13 de outubro de 2015

Resenha: Cadeia: relatos sobre mulheres - Debora Diniz.

Por: Everton Marcos Grison

uma anatomia do abandono


         A escrita é um eco que deve necessariamente ultrapassar o limite da audição. Escrever é um ato de exorcismo, comportamento um tanto esquizofrênico, uma forma de compreender o incompreensível e o incompreendido. Ato de rebeldia, manifestação da liberdade, a escrita trancafia aquilo que eclode da inconformidade, do grito que quer chamar a atenção para a paralisia. A escrita apresenta as veias abertas do sofrimento, ao mesmo tempo em que delineia os contornos da maça da esperança. A escrita é o relacionamento definido, o extravio não reconciliado, as mãos dadas do casamento entre deus e o diabo.

            Escrever é estar diante das múltiplas faces do abandono: abandonar-se enquanto ser escrevente, estar abandonado em meio a um mundaréu de palavras e regras gramaticais, abandonar-se para além do registro escrito, como testemunho sincero da existência, tratar daquilo que é abandonado, enredar-se através e com o abandono humano. Escrever é uma anatomia abandonada.
            Esta palavra cheia de significados, respingada de dor e com réstias de esperança aparece magistralmente no livro recente de Debora Diniz: Cadeia: relatos sobre mulheres, publicado pela Editora Civilização Brasileira, 223 p., R$:32,00. A autora é pesquisadora e professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília. Vinculada a Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, organização não governamental de pesquisa e ação política em temas difíceis, tais como aborto, presídios e sexualidade. Acumula prêmios e pesquisas desenvolvidas no Canadá, nos Estados Unidos, na França, na Holanda, no Japão e no Reino Unido.
            Em seu livro, impossível de ser classificado pelas categorizações simplistas de gêneros e períodos literários, lança-se no complexo projeto de dar voz as presas do Presídio Feminino de Brasília. Entretanto, não é um simples relato, ou o torpe registro de histórias de mulheres reclusas. Seu texto é ensaio, relato, dor, sofrimento, vida, abandono. Percebe-se que o texto ganha voz própria e ecoa, fazendo a escritora soltar e pena, ouvir e observar; o grito do abandono ocupa cada canto de página.

O que conto foi o que vi ou ouvi nos meses em que estive no Núcleo de Saúde. Registrei diálogos e personagens no instante mesmo da escuta – relatos do real em texto. Fiz sempre uma conversa imaginária intermediada entre a escuta e a anotação, registrei histórias passadas e conferidas nos documentos do arquivo da prisão. Nunca estive sozinha com uma presa, por isso meus relatos se submetem ao texto da realidade: outras testemunhas acompanharam o que conto... Sei que as histórias aqui narradas não representam a totalidade do presídio. Nem poderiam. Elas são parciais pelo que consegui ver e ouvir, mas também pelo que me deixaram saber. Imagino muito mais do que fui capaz de perceber. (p. 208-09)

            No texto de Debora Diniz parece que as presas possuem uma moralidade, isto é, o significado das palavras, o desenrolar da linguagem é um aspecto fundamental para quem vive reclusa. Entre significado e significante há um grito forte e determinante sobre a vida e a existência: muitos conhecem mais o chão que o horizonte.
            Quando a palavra é curta a ofensa é resolvida no braço. Se o braço fraqueja no dentro, o cano e a pólvora superam a fraqueza física no fora. Presa não leva desaforo para casa, pois a vida é curta por natureza e a casa inexistente. Ambas se corporificam completamente com o abandono.
            O abandono torna o presídio um zoológico pela abundância de espécie de animais:

... uns são gente, outros insetos. As baratas disputam crescimento populacional com as presas, incontáveis nascem das grades, escondem-se nas roupas, passeiam pelo corpo. A noite, fazem festa sem medo de corretivo. Os bichos miúdos acomodam-se no couro e nas roupas, mas gostam mesmo dos buracos...” (p. 146-47).

            No livro, Debora Diniz não relata apenas o que viu e ouviu no interior do Núcleo de Saúde da Penitenciária Feminina de Brasília. Seu texto é a materialização da dor pelo erro. O sofrimento torna-se verbo nas entranhas da experiência. O que se tem a fazer como preceito ético é não julgar.
            Mesmo diante da hierarquia e choque de poder entre os de colete preto e os de jaleco branco, a suspensão do juízo funciona como imperativo categórico: as presas já foram julgadas. Agora pagam pelo que fizeram e a reclusão deve ensinar o valor da liberdade.
            Personalidades como seu Lenilton, chefe da saúde no presídio, dona Jamila, a psicóloga e Dra. Paloma, a medica “generalista” desempenham um papel determinante, contribuindo para que o próprio abandono não se escandalize com as dobras do desleixo em relação ao cuidado, e desista de si mesmo. Eles fazem com que o abandono não se abandone.
            Para a filosofia, Theodor Adorno (1903-1969) delegava o trabalho de transmitir a dor através do conceito. A autora realiza a tarefa. Coloca a filosofia em curso, ao desnudar no “conceito de cadeia”, a infinidade de sons, cheiros, olhares e dores. É complexo perceber que ela não contou tudo, pois “não teve acesso” ao subúrbio do “conceito cadeia”, naqueles lugares em que apenas os de colete preto chegam, e no qual elas, as mulheres tornadas bicho, habitam como baratas. O que se lê neste livro é a apreensão do culto sincero da sensibilidade em relação ao Outro. 

Nenhum comentário :