6 de dezembro de 2017

VENDETTA


Resultado de imagem para v de vingança


 Resultado de imagem para v de vingança 

Por: José Geraldo
Graduando em Filosofia pela UFPR
Bolsista PIBID-Filosofia pela UFPR


     Nas manifestações de 2013 milhares de brasileiros foram às ruas com a máscara do personagem "V" da HQ "V for Vendetta" (Alan Moore/David Lloyd) e do filme homônimo dirigido por James McTeigue. A máscara de V, como se sabe, foi inspirada num personagem histórico real, Guy Fawkes, um católico radical que pretendia explodir o parlamento inglês na noite do dia 5 de novembro de 1605, mas foi capturado, torturado e morto em 1606.
     O que não se sabe é se, na época das "manifestações", algum brasileiro mascarado perguntou-se sobre o sentido do uso da máscara de Guy Fawkes em relação ao contexto econômico e político brasileiro. Levanto essa questão apenas agora porque só recentemente li a HQ e vi o filme, e me pareceu que o uso da máscara naquele contexto não se encaixa com o contexto histórico e político a partir do qual Alan Moore pensou "V de Vingança" nem com a sua tradução no universo dos quadrinhos (tradução com altas doses de imaginação que, muito embora, não totalmente fiel à realidade, não a trai ...).
     Brasileiros não entenderam V de Vingança? Brasileiros interpretaram propositalmente mal a realidade? Brasileiros entenderam V de Vingança e interpretaram propositalmente mal a realidade? Brasileiros interpretaram bem a realidade e mal V de Vingança? Brasileiros interpretaram bem a realidade e propositalmente mal V de Vingança para criarem uma má interpretação da realidade?
     Ou ainda, brasileiros não interpretaram nada e simplesmente compraram a máscara de uma obscura interpretação pré-fabricada que interpretava propositalmente mal V de Vingança e mal a realidade brasileira? É esta a nossa hipótese.
Vejamos brevemente o contexto de produção da HQ.
     Em outubro de 1983, Moore escreve na edição 17 da revista "Warrior": "Partindo da suposição que os conservadores perderiam as eleições, comecei a elaborar um futuro em que o Partido Trabalhista houvesse chegado ao poder e removido todos os mísseis do solo britânico, impedindo, assim, que, a Grã-Bretanha se tornasse um alvo importante no caso de uma guerra nuclear. Com perturbadora facilidade, bolei o curso dos acontecimentos a partir desse ponto ATÉ A TOMADA DE PODER POR FASCISTAS NA GRÃ-BRETANHA".
     Com o fim da revista "Warrior" a publicação da HQ só aconteceu em 1988. A suposta derrota dos conservadores em 1982 também não se concretizou, mas, de qualquer maneira, a sanha pelo poder continuaria a mesma. Na introdução de "V for Vendetta" escreve Moore. "Estamos em 1988 agora. Margaret Thatcher está entrando em seu terceiro mandato e fala confiante numa liderança ininterrupta dos Conservadores no próximo século. (...) um jornal tabloide acalenta a ideia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados da tropa de choque usam visores negros, bem como seus cavalos; e suas unidades móveis têm câmeras de vídeo rotativas instaladas no teto. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade até mesmo como conceito abstrato. Só posso especular sobre qual minoria será alvo dos próximos ataques. Estou pensando em deixar o país com minha família em breve. ESTA TERRA ESTA CADA VEZ MAIS FRIA E HOSTIL, E EU NÃO GOSTO MAIS DAQUI!
     A leitura dos textos de 83 e de 88 não deixa a menor dúvida que Alan Moore concebeu "V de Vingança" como uma crítica à mão de ferro dos conservadores. O que lemos na HQ também não deixa dúvida quanto a isto.
     Nos quadrinhos, "V de Vingança" se passa numa Inglaterra ficcional dos anos 90. O país está sendo governado por fascistas que chegaram ao poder em 1992. Lemos em um quadrinho que estes grupos reacionários são "uma coalização de grupos fascistas. Eles tinham se unido às grandes corporações que sobraram". A ascensão dos fascistas, em conluio com o Kapital, se deu como o desfecho retrógrado de um período de caos social decorrente de uma guerra atômica que destruiu parte do mundo no final dos anos 80. Neste "inverno atômico", os países que não haviam sido destruídos, como a Inglaterra, sofriam terríveis consequências climáticas e sociais. Mais tarde, Moore, comentando a HQ, dirá que foi ingênuo quando achou que "seria necessário algo tão dramático quanto um conflito nuclear para lançar a Inglaterra no fascismo". O fascismo não precisava de tanto para se expressar....
     Não apenas nos quadrinhos, mas também no filme de 2005 a luta de V é contra os fascistas. V, seja nos quadrinhos seja no cinema, claramente não é um trabalhista (antes que alguém nos acuse que estamos escrevendo esse texto para os trabalhistas): é, talvez, um anarquista. De qualquer modo, fascista ele não é.
     No Brasil, ocorreu algo que chama bastante a atenção. O uso da máscara de Guy Fawkes foi um dos dispositivos utilizados nas manifestações de 2013, especialmente a partir do momento em que grupos de direita reenquadraram violentamente a pauta original do movimento (não adentraremos à eterna discussão se 2013 foi desde o princípio um movimento reacionário). Deixemos assim: a captura da pauta da esquerda (crítica ao PT) pela direita (crítica ao PT e a toda esquerda ...) pavimentou o caminho para o fortalecimento (para mais fortalecimento) e para a hegemonia dos grupos conservadores que hoje em conjunto aprovam, sem vaselina, uma atrás da outra, reformas retrógradas contra os trabalhadores e cagam regras morais em todas as situações que abrem a boca. Síntese: toda a esquerda se ferrou e continua se ferrando, e com ela milhões de brasileiros cujo único bem é a força de trabalho.
     De qualquer maneira, e isso é o que importa em nossa análise, no presente momento, às beiras de 2018, mais do que nunca - se tomarmos, evidentemente, a leitura da conjuntura da Grã-Bretanha nos anos 80 pelos criadores de V de Vingança e o próprio enredo da HQ e do filme, e, principalmente, o presente no Brasil - é que o uso da máscara de Fawkes faria total sentido (Ou alguém em sã consciência achava que vivíamos em uma ditadura ou algo do gênero no Brasil? E hoje não mais...!? Ah sei ...). Se o governo petista tinha problemas (e poderia avançar ainda mais em pautas sociais, urbanas e tributárias ("imposto progressivo", "taxação de grandes fortunas" ) certamente o de ser um governo totalitário não estava, ou não deveria estar, em nenhuma lista ou cartaz de reinvindicação. Claro, poderão dizer, "os negros, os índios..." Mas, e hoje, por que nossos "scholars" - de seus confortáveis ‘apês’ - entre um gole e outro de suas cervejas artesanais - que diziam "os negros, os índios" não dizem mais? Preocupação tática é uma merda mesmo, fede, ajuda a vender alguns livros escritos "no calor do acontecimento", rende milhares de likes e corações, convites para palestras (não raro esvaziadas, mas que nas redes aparecem como eventos 'hype'); logo estes cinco minutos de fama (ou seriam cinco segundos?) são soterrados por algum ‘meme’ de bichinho ou do Zizek.
     Não sei se todas estas impressões correspondem integralmente à realidade, talvez apenas algumas de suas partes, e uma destas partes é: o uso da máscara de V. no Brasil como um símbolo de uma ideia revolucionária sem rosto, de uma ideia de justiça (que Platão procura há mais de 2 mil anos) PODE ter mascarado interesses obscuros que não tinham muita relação com o que pretendia o personagem de Alan Moore: justiça, liberdade, igualdade.
     Este oculto pela máscara nos conduz a pergunta: onde estão os "Anonymous" e suas máscaras de Guy Fawkes hoje? A resposta é importante e deve ser bem clara para que não suspeitemos que, no caso brasileiro, por trás da máscara de V não estava um anarquista, mas sim Temer, ou Aécio, a Rede Globo, ou Soros, ou ...
     É, bem provável, que tal resposta não virá; ou se vier virá com as manobras retóricas já conhecidas e a culpa será sempre do (complete). Como não se trata de encontrar culpados, mas de compreender o sentido ou a ausência de sentido dado por milhares de pessoas a uma peça de ficção que, ao que parece, de maneira enviesada adentrou o real, produzindo efeitos visíveis no campo político, lancemos, enquanto isso, nós mesmos uma especulação.
     A resposta para a pergunta sobre o paradeiro dos V. dos trópicos, talvez, não esteja objetivamente em ‘Junho de 2013’ nem na Paulista em 2015, mas - em tendência - no dia 14 de janeiro de 1990 quando David Lloyd, em sua introdução à V de Vingança, escreveu: "depois do Noticiário das Nove, viria Os Meninos do Brasil, um filme com poucos personagens alegres e descontraídos, que trata de um bando de nazistas criando 94 clones de Adolf Hitler". Lloyd viu na TV o Brasil do século XXI? Quem sabe.
     O que Lloyd e Moore não poderiam imaginar é que o V da vingança brasileira seria o oposto simétrico e reacionário da vingança criadora de V. O V da vingança brasileira, portanto, não corresponde ao que se passa nos quadrinhos, mas - e isso é o mais misterioso - a imagem que Lloyd antevê no prefácio da HQ corresponde à vingança brasileira. Lloyd conta que um programa terrível com nazistas brasileiros ("Os Meninos do Brasil") começaria após o Noticiário das Nove. Os Meninos do Brasil que Lloyd nos fala em 1990 seria a prefiguração do MBL? Talvez, talvez.
     Recentemente, um pesquisador mostrou com dados minerados nas redes sociaos que a primeira aparição do MBL se deu exatamente em 2013. Depois disso, o movimento teria entrado em latência e reaparecido com grande força na ocasião do Impeachment de Dilma. O MBL aparece, portanto, no mesmo contexto de surgimento dos anonymous e da utilização da máscara de Guy Fawkes.
     Teria sido a vingança brasileira a vingança de setores da classe-média brasileira que passou a flertar (sem saber?) com o nazi-fascismo? Se disséssemos que sim cairíamos, muito rápido, na dinâmica dos ressentidos em busca de culpados imediatos cuja condenação superficial ocultaria o acesso ao profundo movimento das placas tectônicas da política mundial que, articulada a um determinado uso das tecnologias, pode explicar a derrocada política, social, econômica, ética e estética no Brasil.
     Nossa, neófita é verdade, investigação conduziu-nos a um questionamento bem mais terrível (para nós) e, talvez, risível para tantos outros que negam o espetáculo justamente por serem seus figurantes. V em sua versão brasileira seria parte de uma tenebrosa e oculta reação nazifascista em aliança com o capital financeiro (cheiro de neoreaction no ar) que, por meio da captura da energia física, psíquica, organizacional e colaborativa de amplos setores da pequena burguesia brasileira, objetiva enfraquecer a capacidade organizativa dos pobres e das minorias para escravizá-los/aniquilá-los e, mais tarde, aniquilar a própria pequena burguesia utilizada taticamente como "correia de transmissão" para a realização de uma macabra estratégia?
     Como também não podemos responder com um sim categórico esta questão, podemos, como Burroughs em ‘Expresso Nova’, recolher indícios que, no conjunto, revelam a informação: fomos tragados para o interior de uma nova fase do capitalismo. Esta fase nazifascista do capital é marcada pela exploração absoluta da força de trabalho, pela desregulamentação extrema da economia, pela destruição progressiva dos serviços públicos, pela perseguição à artistas e filósofos (recentemente tivemos o caso Butler), pelo controle e pela repressão dos corpos e de suas ideias éticas e políticas verdadeiramente revolucionárias; estágio que, se quisermos, podemos chamar de "A Vingança do Capitalismo" (A.V.C).
     Não se trata mais, como em Weber, de uma ética protestante a dar sentido ao espírito do capitalismo, mas de uma ética nazifascista que extrai até o esgotamento, incessantemente, todo sentido da vida, da vida das minorias e do próprio planeta.
     É neste estágio que compreendemos a UTILIZAÇÃO AVARIADA e tática de livros, HQs, filmes, jogos, séries e redes sociais, como dispositivos de controle e modulação da vida. Não se trata aqui de uma condenação brutal da tecnologia ou mesmo dos produtos da indústria cultural (Benjamin já mostrou suficientemente o potencial político do kynema), mas da avaliação de um determinada utilização deles cujo resultado é o enfraquecimento do homem e de sua capacidade de criação. Há uma tênue fronteira entre a estetização da política e a politização da estética.
     Na aurora do século XXI, a vida - enredada no espaço estriado desenvolvido pelo Kapytal Nazi Fascista - é modulada ilimitadamente enquanto executa modulações limitadas, por exemplo, no buraco negro azul do fakebook, como já tivemos oportunidade de dizer em outra ocasião. A sensação de liberdade é preservada. A decisão de ir ou não a uma manifestação, por exemplo, é de cada um, mas receber a informação para esta decisão não está no controle de todos que decidem ou não se manifestar. Em 2013, por exemplo, milhões foram às ruas com o maior índice já registrado no Brasil de pessoas empregadas com carteira assinada. Em 2017, com mais de 13 milhões de desempregados, as pessoas protestam, ou silenciam, nas mesmas redes sociais que naquele momento vibravam conjuntamente às ruas; hoje o passo decisivo para as ruas não acontece. Há um abismo entre as redes sociais e as ruas. Há poucos anos havia uma larga ponte de ida e volta. Podemos supor que essa distância está sendo programada, não?
Recentemente, um bombeiro, com a cara e a coragem, tentou conduzir um caminhão na direção do Congresso Nacional. Foi interceptado e será julgado, assim como Guy Fawkes foi julgado, como terrorista. O bombeiro brasileiro certamente entende o que está acontecendo e - sem máscara de Guy Fawkes - agiu, de fato, como Guy Fawkes contra o parlamento opressor.
     É perfeitamente possível que a enunciação de palavras "fora, contra, manifestação, protesto, ruas, revolução" (etc) esteja sendo controlada nas redes por logaritmos para não haver risco de ‘enxameamento’, ou melhor, quase personagens de Black Mirror, estamos alojados em bolhas no interior das quais podemos atacar violentamente o governo federal, o presidente, os candidatos à presidência, os deputados e senadores, o stf, o mpf, o exército e a pm, podemos convocar manifestações, podemos até ____________ e nada ocorrerá, pois a informação não romperá a bolha de transmissão e se romper não repercutirá por muito tempo sendo rapidamente esquecida dada a sucessão ininterrupta de sons, imagens, textos, citações, fotos, notícias sempre urgentes, polêmicas, textões, anúncios, links, piadas, memes, comentários, denúncias, linchamentos virtuais, etc.
     Uma informação com o esclarecimento de uma decisão política nefasta às nossas vidas vale o mesmo que aquelas orações que sua tia lhe manda. Produza e reproduza uma informação, não importa qual, essa é a nova ordem. Esse texto não escapa dessa lógica e não vale mais do que uma imagem idiota do "marxist memes". "Nossos logaritmos decidirão se a sua produção diária circulará para além da bolha".
     Cada vez mais decidimos menos do pouco que um dia realmente decidimos. Em 2018, dizem, já não decidiremos, nem de brincadeira, quem será o futuro presidente na democracia de plástico brasileira, nenhuma de nossas demonstrações sócio-midiáticas de revolta fizeram recuar o poder político_financeiro_judiciário_midiático da decisão de aprovar a proposta que limita por 20 anos os investimentos públicos em saúde e educação. Também não fomos ouvidos quando da aprovação da reforma trabalhista que institucionaliza a precarização do trabalho, nem o ecos da “Primavera estudantil” de 2016 fizeram efeitos em fevereiro de 2017 quando foi aprovada a reforma do ensino médio (que, dentre outras violências, retira as disciplinas de filosofia e sociologia do currículo tornando-as simples conteúdos esparsos, além de distanciar a classe trabalhadora da universidade com seus obscuros itinerários formativos cujo foco é a formação técnica para o trabalho [trabalho que não haverá dada a robotização de postos de trabalho]), não apitamos em nada acerca do desmonte descarado da Petrobrás e de outras estatais, que assistimos como espectadores de uma blockbuster barato, e não conseguiremos frear a reforma da previdência que já está no gatilho para que todos trabalhemos mais do que já trabalhamos. Assistimos ainda, invariavelmente culpando sempre um outro que teria causado toda essa merda, visando assim o conforto da velha consciência burguesa, a volta do país ao mapa da fome, o crescimento vertiginoso da violência nas cidades e no campo, ataques em série à universidade pública e gratuita, ataques a artistas e a exposições, etc.
     “O trabalho liberta”, a frase escrita na entrada dos campos de concentração nazistas brilha escrita em neon num ambiente ‘vaporwave’. A diferença é que agora o Planeta Terra tende a ser um campo de concentração. Campo Capitalista de Concentração.
     Teriam nossos 'V' lutado pela própria servidão quando acreditavam lutar pela liberdade?




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