10 de outubro de 2015

Oração do Óbvio[1]

Por: Everton Marcos Grison

O escarnio sobre a desgraça alheia é a nítida feição da completa mediocridade. 


          Que a minha prece em verdade seja um grito, daqueles que não pedem passagem e ocupam espaço. Que o ribombar da minha voz alcance os ouvidos mais próximos, pois são estes que me causam medo. É meu pai, meu irmão, meu tio e meu vizinho. Quem precisa ouvir senta a mesa comigo, divide a cama, me chama de meu amor. 
          "Eu sou minha, só minha e não de quem quiser. Sou deusa, minha deusa". Chamar-me-ão de todo tipo de "V"; vadia, vagabunda, vaca, valentona, víbora. Todos os "Vs" que deveriam iniciar com "M", com o "M" destrutivo da maldade. 
         Não estou subjugada a nenhum deus de araque, cultuado na cerimônia do pênis. Como uma artificie, manuseio as palavras, mas sustento todos os "Vs". Nas minhas mãos eles se tornam "V" de vitória. Haverá ódio nos olhos, protestos e cobranças: "faça um filho com um dedo então?"
          Não é desafio, não é proposta, mas ataque! Zeus deus grego, fazia de tudo para aplacar seu apetite sexual, tornando-se inclusive animal. As deusas não são tão desesperadas. O desespero é ocorrência dos adoradores do falo. 
          A tirania persiste: "agora vocês não precisam mais de nós? Isso é a ditadura da vulva. É isso que acontece quando se lê demais Karl Marx". Não é uma e muito menos outra coisa. O que é perseguido inscreve-se como óbvio: o reconhecimento pelo que se é, ou seja, a questão doída da filosofia do ser. O que se busca é mais sorrisos e menos lágrimas. Isso é o necessário para se viver, do contrário, teremos que prosseguir com a oração do óbvio e os gritos de socorro: "Sou minha e só minha. Não de quem quiser".  

Notas: 
[1] Texto lido no evento Cutucando a Inspiração, Curitiba, 17/07/2015, por Francine Cruz, no evento em que homens liam mulheres e mulheres liam homens. 

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