade instigando-as a pensar, isso através da arte, pois ela instiga a pensar e esses raciocínios fazem com que sempre esteja se questionando, fazendo com que o cérebro sempre queira respostas, assim adquirindo novos conhecimentos. 
          Logo, o problema está no desconhecimento e desinformação das pessoas, na falta de capacidade de refletir sobre um determinado assunto a partir de diversos pontos de vista, pois pensar exige que elas confrontem suas próprias crenças. Assim, elas precisam se interessar em uma cultura mais complexa e se desprender de um pensamento mais simples, buscando o desconhecido, ler livros autênticos, participar de programas culturais, conhecer novas culturas para que quando lerem sobre um assunto, o interesse seja despertado, fazendo-as se aprofundar no assunto antes de compartilhar com outras pessoas.  

1 de junho de 2018

Como os desenvolvimentos da arte e da cultura podem funcionar como antídoto em relação a propagação de Fake News?

Por: Isabella Vicenzi Kratchei
(aluna do ensino médio no colégio estadual Ivo Leão em Curitiba-Pr)

Fonte: http://www.odiariodaregiao.com/arte-e-cultura/ 

          Para que possamos tratar das Fake News, afinal, o que são? Obviamente, se jogarmos esta frase em algum tradutor, obterá "notícias falsas". Mas afinal, o que é Fake News? Podemos começar pela globalização, o avanço da tecnologia que se dá até hoje, neste exato momento, por exemplo, em algum lugar do mundo está ocorrendo testes de automóveis autônomos que substituiriam os seres humanos atrás do volante, quão poderosa e acessível que é a tecnologia nos dias atuais, tão poderosa que nos permite ter acesso a todo tipo de conteúdo, inclusive aquelas que são produzidas para nos manipular. 
          Atualmente, podemos dizer que a nossa cultura é semelhante à época de Homero, onde suas histórias eram contadas em praças públicas, e aqueles que ouviam atentamente suas histórias, compartilhavam com seus entes cada verso absorvido. Semelhante pois, seguindo a obra "Ilíada" de Homero, adaptada para nossa realidade, é para a população, a vasta e inacabável internet, e nós somos aqueles que "escutam" e propagam sua mensagem. O que encontramos, na real face da sociedade é uma cultura-mercadoria, uma das formas em que o pensador Félix Guattari distinguiu o termo cultura, em que nos dias atuais, os seres humanos, produzem cultura em troca de lucro econômico, como filmes, que vieram a ser produzidos por conta de um livro escrito, no qual o autor visava o lucro, sabendo que as pessoas "comprariam" sua ideia. Podemos destacar também, manipulações políticas que se sucedem de Fake News, no qual os interessados obtém vantagens consideráveis sobre os outros, além obviamente, de obter apoio popular daqueles que propagam, sem confirmar a veracidade dos fatos, as Fake News.
           Podemos deduzir que, não só no Brasil, mas também no mundo, a propagação de Fake News nos acorrenta em um mundo de incertezas, ignorância e contradições. Um meio possível para que possa ser resolvida esta questão importante, que envolve toda a sociedade é o uso da imparcialidade através da divulgação da notícia contendo diversas faces da própria, para que o leitor possa chegar a uma conclusão sem ser guiado pela mídia, e principalmente do senso crítico, na leitura de notícias que possam conter uma visão pessoal do autor que poderia levar à conclusões precipitadas sobre certa questão e, desenvolvimento de todo e qualquer tipo de arte que temos acesso, sendo assim, as mensagens fidedignas seriam propagadas de maneira precisa e correta, sem qualquer tipo de manipulação tendenciosa. 

28 de maio de 2018

Arte, Cultura e as Fake News

Por: Myllena Retkwa Padilha
(aluna do ensino médio no Colégio Estadual Ivo Leão - Curitiba - Pr)

Fonte: https://ndonline.com.br


          A arte tem como concepção a manifestação de algo. Pode ser uma manifestação para expressar emoções, ou simplesmente pode ser um legado que os humanos deixam para as sociedades futuras.
          Segundo Nietzsche, a arte serve para embelezar a vida, é estimulante de poder, sendo assim, a arte deixa nossas vidas mais bonitas, e com um pouco mais de força e estímulo para continuarmos. 
          A cultura por sua vez, são os costumes e hábitos de um povo. Todos tem sua cultura, qualquer pessoa cria uma como o filósofo José Ortega y Gasset já dizia: "a cultura é uma necessidade imprescindível de toda uma vida, é uma dimensão constipodetutiva da existência humana [...]". 
          Segue-se atualmente a propagação de Fake News, notícias falsas que se propagam pela internet, jornais ou pela boca do povo que não procurou saber se é ou não verdade. A arte tem como amenizar isso. Pode-se criar músicas, livros, poesias, charges críticas entre várias outras coisas que ensinem as pessoas a procurarem a verdade, evitando propagar essas notícias que não passam de uma imitação de outras notícias, só que com a verdade totalmente distorcida. 

23 de maio de 2018

Um Antídoto para as Fake News

Por: Maria Vitória de Souza Ribeiro Dias 
(aluna do Ensino Médio no Colégio Estadual Ivo Leão - Curitiba - Pr

Fonte: Fonte: https://economia.uol.com.br
          Na obra russa "Anna Karênina", escrita no século XIX, o autor Liev Tolstói expõe a terrível condição a qual a personagem principal foi submetida, após a propagação de ideias falsas sobre seu caráter. Atualmente é indispensável salientar que as "fake news" agem de maneira semelhante e são um grave problema emergente na sociedade. 
          Os avanços tecnológicos contribuem significativamente para o acesso à informação, porém, a criação e divulgação de notícias inverossímeis se tornou constante, ato que, alarma a população, criando um efeito em cadeia, tendo como consequência a fácil disseminação de ilegitimidades.  
    Em decorrência dos fatos supracitados as "fake news" caracterizam-se como fontes de desinformação e farsas, propagadas por todo tipo de mídia, claramente um empecilho a ser combatido. 
        Portanto, é fundamental a criação de atividades artísticas como pinturas, músicas e obras literárias com o intuito de concientizar a todos, pois segundo Nietzsche "apenas os artístas, especialmente os do teatro, dotaram os homens de olhos e ouvidos para ver e ouvir [...]", o que geraria uma modificação em nossa cultura, evidenciando um aprimoramento no senso crítico popular, instigando o pensamento e a busca pela verdade. 


10 de abril de 2018

PLATÃO



Por: Jonas J. Berra

       Conhecido como um dos maiores pensadores de todos os tempos, juntamente com seu mestre Sócrates e seu discípulo Aristóteles, Platão nasceu em 428 a.C. na Grécia Antiga e faleceu no ano de 347 a.C. Suas ideias influenciaram a religião, a ética, a política e a teoria do conhecimento no mundo ocidental de modo decisivo, principalmente ao que se popularizou como a teoria das ideias e a alegoria da caverna.
       Ao ler a obra “Politeía”, que curiosamente ficou famosa pela tradução latina como “A República”, podemos ficar perplexos com a negatividade com que ele trata a ideia de democracia. Deve ser devido a influência sofrida pela injusta morte de seu mestre Sócrates, que foi obrigado a tomar um veneno após ser julgado culpado (de corromper a juventude e de não crer nos deuses da cidade) pelos políticos de Atenas. Essa influência é tão decisiva que as obras de Platão, escritas em forma de diálogo, tem como principal personagem a figura emblemática de Sócrates.
        Percebe-se que que as motivações que levaram os políticos a votarem democraticamente a condenação de Sócrates eram baseadas no ódio e na ignorância. Esta que seria a marca daqueles que vivem na “caverna”, como descrito no livro VII de “Politeía”, a conhecida “Alegoria da Caverna”. 
       Para Platão, a realidade é dividida em mundo sensível e mundo das ideias. Mas ele não tirou essa diferença magicamente de dentro de uma cartola. Quem já apontava para o mundo sensível era o filósofo Heráclito, que defendia a mudança. E quem já apontava para uma realidade não material e, portanto, mundo das ideias, era o Parmênides, que defendia a ideia de permanência. A partir do conhecimento das duas filosofia, de Heráclito e Parmênides, que Platão construiu a sua teoria, optando majoritariamente pelo pensamento de Parmênides. Observa-se a imagem abaixo, em que temos a ideia de cavalo (mundo das ideias) da qual origina o cavalo físico (no mundo sensível). 
        O verdadeiro conhecimento, portanto, não está nas coisas sensíveis, mas no mundo imaterial, das ideias. É através da dialética que é se torna possível que nossa alma acesse o mundo das ideias, onde está o verdadeiro conhecimento, a essência das coisas. 

Senso comum --> Conhecimento 
     Doxa          --> Episteme          

       Para demonstrar como a sua teoria a respeito dos dois mundos está correta, Platão criou a famosa "Alegoria da caverna", na qual existem prisioneiros dentro de uma caverna, cuja única realidade observável são as sombras projetadas diante da parede à sua frente. Isso acontece porque desde o nascimento eles estão acorrentados e não podem mover a cabeça para trás, apenas para frente e olhar para o fundo da caverna. Atrás deles há um caminho e mais atrás ainda há uma fogueira. Pelo caminho passam pessoas e animais carregando objetos, que tem suas sombras projetadas na parece pela luz do fogo. Certo dia um dos prisioneiros é libertado e retirado da caverna. Ao sair fica quase que cego devido à forte luz do Sol, mas aos poucos vai percebendo que o mundo que conhecia era muito limitado e ilusório. Depois de um tempo ele resolve voltar para contar o que descobriu aos seus companheiros, mas nenhum deles parece estar disposto a acreditar, pois ele próprio é visto apenas como uma mera sombra no fundo da caverna. 
        Para se ter uma ideia do método dialético utilizado por Platão em suas obras, pode-se ler o seguinte trecho em que o personagem Sócrates fala a respeito da "Alegoria da caverna" a seu amigo Glauco. 

Texto: A alegoria da caverna – A República (514a-517c)

Sócrates: Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo.

Glauco: Entendo

Sócrates: Então, ao longo desse pequeno muro, imagine homens que carregam todo o tipo de objetos fabricados, ultrapassando a altura do muro; estátuas de homens, figuras de animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. Provavelmente, entre os carregadores que desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros se calam.

Glauco: Estranha descrição e estranhos prisioneiros!

Sócrates: Eles são semelhantes a nós. Primeiro, você pensa que, na situação deles, eles tenham visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos que o fogo projeta na parede da caverna à sua frente?

Glauco: Como isso seria possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça imóvel?

Sócrates: Não acontece o mesmo com os objetos que desfilam?

Glauco: É claro.

Sócrates: Então, se eles pudessem conversar, não acha que, nomeando as sombras que vêem, pensariam nomear seres reais?

Glauco: Evidentemente.

Sócrates: E se, além disso, houvesse um eco vindo da parede diante deles, quando um dos que passam ao longo do pequeno muro falasse, não acha que eles tomariam essa voz pela da sombra que desfila à sua frente?

Glauco: Sim, por Zeus.

Sócrates: Assim sendo, os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objetos fabricados.

Glauco: Não poderia ser de outra forma.

Sócrates: Veja agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados de sua desrazão. Tudo não aconteceria naturalmente como vou dizer? Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente. Na sua opinião, o que ele poderia responder se lhe dissessem que, antes, ele só via coisas sem consistência, que agora ele está mais perto da realidade, voltado para objetos mais reais, e que está vendo melhor? O que ele responderia se lhe designassem cada um dos objetos que desfilam, obrigando-o com perguntas, a dizer o que são? Não acha que ele ficaria embaraçado e que as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco: Certamente, elas lhe pareceriam mais verdadeiras.

Sócrates: E se o forçassem a olhar para a própria luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram?

Glauco: Sem dúvida alguma.

Sócrates: E se o tirarem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros.

Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos primeiros momentos.

Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos outros objetos refletidas na água, depois os próprios objetos. Em segundo lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para a luz dos astros e da lua mais facilmente que durante o dia para o sol e para a luz do sol.

Glauco: Sem dúvida.

Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra superfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o sol tal como é.

Glauco: Certamente.
Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que é ele que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que é, de algum modo a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

Glauco: É indubitável que ele chegará a essa conclusão.

Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros, não acha que ficaria feliz com a mudança e teria pena deles?

Glauco: Claro que sim.

Sócrates: Quanto às honras e louvores que eles se atribuíam mutuamente outrora, quanto às recompensas concedidas àquele que fosse dotado de uma visão mais aguda para discernir a passagem das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se lembrar com exatidão daquelas que precedem certas outras ou que lhes sucedem, as que vêm juntas, e que, por isso mesmo, era o mais hábil para conjeturar a que viria depois, acha que nosso homem teria inveja dele, que as honras e a confiança assim adquiridas entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não pensaria antes, como o herói de Homero, que mais vale “viver como escravo de um lavrador” e suportar qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna e viver como se vive lá?

Glauco: Concordo com você. Ele aceitaria qualquer provação para não viver como se vive lá.

Sócrates: Reflita ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do sol?

Glauco: Naturalmente.

Sócrates: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?

Glauco: Sem dúvida alguma, eles o matariam.

Sócrates: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo o caso eis o que me aparece tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a idéia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.

Glauco: Tanto quanto sou capaz de compreender-te, concordo contigo.


Referências:

A Alegoria da caverna: A Republica, 514a-517c tradução de Lucy Magalhães. In: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: dos Pré- socráticos a Wittgenstein. 2a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Ética: De Platão a Foucault. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

REALI, Giovani. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulus, 1990.

ZINGANO, Marco. Platão & Aristóteles: o fascínio da Filosofia. 2 ed.  São Paulo: Odysseus Editora, 2005. 


19 de fevereiro de 2018

Doutorando propõe em tese alternativas de resistência à visão eurocêntrica do ensino de Filosofia

 Camille Bropp     19 de fevereiro de 2018 - 19h39
Assim que começou a lecionar Filosofia em escolas, Luís Thiago Freire Dantas avaliou que havia uma dissociação entre o que aprendeu sobre metodologia de ensino de Filosofia e a vivência dos alunos. Essa percepção de que delimitar o ensino de Filosofia às teorias clássicas significa negar a existência de intelectualidade fora do Norte do mundo se tornou a tese de doutorado de Dantas, que também propôs formas de intervenção para a inclusão da Filosofia Africana na educação básica e na licenciatura. A banca ocorreu nesta segunda-feira (19) à tarde, no Campus Reitoria, em Curitiba.
A tese é uma das primeiras no Brasil a abordar o assunto dentro de um programa de pós-graduação em Filosofia. Para a banca, foram convidados estudiosos de Filosofia Africana de diversas universidades. Eles também participarão do minicurso sobre o tema que ocorrerá ao longo desta terça (20) na Reitoria, com organização do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab-UFPR).
Doutorando Luís Thiago Dantas questionou conceitos como o de “filosofia universal”. Fotos: Samira Chami Neves/Sucom-UFPR
Dantas partiu da ideia de que um dos princípios relacionados à filosofia, a universalidade, que determina que o ensino deve ser pautado pelo que é de “compartilhamento universal”, tem efeito diverso do pretendido. Citando o filósofo sul-africano Mogobe Ramose, a tese defende que, nas condições da “filosofia universal” (sem cultura, sexo, religião, história ou cor), a particularidade é um ponto de partida, mesmo que não se reconheça isso.
Categorização
Para dar força a esse argumento, Dantas reuniu pensamentos de autores-chave da filosofia moderna, como Immanuel Kant, que confessaram abertamente, em seus escritos, acreditar que os negros africanos eram inferiores. Assim, o doutorando construiu duas premissas: a de que negar a Filosofia Africana é uma estratégia para categorizar povos e seus conhecimentos; e a de que a imagem do que é um filósofo parte de uma visão eurocêntrica.
A tese menciona, por exemplo, que, apesar de não serem encaixados no posto de filósofos, pensadores aymara (povo pré-colombiano) tinham uma palavra equivalente à filosofia (do grego “amor à sabedoria”), tlamachilia (pensar bem), como exposto pelo argentino Walter Mignolo.
Para explicar como se deu a categorização da Filosofia Africana, Dantas aborda conceitos como o de especismo humanista e o de colonização humanista. Também adentra questões sobre o conceito de raça e as formas aceitas de resistência à imposição de ideias colonialistas. Para isso, usa autores como Sueli Carneiro, que revisa o biopoder de Michel Foucault para apresentar a negritude como símbolo de morte, e o camaronês Achille Mbembe, que propôs o conceito de necropolítica.
Silenciamento
Na parte que trata do ambiente acadêmico, o doutorando ressalta as reflexões de Grada Kilomba, estudiosa de questões de gênero portuguesa. Segundo Grada, é comum que o corpo negro que está “fora de lugar” seja “convidado a voltar para casa”. E esse “fora de lugar”, segundo ela, inclui a academia.
Na banca, da esq. para a dir.: Renato Noguera (UFRRJ); Eduardo David de Oliveira (UFBA); Marco Antônio Valentim, professor da UFPR que orientou a tese; Juliana Coutinho, pós-graduanda em Filosofia na UFPR; e Wanderson Flor do Nascimento (UnB)
Em sua defesa, Dantas lembrou que existe uma “crítica à militância” dentro do universo acadêmico, onde é exigida uma suposta “neutralidade de pensamento”. Ainda nesse sentido, ele aludiu ao filósofo Euclides André Mance para lembrar que o silenciamento no âmbito epistêmico funciona por retroação: a deficiência presente alimenta a deficiência do futuro.
“Assim, não se pode abordar certos assuntos em pesquisas porque não tem orientador. Ao mesmo tempo, não há incentivo para que se tenha orientadores no futuro”, exemplificou.
Dantas concluiu sua tese apontando propostas para uma “atividade filosófica descolonial libertária”. Entre elas, uma revisão nos currículos da educação básica à licenciatura, a fim de promover uma descolonização do ensino; e uma política de ensino em Filosofia Africana. “Dessa forma seria possível articular o ensino com a vivência da escola”, acredita.
Site da UFPR. http://www.ufpr.br/portalufpr/noticias/doutorando-propoe-em-tese-alternativas-de-resistencia-a-visao-eurocentrica-do-ensino-de-filosofia/