16 de abril de 2015

Resenha: "Cartas de Esperança em Tempos de Ditadura"

Por: Everton Marcos Grison

            É perfeitamente cabível contar a história da humanidade a partir das cartas que as pessoas trocaram ao longo das épocas. Desde a antiguidade, as informações, felicitações, manifestações de afeto, notícias tristes, testamentos entre muitas outras formas de informações, foram trocadas via cartas. Elas possuem um mistério, apenas revelado àqueles que se dispõem ao risco do registro. A carta é uma manifestação do pensamento, o início do movimento que se faz parado. O primeiro passo de uma corrida, a volta performática da letra no início do relato enviado a alguma condessa. Ambos são claras declarações da vida do pensamento, que para demonstrar-se em plenitude, exige seu momento, quer o seu tempo, sua tinta, a grafia...
            As cartas nos tempos presentes perderam seu trono por muito incorruptível, substituídas pelos correios eletrônicos, pelas mensagens rápidas, supostamente materializadas na possibilidade do som e na visualização, via equipamentos eletrônicos, de remetente e destinatário. O trono foi perdido, por vezes, para a mentalidade anêmica dos 140 caracteres, entretanto, a grande aceleração político-econômica-social exigiu um modelo rápido, prático e principalmente sem materialidade. O que antes era um debate ontológico da presença passou a ser o imaterial do virtual.
            As cartas serviram para declarar, suprimir e denunciar as mais estranhas adversidades, funcionando como um arauto da popularização do que se fazia nas masmorras. As cartas salvaram humanos, mudaram o mundo e abriram portas para o novo. Não se fecharam em si mesmas na característica auto-suficiência que se consome.
            Especialmente no Brasil, foi através de uma carta que o controverso presidente Getúlio Vargas deixou registrado que saia da vida para entrar na história, imortalizado na memória de muitos. Por outro lado, as cartas mostraram ao mundo, que a Ditadura Militar Brasileira (1964-1985), torturava, matava e consumia pateticamente com os restos mortais dos “criminosos”. Eram todos bandidos de alta periculosidade, que tinham como crime a defesa irrestrita das classes menos favorecidas. Tais cartas relataram existências, expondo uma lógica política muito perversa, e ao modelo de Sócrates e Homero, combateram a desmemoria de todos. Como se percebe;

Este “sobreviver pessoalmente na memória dos outros” estava diretamente implicado na ideia de denúncia, isto é, a carta funcionando como alternativa de explodir as barreiras físicas da prisão, é o destinatário múltiplo, é a carta endereçada a toda e qualquer pessoa de bem que pudesse a partir da sua leitura – estabelecer qualquer elo de solidariedade com o remetente encarcerado. (RODRIGUES, 2015, p.  12-13)[1].

            O livro recentemente publicado com o título: Cartas de Esperança em tempos de Ditadura: Frei Betto e Leonardo Boff escrevem a Alceu Amoroso Lima (217 páginas), com organização, introdução e notas do Dr. Leandro Garcia Rodrigues e publicado pela Editora Vozes, vem somar-se a um grande interesse nas pesquisas historiográficas e literárias brasileiras, que reconhecem as cartas como importante documento histórico, além de contribuir de forma inestimável, para o conhecimento da população em geral, acerca do período dos “anos de chumbo” do Brasil. Tal epistolário é composto de 22 cartas, “... denso em temáticas abordada, chega ao público leitor oferecendo uma nova forma de se encarar o texto epistolar – como testemunho, relato, desabafo e denúncia” (p. 10). No total de 22 cartas, 04 são de Alceu e 18 são de Frei Betto em um testemunho e testamento vivo da e para a humanidade.
            O livro é composto de um ensaio/introdução de belíssima erudição, com referenciais filosóficos, históricos e literários, demarcando claramente o lugar do leitor em meio à pesquisa epistolar. Nos anexos são encontradas imagens dos originais das cartas, textos publicados em jornais por Alceu Amoroso Lima, no período em que os dominicanos estiveram presos, e textos de Frei Betto sobre Alceu. Também estão presentes algumas cartas trocadas entre Alceu e Leonardo Boff, as homenagens feitas por Boff na ocasião dos 85 anos de vida de Alceu, além da homilia da missa de sétimo dia do jornalista. Finalizando o livro, um ensaio cheio de vida e emoção, de autoria de Leonardo Boff, ressaltando as características mais determinantes do cavaleiro do pensamento Alceu Amoroso Lima.

Alceu significou no pensamento brasileiro o feliz encontro entre o saber cientifico e sua imbricação com a filosofia em função do esclarecimento do problema humano na dimensão pessoal, social, histórica e religiosa... Sua denúncia nunca perdeu seu alto nível. Soube sempre situar-se num horizonte inatacável e aberto, para além do ideológico, moda do dia, sem qualquer concessão ao rancor ou à lamúria. Atacado e até caluniado, jamais se defendeu. A verdade brilha com luz própria, não emprestada; ela mesma se encarrega de desfazer as mentiras. (p: 204, 207).
           

Este livro da editora Vozes pode ser adquirido em Curitiba pelo Telefone (41) 32331392.


*Notas: 



[1] RODRIGUES, Leandro Garcia (org.). Cartas de Esperança em tempos de Ditadura: Frei Betto e Leonardo Boff escrevem a Alceu Amoroso Lima. Petrópolis: Vozes, 2015. 

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