21 de agosto de 2016

“Ouro é nosso, mas a glória é de Deus” ou não!

Por: Jonas J. Berra



Pessoalmente não sinto alegria alguma em tirar a ilusão das pessoas, até porque poucos dão importância ao que eu escrevo em minhas redes sociais. Porém, depois de estudar a bíblia, a teologia e a espiritualidade, posso dizer com bastante convicção que dentro de uma crença ou fé em um único deus, cristão ou seja lá de qualquer outra religião (islâmica ou budista), um deus justo (entendendo a justiça como um conceito humano) não interferiria numa disputa entre duas pessoas ou entre dois times, independentemente da fé de cada um ou de cada país.

Se aceitarmos (moralmente) essa possibilidade de que um jogador de futebol é uma espécie de "soldado escolhido por deus", um símbolo de fé (como na frase do goleiro da seleção: 'Pátria amada, o ouro é nosso, mas a glória é de Deus'), então teremos de admitir que os cruzados que mataram muçulmanos em Jerusalém por volta dos anos 1000 d.C. eram soldados de deus e os gladiadores que sobreviviam ao coliseu nos primeiros anos de nossa era cristã, eram também escolhidos por deus para matar seus inimigos.


Não, não tenho estômago mais para essa lógica do "povo escolhido". Daí, você como leitor dirá: "mas cada um tem a fé naquilo que quiser". Por essa razão insisto com a ideia de que se trata de uma visão pessoal da minha parte, uma conclusão depois de anos de estudos teológicos, ainda que atualmente eu não me dedique mais a esses temas. Penso, por esses motivos, que é muito triste que em pleno século XXI, dos avanços técnicos e do acesso à leitura e informação que, mesmo em setores mais esclarecidos da sociedade, ainda sejam difundidas ideias como a do "enviado por deus para dar uma mensagem aos infiéis", ou mesmo o "enviado para dar uma lição para as pessoas". O mais incrível de tudo isso é ver jogadores milionários utilizando este discurso. Jogadores que gastam milhões em marketing pessoal e que inconscientemente ou não, sabem da eficiência midiática de frases de efeito ligadas à fé em deus e a Jesus. Em outras palavras, é também uma questão de marketing e mercado agradar um público. A fama chegou por acaso e eles insistem em atribuir essa fama e sucesso econômico à alguma entidade sobrenatural por trás de suas insignificantes existências, na tentativa fracassada de dar sentido místico a um acontecimento absolutamente natural de nossa sociedade do pão e circo.



Há um grande apelo público pelo resgate do herói nacional. Tanto que levou ao esquecimento das críticas feitas a Neymar e os elogios feitos à Marta da seleção feminina. A imagem do Neymar beijando a medalha com a faixa de Jesus na testa e a fala do goleiro Weverton são exemplos típicos de uma mentalidade religiosa que já deveria ter sido superada a tempos. Mas o que permanece nessa sociedade de senso comum é de fato a moda do "enviado de deus", "escolhido para ensinar suas mensagens de vida", sua "verdade". Os alemães passaram a ser vistos como menos fiéis e por essa razão, perdedores. Mas não passavam de jovens desconhecidos.





Penso que, se o conceito de deus corresponde de fato ao que é ensinado pelas religiões cristãs, algo como "puro amor de pai, etc, etc", sua lógica de pai amoroso deveria ser não ter preferência entre um filho e outro. Mas se tiver alguma preferência por uns em detrimento de outros, por uma questão absolutamente infantil como dizer que venceu graças à fé, não posso considerá-lo senão um deus injusto e arbitrário.

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