17 de outubro de 2017

O crescimento do conservadorismo

Por: Andrej Carraro
Licenciado em História, professor e 
colunista deste site. 

Venho sendo derrotado pelo discurso simplista, ignorante e agarrado ao senso comum, mesmo quando apresento argumentos fundamentados, de nada adianta. Não consigo fazer com que o oponente se mova um centímetro para fora de seu orgulho próprio, admitindo estar errado ou, sob algum aspecto, concordando com meus argumentos.
Quando perdi, saí abatido pela rigidez da mentalidade do oponente. Me fez por um breve momento desistir de tudo, mas foi aí que entendi o significado de “a nossa luta é diária”. Isso me fez refletir sobre os meus métodos, minhas abordagens e minha arrogância, daquele que achava que poderia, pelo fato de ter um diploma de História na parede da sala, estar acima do conhecimento alheio. Falhei em outro aspecto.
Porém, o que me vem à mente neste momento, é buscar entender como essa mentalidade que despreza a fundamentação teórica, adquirida em anos de estudos e que denominamos ou reduzimos ao termo fascista, vem crescendo no nosso país (e no mundo).
Na área da educação, que sabidamente não vai bem, falta muito a se fazer justamente para formar cidadãos contestadores e críticos. Dessa forma, a formação da nossa sociedade enquanto cidadão pensante é rasa e insuficiente, colaborando indiretamente com o discurso simples e condenatório da mídia, da imprensa brasileira que não está interessada em informar o cidadão, mas formar, lapidar seu pensamento e apontar a quem deve-se fazer linchamentos morais (e até físicos). A nossa imprensa se interessa puramente no que as empresas anunciantes lhe ordenam, tendo no Estado também uma de suas maiores fontes de financiamento (G1 - Governo abre mão de 10 Bilhões).
Soluções rápidas e fáceis como num filme de ficção.
A soma de todos esses problemas, abre a porta para essa onda conservadora crescer e ter voz nas mídias e nas redes sociais (Brasil247). Pois é no momento oportuno como esse, de descontentamento pela política, pelos políticos, e a busca por um salvador que surgem figuras como Feliciano, Bolsonaro, Nando Moura, Kim Kataguiri e Alexandre Frota, disfarçados de moralistas, "cristãos" devotos, "doutores" da educação e "heróis" que solucionarão os problemas do Brasil.
É sabido que no Brasil, sofremos um duro golpe político (Delação de Temer e Cunha) que culminou com a saída da presidente petista Dilma Roussef, e os “novos” comandantes desse gigantesco país golpeiam diariamente os trabalhadores. Mesmo com seus 3% desaprovação popular, não desistem de permanecer no poder para satisfazer os desejos da elite econômica, oferecendo de bandeja a flexibilização das leis trabalhistas, a redução da multa na rescisão do contrato com o trabalhador, a terceirização do trabalho, arrocho salarial, etc. 
Dilma foi eleita democraticamente e foi retirada por um golpe. 

O povo brasileiro elegeu para quatro mandados presidenciais, a ideologia política do PT, representada por Lula e Dilma. Isso demonstrou que a maioria da população, constituída de classe média e de pobres via esperança nos projetos políticos de esquerda. Mas, nos últimos três anos, esses quatorze anos de governos petistas foram duramente criticados, muitas vezes de maneira rasa e sem fundamento na realidade política e econômica do país. As verdadeiras falhas do PT enquanto ocupante da cadeira de presidente não foram contestadas como, por exemplo, colocar em discussão a reforma agrária, reforma tributária ou mesmo o CPI da dívida pública. Pelo contrário, foi criticado naquilo que fez de mais correto, que são os programas como Bolsa Família, o melhoramento do Sistema Único de Saúde (SUS), FIES, Prouni, Ciência sem Fronteiras, etc. 
As duras criticas ao governo petista, desde as primeiras manifestações verde-amarelo de 2015, eram promovidas pela classe média, mais privilegiada e mais preconceituosa em relação à classe baixa, mas reclamando da falta de “direitos”.  Não bastasse, somado a isso tivemos a irresponsabilidade da imprensa em apontar o dedo da corrupção apenas contra o governo petista e omitindo propositalmente a de outros partidos políticos. Criou-se, então, a ilusão de que partidos de esquerdas são os mais corruptos e corrupção e esquerda fusionaram-se na mentalidade simplória dessas pessoas, que já criticavam a esquerda antes da crise.
O discurso de ódio crescente no Brasil, fez com que Stalin e Hitler fossem vistos por essas pessoas como a mesma coisa, o nazismo virou de esquerda e Chê Guevara tornou-se um dos maiores assassinos da história. Paralelamente a isso, a esquerda também cresceu? Poderia dizer que sim, mas não tenho convicção disso (e nem provas). Entretanto, tenho a convicção de que a luta por direitos vem crescendo: direitos dos LGBTISTAS de poder viver em paz, das mulheres feministas contra o machismo menos evidente, dos afro-brasileiros por respeito, dos trabalhadores do transporte público, das ONGs de proteção aos animais, etc. Isso tudo vem crescendo e ocupando o espaço na internet, sendo difundida as ideias que condenam o pensamento arcaico e a injustiça.

Talvez não saibam, os mais conservadores, que artistas não são necessariamente esquerdistas (ou esquerdopatas, como debochadamente costumam dizer). Ser negro, mulher ou homossexual lutando por seus direitos não é ser comunista. Ao mesmo tempo que crescem os radicais (sementes fascistas) que parecem defendem a legitimidade do discurso racista, misógeno e homofóbico, se fortalecem cada vez mais os verdadeiros movimentos sociais de luta em defesa dos direitos das minorias. 

Nenhum comentário :