12 de abril de 2015

O antipetismo e a histeria coletiva

Por: Jonas J. Berra

Fonte: Correio do Povo. Ato de protesto divide os manifestantes
em Porto Alegre.
Em meio a uma série de denúncias de corrupção na Petrobrás[1] durante a atual gestão do partido dos trabalhadores (PT), um movimento emerge reivindicando para si o título de movimento democrático e apartidário. Ao mesmo tempo, saem do armário os adeptos da ideologia militarista[2], aproveitando-se do movimento para pedir a volta da ditadura; a revista Veja intensifica radicalmente a propaganda contrária ao governo; e o Jornal da Globo começa seus trabalhos da madrugada com frases de efeito como “mais um político do PT envolvido no escândalo da Petrobrás”. E a vida segue tal como nos dias anteriores, como a rotina de milhares de brasileiros que assistem novelas. O objetivo final do telespectador parece ser mesmo o entretenimento, enquanto o civismo só parece ser válido enquanto demonstrações públicas e midiáticas contra o “governo demoníaco”, que tal como o demônio representa o mal absoluto a ser eliminado. Assim, observa-se a histeria coletiva, porque sua consequência é um tipo de ação que parte das entranhas, enquanto a reflexão torna-se um entrave a ser deixada de lado. A frase de efeito FORA PT, socialismo, esquerda e Dilma, torna-se a senha da vez, juntando a massa para a eliminação de um inimigo em comum. A guerra, mesmo que por enquanto seja ideológica, passa a ser legitimada, desde que o inimigo seja eliminado. A partir daí, milhares de brasileiros que foram às ruas fecharam os olhos aos que pediam a volta da ditadura, fecharam os olhos aos xingamentos, que igualmente fazem parte do dia a dia de jogos de futebol e revelam a falta de pensamento reflexivo dos indivíduos que seguem a massa.
Olavo de Carvalho. Com sua pseudociência política, 
ele espera prever o futuro, desmascarando  os "males" 
da ideologia comunista e, portanto, dos "idiotas". 
Suas teorias de conspiração enchem 
o ego de seus leitores, que acreditam piamente 
e com isso acham que se tornam mais inteligentes 
que aqueles que não leram seus livros. 
Fonte: Rainha Maria







Dado o contexto complexo, o sujeito que tem interesse em compreendê-lo, precisa minimamente parar de pensar com as tripas, para utilizar seu cérebro. Um passo importante é procurar olhar para o todo, o que é possível com análise de conjuntura. Segundo Herbert José de Souza (SOUZA, 2009, p. 8) fazemos análise de conjuntura o tempo todo ao avaliarmos situações e tomarmos decisões. Porém, a análise de conjuntura que melhor pode responder ao problema de sabermos o que acontece na política é aquela que reduz os componentes subjetivos da análise. Em outras palavras, que não se embasa em opiniões, mas em fatos. Valoriza-se os aspetos objetivos, dando mais importância, por exemplo, às questões reais envolvidas no jogo político e a capacidade do político em levar o país à frente no tempo, enquanto sua aparência física - se a presidente é gorda ou magra - não entra em questão. Ao invés de degrenir a imagem do outro, o analista busca “perceber, compreender, descobrir sentidos, relações, tendências a partir dos dados e das informações” (SOUZA, 2009, p. 8). 
A análise pode partir de dois pontos de vista diferentes: a partir do poder dominante e a partir de sua oposição. Partir de um ou de outro leva o analista a selecionar acontecimentos, cenários e articulações, que podem interferir drasticamente no resultado final da análise. Vendo por esse lado, é evidente que se um grupo faz oposição a outro, ele tentará derrotá-lo com todas as cartas que tem e tomar o poder. Transferindo essa ideia a tal alegação de que o movimento "vem pra rua” é apartidário, percebe-se que isso não deixa de favorecer a oposição, que acaba ganhando a aderência da massa insatisfeita (por que só agora tem corrupção na política?). Falar de apartidarismo impede também a crítica de que a massa vai às ruas porque não aceitou a “derrota” (como quando no futebol acusam o juiz de roubar para o time adversário) nas últimas eleições. É exatamente o que a oposição quer: desestabilizar o governo, facilitando uma vitória nas próximas eleições. É como se ainda estivéssemos em campanha eleitoral.
Acima uma imagem do dia 12 de abril.
Abaixo uma das manifestações de motoboys por
melhores condições de trabalho.
Observa-se que o movimento “vem pra rua” de oposição ao governo e apenas ao poder executivo não tem a participação efetiva do “homem sofrido do cotidiano da sociedade de classes, sufocado pelo salário irrisório, maltratado pelas instituições públicas e desgostoso no ambiente familiar [não poderia sequer dar um ovo de páscoa aos filhos sem sonegar a luz ou a água]” (FILHO, 1989, p. 127).  É esse indivíduo que deveria se revoltar. Mas não. Essa massa que vai às ruas não representa os pobres e marginalizados. A maior parte desses manifestantes que gritam e xingam o governo creem piamente na meritocracia, ou seja, o indivíduo deve ser capaz de crescer economicamente sozinho, graças ao seu próprio esforço, sem bolsas “esmolas” e sem programas habitacionais. Esse indivíduo deve ser capaz de “pescar seu próprio peixe” e deve se desapegar das “esmolas”, que na verdade o deixam "acomodado e preguiçoso".
Durante muito tempo da história recente do Brasil, os movimentos sociais estiveram restritos aos setores excluídos da sociedade (o que não é o caso dos adeptos do “vem pra rua”). Maria da Glória Gohan (2010, p. 13) aponta para três grandes blocos:
1) movimentos de luta por direitos sociais, políticos, econômicos e culturais.  Eram as mulheres, os negros, os índios e os homossexuais que iam pra rua.
2) movimentos de luta por melhores condições de trabalho, acesso à terra, moradia, alimentação, saúde, transporte de qualidade, lazer e salário justo. Assim, mobilizavam-se os sem-terra, sem teto, os estudantes, os trabalhadores em geral unidos pelos sindicatos.
3) Movimentos globalizantes, que buscam construir redes sociopolíticas e culturais. Exemplos são o Foro de São Paulo[3] e o Fórum Social Mundial.
Fonte: Folha de São Paulo











Fonte: Folha de São Paulo. Mesmo sem provas, 
Lula e Dilma são tidos como bandidos.

Sabe-se que o Estado deve garantir os direitos de todos, inclusive das minorias. Em um país declaradamente democrático, não há muito o que dizer sobre o direito das pessoas protestarem. As pessoas percebem que existe um problema e fazem um diagnóstico: “é corrupção”. A partir daí procuram manifestar que sabem que existe um problema por meio de buzinaços, panelaços e vaias, ainda que a ignorância de muitos os levem a se expressarem na base dos xingamentos[4].
No caso das pessoas que pedem o impeachment, é como se estivessem tentando mudar o resultado das eleições através de um tapetão[5]. Apesar de mencionarem o fato de ser um movimento democrático, reivindicam uma alteração no resultado da última eleição[6] e, portanto, pedem algo que vai contra as regras da democracia. Se os manifestantes conseguissem o impeachment[7], quem assumiria seria Michel Temer, ou seja, um líder do PMDB - “Mesmo partido de Renan Calheiros e Eduardo Cunha, que dispensam apresentações” (CASTRO, 2015). Em nada mudaria o quadro de corrupção.
      Apesar de tudo, parece que o movimento tem sim sua importância, pois em mais de 20 anos desde o impeachment de Collor, enquanto negros, índios, sem-terras, professores, operários e homossexuais foram para as ruas protestar e lutar ao menos por direitos básicos como saúde, segurança e salários dignos é que os cidadãos da classe média e economicamente “folgada” não vão para as ruas. Foi bom sim, para que eles próprios sintam na pele como negros, índios, sem-terras, professores, operários e homossexuais sofrem para conseguir alguma coisa neste país onde a única coisa verdadeiramente apartidária é a corrupção. A diferença entre os movimentos do passado e os de hoje? Para aqueles dificilmente tinha cerveja e mulheres nuas.

REFERÊNCIAS

CASTRO, Kika. Opinião: 15 de março, eu não vou. 2015. Portal Fórum. <http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/03/opiniao-15-de-marco-eu-nao-vou/>. Acesso em: 04 março 2015. 

FILHO, Ciro Marcondes. Quem manipula quem? Poder e massas na indústria da cultura e da comunicação no Brasil. 3. Ed. Petrópolis, RJ. 1989. 

GOHN, Maria da Glória. Movimentos Sociais e redes de mobilizações civis no Brasil contemporâneo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

SOUZA, Herbert José de. Como se faz análise de conjuntura. 31 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.


NOTAS

[1] Sobre isso consultar:
RBS: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/03/petrobras-esta-envolvida-no-maior-escandalo-de-corrupcao-do-mundo-diz-cunha-4714602.html
Estadão: http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,petrobras-de-escandalo-e-escandalo-imp-,1155520
R7: http://noticias.r7.com/brasil/saiba-mais-veja-lista-de-47-politicos-investigados-em-escandalo-da-petrobras-06032015-3

[2] O mais triste é que a base desses ideólogos do militarismo é nada mais nada menos que o senhor Olavo de Carvalho, que é declaradamente antissocialista. Para saber quem é esse pseudointelectual leia: https://bertonesousa.wordpress.com/2012/10/28/olavo-de-carvalho-um-filosofo-para-racistas-e-idiotas/

[3] O Foro de São Paulo é muito mal compreendido. Antes de criticar, é importante entender: http://www.cartacapital.com.br/politica/voce-sabe-o-que-e-o-foro-de-sao-paulo-7773.html

[4] São esses os que xingam a presidente da república por conta de uma suposta posição ditatorial, mas que não são em nenhum momento perseguidos ou presos por seus posicionamentos ofensivos e radicais. Pelo contrário, ao invés de agir de maneira autoritária, ela buscou a conciliação. Lula, por sua vez, chegou a reconhecer o direito das pessoas protestarem (veja aqui: http://robertoalmeidacsc.blogspot.com.br/2015/04/lula-reconhece-direito-da-oposicao-de.html)
No dia 12 de abril mais atos de xingamentos foram proferidos contra quem não seguiu a massa irracional: http://noticias.r7.com/brasil/mulher-defende-dilma-em-protesto-no-rj-e-e-chamada-de-prostituta-12042015

[5] Tem o sentido de puxar o tapete. Deixar a pessoa sem chão ou derrubá-la a fim de tomar seu lugar.

[6] Aécio Neves não pode assumir o cargo de forma alguma. Em um processo de impeachment, o vice presidente é quem assumiria o cargo.

[7] Segundo pesquisa do Datafolha , http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/04/63-apoiam-abertura-de-processo-de-impeachment-aponta-datafolha.html, 63% dos entrevistados apoiam a abertura do processo de impeachment. Veja a seguir alguns dos resultados da pesquisa:
Considerando tudo o que se sabe até o momento a respeito da Operação Lava Jato, o Congresso deveria abrir um processo de impeachment para afastar a presidente Dilma da Presidência?

- Sim: 63%

- Não: 33%

- Não sabe: 4%

Caso isso ocorra, assume seu lugar:

- O vice (sem citar o nome): 29%

- Michel Temer: 13%

- Aécio Neves: 12%

- Outros: 8%

- Não sabe: 39%


Caso isso ocorra, assume seu lugar (entre quem apoia o impeachment):

- O vice (sem citar o nome): 27%

- Michel Temer: 10%

- Aécio Neves: 15%

- Outros: 8%

- Não sabe: 40%


Percebe-se, assim, a falta de conhecimento dessa população, que se manifesta, protesta e critica o governo, mas que desconhece aspectos básicos da atividade política e partidária.

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