8 de março de 2017

Uma proposta para o conceito de Filosofia

Anderson Balbinot
Professor de Filosofia do Estado do Rio Grande do Sul

Honro-me muito com o convite do Jonas, editor deste blog, para preencher este espaço com algumas reflexões. Desde que o conheci, mantive apreço a ele e seu espaço de divulgação da filosofia. Espero contribuir com seus leitores e com o objetivo a que se propôs. Peço vênia para me dirigir sempre em primeira pessoa, pois dessa forma me sinto mais próximo e afeiçoado a meu leitor. 

Quero ser claro e objetivo: a filosofia é uma área do conhecimento séria, relativamente demonstrável e com utilidade prática no cotidiano das pessoas. Através de discussões filosóficas sobre temas clássicos da filosofia pretendo mostrar como ela possui esses três atributos, que a aproximam mais das ciências do que de outras áreas como a religião, o misticismo, a gnoseologia e outras ciências elocubratórias. E além disso, quero demonstrar que a filosofia é a disciplina mais necessária para que o homem contemporâneo tenha uma vida suficientemente razoável, ou seja, a filosofia é uma disciplina essencial para que o ser humano médio entenda seu papel no mundo e consiga interagir com os demais de forma qualificada. Me desculpem se a proposta soa um pouco reducionista da filosofia, excluindo a diversidade de estilos e correntes: não é meu intento. Penso nessa proposta como fruto de minhas reflexões pessoais, meu modo de ver a filosofia particular, segundo minhas necessidades, de acordo com minha visão de sociedade moderna, e não tem a pretensão de ser unânime. Não quero com isso desprezar outras propostas, mas ao contrário, buscar o confronto de opiniões e diálogo. Contudo, saibam que é uma proposta possível. Outrossim, não é nova, pois retoma algumas correntes filosóficas e tenta refutar outras que até me atraem simpatia. Destarte, é a proposta que considero mais adequada ao atual momento, pois concebe a filosofia como instrumento de pensamento para solução de problemas, fonte de reflexão sobre nossa vida concreta e ciência subsidiária das demais na medida em que fornece o instrumental lógico-conceitual para o pensamento coerente e para sermos criativos na adequada medida quando pensamos soluções para os problemas. Creio que esses objetivos devem ser melhor explicados, dada a assertividade das afirmações e a controvérsia das teses sobre o assunto.


Devido ao fato de que a filosofia é a primeira ciência, aquela sob os quais as outras se destacaram, a filosofia é o ramo do conhecimento mais próximo das religiões. De fato, a filosofia nasceu do questionamento hermenêutico dos mitos gregos, portanto, suas primeiras teses foram bem próximas dos mitos, como por exemplo, a afirmação socrática de que um deus lhe dizia o que ele próprio devia fazer, além de Parmênides escrever que sua máxima sobre o ser ter sido proferido pela deusa. Entretanto, a filosofia progride com o ser humano, de forma que há uma progressiva secularização até os dias atuais: temos ciência de que atribuir a uma força externa um fundamento é uma opção residual frente ao uso de explicações imanentes. Portanto, a filosofia não se confunde com o mito ou religião, pois possui como fonte a racionalidade e leva em conta o processo de desenvolvimento científico. Isso quer dizer que os juízos filosóficos não podem estar grávidos de pressuposições injustificadas, não fundamentadas, nem podem negar os avanços consistentes da ciência. Por exemplo, não chamaríamos filósofo alguém que diz literalmente, e não de forma alegórica, que Deus criou a terra em sete dias e que é o sol que gira em torno da terra, pois isso negaria algumas das verdades constatadas e evidenciadas pelas ciências. Por outro lado, um filósofo pode ser religioso e acreditar em alguma entidade sobrenatural, sem que isso comprometa suas teorias. A filosofia e a religião não se anulam, mas possuem métodos e abordagens diferentes, embora possam tematizar os mesmos assuntos como a origem do universo, a essência do ser humano e os valores que guiam os comportamentos humanos.
Pois bem! A filosofia se aproxima bastante das ciências naturais e humanas. De fato, a filosofia possui em comum o fato de levar em conta as evidências fatuais, o avanço científico, usar exclusivamente a fonte da racionalidade e articular seu discurso de modo argumentativo. Entretanto, a filosofia possui objetos que são mais amplos que a ciência, pois não estuda somente o que é, os fatos empíricos e verificáveis do mundo, de alguma forma acessível aos instrumentos de medida naturais e criados. A filosofia também tem por objeto coisas imateriais e não verificáveis, não acessíveis aos sentidos e não mensuráveis. Posso citar como exemplo disso o estudo sobre o bem, o fazer o bem estudado pelo ramo da ética. De fato, não temos como ver, medir, calcular, pesar o bem de forma física. Contudo, podemos comparar bens, ponderar valores que são considerados bons, argumentar no sentido de algum determinado comportamento que consideramos bom. Isso mostra um pouco que a filosofia é uma ciência não exata, mas um conhecimento capaz de gerar conclusões plausíveis, embora limitados. Podemos citar como outro exemplo o problema de saber quem deve governar uma comunidade, dado que temos exemplos empíricos de sucessos e catástrofes com democracias, aristocracias e autocracias.
A conclusão desse problema só pode ser resolvido no campo especulativo da filosofia. Não se trata de saber todas as variáveis e as probabilidades de sucesso em tais ou tais cenários. Não se trata de saber quais as formas de governo deram certo e tais e tais climas ou povos. Não se trata de saber quem matou mais ou qual é o governo capaz de gerar mais bem-estar para sua população. Trata-se, porém, de saber qual é idealmente, abstratamente, com os recursos que temos, qual é o governo capaz de gerar um resultado tal de acordo com o valor que a comunidade convencionou. A filosofia só é necessário nesse tipo de problemas em que não somos capazes de levantar e analisar todas as variáveis, cabendo ponderar somente com as que temos. Essas variáveis possíveis de serem analisadas são os argumentos, que no discurso são pesados e levarão a uma ou outra conclusão. Certa vez ouvi um comentário de uma colega professora de história, de que a previsão do tempo naqueles dias estava sendo tão exata quanto a filosofia, querendo dizer que a variação de temperaturas e a o clima estavam imprevisíveis. Por isso, a filosofia é uma disciplina relativamente demonstrável. Usamos aqui o termo demonstrável não no sentido de demonstração científica, ou seja, de provar com uma experiência, ou com uma dedução matemática, mas no sentido de que se formula um discurso onde ficam claros argumentos e as inferências sejam permitidas pela ciência lógica, mostrando honestamente os axiomas (as verdades não inferidas, mas sem um fundamento). A imperfeição ou problema da filosofia é que ela não pode provar esses axiomas, pois sua fonte é puramente especulativa, hipotética.
A filosofia, contudo, não pode especular livremente sobre qualquer coisa abstrata, tirando as conclusões que a vontade indicar. A filosofia precisa obedecer, para ser filosofia, dois princípios da teoria dos sistemas: a consistência e a completude.
Ser consistente significa ser coerente: obedecer ao princípio da não-contradição, ou seja, não pode haver dentro de um sistema filosófico duas afirmações, sendo que uma afirma algo e outra que seja exatamente oposta. Além disso, nenhuma de suas afirmações devem levar a outras afirmações contraditórias por meio de inferências. A filosofia, deve primar para que não seja ferido o princípio mais elementar da lógica. Bem sei que muitos filósofos, como por exemplo, os hegelianos, tendem a fazer afirmações logicamente contraditórias dado o movimento dialético imbuído no sistema. Entretanto, trata-se de uma filosofia que tenta traduzir em linguagem o movimento do mundo criando um discurso vivo. Deve-se notar, porém, que mesmo os hegelianos não ferem o princípio aristotélico de todo, dado que ele diz “algo não pode ser e não ser, sob o mesmo aspecto, no mesmo lugar e ao mesmo tempo”. As variações e as contradições do discurso apenas mostram diversos aspectos ou facetas dessas categorias combinadas, respeitando assim o rigoroso princípio característico da filosofia.
Ser consistente, por outro lado, significa que dados determinados axiomas ou princípios, a conclusão é derivada logicamente, por meio de inferências sem o auxílio de novos princípios ou axiomas. Por exemplo, a física de Newton sobre o movimento uniforme está baseada sobre três afirmações apenas: “Todo corpo em repouso tente a permanecer em repouso e todo corpo em movimento tende a permanecer em movimento retilíneo uniforme”, “o resultado da forças que agem sobre um corpo é o produto da massa sobre a aceleração adquirida” e “se um corpo A imprime uma força sobre B, B exerce sobre A uma força de mesma intensidade e direção, mas em direção contrária”. Precisamos entender que toda a teoria sobre o movimento é derivada dessas três afirmações, não precisando recorrer a mais nenhuma. Isso acontece com inúmeras teorias como os cinco postulados da geometria de Euclides e outros. Algumas críticas podem ser levantadas a esse meu argumento como o teorema de Gödel, ao qual, grosso modo, afirma que todos os sistemas se são coerentes, então não podem ser completos; e se completos são incoerentes. De fato, uma teoria não pode ser completa e consistente em absoluto. A filosofia não tenta provar seus postulados, ela simplesmente os coloca no discurso. Entretanto, o bom filósofo deixa claro quais são eles. Essa tese, portanto, apenas reforça o meu ponto de vista, dado que a filosofia não tenta ser completa em absoluto, ou seja, ela é humilde suficiente para colocar postulados que não pode provar. Isso faz parte da filosofia, é-lhe uma característica essencial e prática para chegar a conclusões.
Portanto, a partir do que foi dito, posso formular um conceito para iniciar o debate sobre o conceito de filosofia: ramo do conhecimento subsidiários à ciência que usa a razão para resolver problemas especulativos respeitando a consistência e a completude nos seus juízos. Com isso quero dizer que a filosofia é um ramo do conhecimento sério, sistemático, capaz de levar a juízos possíveis e ponderáveis sobre coisas e valores.
Mais do que isso, posso dizer que a filosofia é extremamente necessária, pois trata de assuntos que não são possíveis de serem matematizados, calculados, medidos, pesados fisicamente. Precisamos da filosofia para saber decidir adequadamente sobre inúmeras questões no nosso cotidiano, como por exemplo, se devo ou não obedecer meus pais em tudo o que pedirem, se devo ou não mentir sobre uma traição do namorado da minha amiga, sobre se devo ou não votar em determinado candidato e por que motivo. Encontrar critérios para decidir sobre esses e outros problemas com racionalidade e levando em conta as consequências requer uma habilidade filosófica indispensável a qualquer ser humano moderno, do mais cético cientista ao mais fiel crente; do homem mais simples ao mais erudito.

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