19 de março de 2017

Para quê filosofar?

Roberto Teco Junior
Professor de Filosofia no governo do Estado de São Paulo.

        O filósofo Imannuel Kant definiu a filosofia, o processo filosófico como sendo algo contínuo, de forma que “não se aprende filosofia, aprende-se a filosofar”. Com efeito, filosofar é algo indispensável no processo formativo de cada cidadão. O ensino da filosofia deveria contribuir para a emancipação das crianças, jovens e adultos, o que muitas das vezes não acontece. Atualmente, por conta da deforma do ensino médio, (você não entendeu errado), a Filosofia, Sociologia, História e Geografia, passam a ter maior dificuldade no que diz respeito a transmissão do conhecimento. 
    Muitas são as vozes que defendem o engessamento do ensino médio, mas a que custo essas pessoas o fazem? Será que essa limitação contribui significativamente para nossos alunos serem independentes e livres, ou seria uma estratégia das elites, visando mitigar a inteligência de nossos educandos? 
        Na atual conjuntura, devido às diversas crises pela quais estamos passando, sendo a deformação e “embosteamento” da classe política a maior delas manter um numero considerável (se é que se pode afirmar serem duas aulas semanais suficientes para dialogarmos a cerca dos conflitos sociais e políticos) de aulas de Filosofia e Sociologia no currículo é de longe uma catástrofe para os donos do poder. "Filosofar para quê", indaga o banqueiro, o industrial e o político lacaio e vagabundo, se a mesma pode proporcionar ao povo uma visão salutar daquilo que os oprimem cotidianamente? Com efeito, parece estar claro para professores e intelectuais o desejo por traz da reforma do ensino médio brasileiro, agora transformada em lei pelo governo golpista. Está clara a intenção por trás deste conchavo político: alienar para dominar. 
       O filosofo francês Michel Foucault, em seu livro Vigiar e Punir, escreveu sobre a domesticação dos corpos, e o fez com base em critérios científicos, critérios que a priori parece não ter sido observado na elaboração da atual reforma, pelos envolvidos no processo. Todavia, entendemos ser pertinente uma revisão da matriz curricular brasileira. Porém, esta revisão parece não ter levado em conta o parecer técnico oriundo de acadêmicos, como também, ao que tudo indica, ignorou a participação de alunos e pais no processo em questão. Este pormenor deslegitima e torna inconstitucional a reforma em questão. Contudo, em se tratando de um governo golpista toda e qualquer crítica não surtirá grande impacto. Com efeito, retomando o pensamento de Foucault, é obvio ser a domesticação dos corpos parte de uma estrutura de poder cujo intento visa a diminuição do senso critico, a recusa da liberdade e imposição do suplício por parte dos donos dos meios de produção. O homem contemporâneo ainda não se deu conta deste projeto. 
        O atual governo propôs diversas medidas provisórias com intento de transformá-las em lei. Porém, tais leis corroboram para ascensão do rico e supressão de direitos das camadas vulneráveis. Não obstante, muitos jovens e pais ignoram, como escreveu Nietzsche: o estupro das consciências perpetrado pelos fascistas da última hora. Neste sentido, nos parece estar a Filosofia e Sociologia, bem como as demais disciplinas por nós elencadas no corpo deste texto “incapaz” de realizar com êxito sua missão. Isso seria verídico se as referidas disciplinas não agregassem algo positivo na vida de jovens e adultos brasileiros. O pensamento filosófico tem com certeza capacidade técnica e histórica para elevar o senso crítico de milhares de pessoas. Entretanto, os docentes além dos inúmeros dissabores oriundos de um país em retrocesso tem de enfrentar uma mídia perversa que busca incessantemente desqualificar o pensamento crítico presente no bojo das instituições escolares, e neste ponto rendemos louvores aos “exércitos” de estudantes secundaristas desejosos por um ensino que contribua não apenas no campo do empreendedorismo e das ciências exatas (o que entendemos ser importante, mas não o absoluto), mas sobretudo para ser o homem do futuro, alguém capaz de responder e exigir sem titubear seus direitos e deveres, ou seja, nossa defesa é com o exercício pleno da cidadania do povo brasileiro. Portanto, é possível vislumbrar o temor das elites, pois estas sabem o poder da Filosofia para emancipação de um povo. Ademais, esta, através da reflexão é capaz de retirar do poder demagogos e facínoras. Não estamos preocupados com a glória, mas com a ética, por nosso juramento diante de amigos, familiares e, sobretudo diante de nossa consciência, é por este motivo que lutamos. 
        O filósofo Friedrich Nietzsche escreveu em 1888 em seu livro Crepúsculo dos Ídolos o seguinte aforismo intitulado "aprender a pensar" que transcreveremos a seguir: “Aprender a pensar: não se tem mais noção disso em nossas escolas. Mesmo nas universidades, inclusive entre os verdadeiros eruditos da filosofia, a lógica começa a se extinguir como teoria, como prática, como oficio” (NIETZSCHE, 2013, 73). Com efeito, nosso filósofo traduziu há décadas a precariedade da educação e por vez alienação daqueles que dela fazem uso. Mas, o que mudou no Brasil do século XXI no tocante à pratica pedagógica e ao sistema educacional como processo de emancipação e liberdade de consciência? Parece-nos quase nada, posto ser as elites a maior interessada em ver fadado ao fracasso o ensino brasileiro. 
        Em suma, a atual reforma sinaliza tempos de escuridão e desalento, em que o homem contemporâneo encontra-se refém daquilo que o mundo tanto combate há décadas: os regimes totalitários e sanguinários. Desejamos ardentemente ver nascer com o a contribuição das ciências humanas, um tempo de esperança e lucidez em meio aquilo que no Brasil define-se como DEMOCRACIA.

Fonte: NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos: L&PM. Ed. Porto Alegre: 2013.


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