15 de março de 2015

O que os jovens de hoje sabem sobre os jovens de ontem? 30 anos do fim da Ditadura Militar Brasileira

Por: Everton Marcos Grison

“o sistema esvazia nossa memória, ou enche a nossa memória de lixo, e assim              nos ensina a repetir a história em vez de fazê-la. As tragédias se repetem como farsas, anunciava a célebre profecia. Mas entre nós, é pior: as tragédias se repetem como tragédias” (GALEANO, 2000, p. 121).


Imagem de Marighella assassinado pela Polícia sob o
comando do delegado Fleury. 
          
O caminho para cada jovem brasileiro atualmente não tem ligação alguma com pré destinação, aspectos religiosos ou de imposição parental. Tal como é definida a sabonete que cada um usa para se banhar, ou o creme dental que mata as bactérias bucais, a propaganda assume diretrizes que determinam a consciência dos indivíduos. Tudo o que cada um entende por legal, alguém já o pensou anteriormente, defini-o com bastante precisão e pos para girar a roda da reprodutibilidade técnica, igualando a produção e escolha de ideias, a simples sabonetes que escoam com a água do banho pelo ralo. O que não se percebe é que juntamente com a água se vão as ideias, a autonomia, a personalidade e a vida. Todos cumprem uma mera função decorativa, de fantoches sem função específica no teatro da vida.
            A culpa é de quem? Alguém precisa assumir a desgraça de uma juventude que está ficando velha na aparência, mas conserva a jovialidade da consciência com pouca experiência e raso conhecimento. Como é cômodo apontar o torturador e então amarrá-lo em um poste. Também é possível ser um pouco mais sádico, arrastando o corpo do algoz, vivo é claro, pelas ruas da vida, como se fosse um desfile com carro alegórico, só que com a morte servindo como salário do silêncio.
            Quem é o responsável pelo medo que trava a juventude inexperiente, fazendo com que se tornem uma massa disforme, passiva, sem cheiro e sem dor? Aquela dor da consciência, ou seja, aquele estado de espírito que bate no próprio rosto exigindo um mínimo de ação. O que trava a ação é o medo. Aquele medo que obriga um pobre a retirar as mãos do bolso no interior de uma loja e ao sair, confere para certificar-se que realmente não roubou nada. Também existe o medo de saber que nos conduz a quietude da ignorância, à aceitação passiva da maldade e da injustiça, como se ambas fossem uma realidade incontestável.
            A escola que ensina o medo, a juventude envelhecida não frequentou e pouco quer saber. Os tempos eram outros, a política era outra, os movimentos e as pessoas eram completamente desconhecidas, entretanto, são muitos os mortos não sepultados além dos desaparecidos que vagam como almas penadas, acotovelando-se aos demais em busca de sua sepultura.

A ditadura militar, medo de escutar, medo de dizer, nos converteu em surdos mudos. Agora a democracia, que tem medo de recordar, nos adoece de amnésia; mas não se necessita ser Sigmund Freud para saber que não existe o tapete que possa ocultar a sujeira da memória. (GALEANO, 2000, p. 110).

            Trinta anos é o espaço temporal que separa os jovens de hoje, envelhecidos e anêmicos, dos jovens de ontem, joviais e pulsantes. São três décadas do fim da ditadura militar brasileira e ainda não se encontrou tempo para saber quem eram aqueles seres que queriam mudar o mundo para melhor. Em trinta anos evoluímos muito e decrescemos imensuravelmente no poço da memória. Quase nada sabemos sobre Chael Charles Schreider (morto em 1969); João Lucas Alves e Severino Viana Calú (João teve seus olhos perfurados e suas unhas arrancadas. A polícia declarou como causa mortis o suicídio. Sua morte ocorreu na delegacia de Furtos e Roubos de Belo Horizonte. Calú morreu na Guanabarra); Eduardo Leite (era conhecido como Bacuri. Trabalhava como técnico em telefonia. Assassinado com requintes de crueldade); Luiz Eduardo da Rocha Merlino (o exame necroscópico atesta morte por atropelamento. Sua morte foi provocada pela intensidade das torturas sofridas); Joaquim Alencar Seixas (consta que Joaquim morreu em tiroteio travado com a polícia. Entretanto, seu corpo foi retirado do interior da OBAN já sem vida. Sua morte se deu por tortura); Carlos Nicolau Danielli (também consta que morreu em tiroteio, mas, sua morte ocorre por ter sido torturado de forma intensa por três dias, até ser levado a óbito); Odijas Carvalho de Souza (o delegado do DOPS, Dr. Silvestre é o responsável pela aplicação das torturas que levaram Odijas à morte. O delegado bateu no acusado até se cansar. Tal delegado também era chamado de Miranda); Alexandre Vannuchi Leme (estudante de Geologia da USP foi barbaramente torturado até chegar a óbito. Sua morte foi declarada como atropelamento. Outras duas explicações surgiram para justificar sua morte, ambas por atropelamento); José Ferreira de Almeida (tenente da Polícia Militar de São Paulo, com 63 anos, veio a morrer devido as sevícias sofridas, nas seções de tortura); Wladimir Herzog (jornalista, foi morto nas seções de tortura que sofreu. Os militares forjaram seu suicídio, pendurando seu corpo já sem vida, em uma das celas do DOI. Wladimir foi considerado agente infiltrado da KGB [organização russa], e teria cometido suicídio para preservar a organização que fazia parte, não denunciando nenhum nome nos interrogatórios que foi submetido. (Cf: Brasil Nunca Mais, 2011, p. 288-302).
            A fraqueza da juventude anêmica é gerada nos vinte e um anos de atrocidades pelo regime. Dos jovens de hoje, muitos eram bebê à época e receberam a marca à ferro quente da desmemoria. Os que nasceram depois trouxeram do útero o verme do desconhecimento. A ditadura militar atingiu o brasileiro diretamente no seu âmago. Na tortura[1], na mortificação do corpo e da consciência, infelizmente riscaram com pedra pontuda a imagem da consciência crítica. Assassinaram-nos antes que nascêssemos na ocasião em que os jovens de ontem apanhavam no pau de arara[2], na cadeira do dragão.[3][4]A mancha de derrotismo, impotência e aviltamento é permanente. Só será lavada a partir do conhecimento dos fatos ocorridos.
            Uma das iniciativas mais audaciosas e ao mesmo tempo perigosas representou o projeto Brasil Nunca Mais, que consistiu na analise de mais de um milhão de páginas dos processos registrados pelos militares. Desse trabalho faraônico resultou um relatório de cinco mil páginas, o qual serviu de fonte principal, para a produção do livro com o mesmo nome do projeto. Um bom número de militares renegou e renega o livro e para fazer frente a sua publicação, produziram um escrito chamado: Brasil Sempre[5], contestando que não houve um golpe militar e que as torturas foram brandas.
            No ano de 2003, a biblioteca do exército publicou um livro intitulado: “1964 – 31 de março: o movimento revolucionário e a sua história”, reafirmando as ideias defendidas em Brasil Sempre em 1985 e reeditado e ampliado em 2014. Ambos os livros carecem de honestidade histórica, pois tentam falsificar ocorrências fartamente comprovadas[6] igualando-se aos grupos espalhados pelo mundo, interessados em dizer que o Holocausto perpetrado pelos nazistas não ocorreu. Os militares perpetuam um desserviço ao não reconhecerem que a Ditadura Militar no Brasil sangrou o povo brasileiro por vinte e um anos. Este é um dos passos necessários para que os jovens de hoje entendam o que representou ser um jovem ontem.
            Antônio dos Três Reis de Oliveira, um estudante de Apucarana – PR era um jovem de ontem, sonhador, buscava melhorar seu país para torná-lo justo, livre, democrático e com menos desigualdade social. Para Três Reis

De manhã, ao acordar, sua vida já estava definida com regras claras entre o permitido e o proibido. Proibido, por exemplo, pensar demais, perguntar demais, questionar demais, conversar demais e, principalmente ler demais. Até porque os livros bons só eram relacionados e permitidos pela Ditadura Militar. E seria extremamente conveniente exibir em casa, junto do material escolar ou até debaixo do braço como um troféu, o livro mais importante do Brasil da época, intitulado: “Educação Moral e Cívica”. Um livro de texto sem entusiasmo para um estudante, mas que trazia no seu conteúdo o manual de pensamento e comportamento obrigatório diante do governo tal como os dez mandamentos bíblicos: amar o governo militar sobre todas as coisas e nunca usar seu santo nome em vão”. (S/A, 2010,p. 18).

            A ditadura militar agia como um princípio religioso fornecendo aparato e caminho para a salvação comunista. A eles, tal doutrina e regime iria tomar o Brasil de assalto. Para proteger o país de tamanha ameaça, optaram pelo beneficiamento de poucos ao mesmo que bradavam ordens e davam tabefes em muitos. Foram muitas as crianças, mulheres, jovens, homens e idosos que dormiram com a cabeça pesada e as orelhas quentes; os jovens de ontem eram barbaramente torturados.
            Três Reis sabia de tudo isso e justamente por tal situação agarrava-se a suas ideias, ideais e amigos proclamando aos estudantes;

Cabe a nós, os estudantes a tarefa de honrar o símbolo maior da nossa unidade como povo, não apenas cantando o hino da Bandeira nas comemorações da escola, mas nos preparando para assumir postos chaves desta nação, quando formos mais velhos, sabendo que a nossa principal tarefa é garantir, sempre, o direito de todos a estudar. O direito de todos frequentarem uma faculdade; o direito de todos terem acesso aos livros, ao conhecimento, ao ensino qualificado. O analfabetismo que mancha de tristeza a nossa bandeira é, colegas estudantes, a causa primeira das desigualdades sociais, porque no rastro dele vem a miséria, o atraso. (S/A, 2010, p. 35).

            Reis provavelmente diria ao jovem de hoje que, na escola deveriam aprender primeiramente, o significado do ponto de interrogação, pois são as perguntas que realmente movem o mundo e nos tiram da mediocridade, tonificando nosso cérebro e acabando com a anemia de uma geração que é burra de história, com ídolos estrangeiros, ao mesmo tempo em que se alimenta de semicultura ao ler Olavo de Carvalho. O jovem de hoje perguntaria: mas Três Reis, e o ponto final? O ponto final não precisa ser aprendido, mais dia menos dia, ele finaliza a frase no dia que finda a existência de cada um.
            No dia 17 de maio de 1968, depois de já ter sido preso no histórico XXX Congresso Nacional dos Estudantes, a ditadura arrancou a caneta de Três Reis e lhe impediu de continuar escrevendo sua história. Calaram suas perguntas com o som das balas que fuzilaram seu corpo, no bairro Tatuapé em São Paulo. Mataram seu corpo, como também fizeram a Sócrates na Grécia antiga, mas não atingiram seu sonho: “de viver num país economicamente forte, democrático e fraterno. Um país respeitado por outras nações, um gigante acordado e ativo”. (S/A, 2010, p. 36).
            O jovem de hoje precisa saber que o sonho de Três Reis vai além dele, é algo que só pode ser possível se for entendido por muitos. No raiar de cada dia precisa pensar que, quem esquece o passado está fatalmente condenado a repeti-lo, com roupagem de maior mediocridade e menor vida. Sua curiosidade perguntará: porque nos dias atuais, em todos os lugares,  ainda se exige antecedentes criminais? A resposta é direta:

Ser fichado na polícia é uma forma bem antiga de intimidar qualquer pessoa e o registro na DOPS é um estigma que pesa muito na vida dos estudantes. Primeiro, por que são as informações da ficha que determinam quem será preso a cada nova operação da polícia política. Vai preso, anota na ficha, duas anotações, nova prisão e o “elemento” fica visado... Além disso, o Atestado de Bons Antecedentes, documento concedido pela polícia para comprovar que a pessoa não tem registros criminais... Para fazer inscrição no vestibular matrícula na universidade, concurso para emprego público, ser professor, solicitar financiamentos, tirar carteira de motorista e passaporte, exercer a profissão de jornalista ou ser candidato em qualquer cargo eletivo, o atestado é condição prévia. (URBAN, 2008, p. 105).

            Antes do jovem de hoje passar a falar irresponsavelmente sobre a Comissão da Verdade, a Lei da Anistia que deixa impune torturadores, precisa aprender a não esquecer. Primeiramente, que o essencial é saber perguntar, todo o resto é secundário ou inútil. Conhecer a história é conhecer a si mesmo e principalmente; o desinteresse pelos anos de chumbo do Brasil tripudia e cospe violentamente no rosto chagado de quem buscou um país melhor e teve sua existência diminuída. Conhecer é prestar culto a memória dos que apanharam, morreram e ainda, daqueles que vagam em busca de suas histórias roubadas.

Referências Bibliográficas

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil Nunca Mais: Petrópolis: Vozes, 2011. (Coleção Vozes de Bolso).

BETTO, Frei (org.). Resistência e Utopia. São Paulo: CEPIS, 1994.

GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Tradução de Sérgio Faraco. Porto Alegre: Lp&m Pocket, 2012.

_____. O livro dos Abraços. Tradução de Eric Nepomuceno. 8ª ed. Porto Alegre: Lp&m Editores, 2000.

TAVARES, Flávio. Memórias do Esquecimento: os segredos dos porões da ditadura. Porto Alegre: Lp&m Pocket, 2012.

SEM AUTOR. Três Reis, uma vida pela liberdade e justiça. Apucarana: Grupo Tribuna, 2010.

SEM AUTOR. 1964 – 31 de março. O movimento revolucionário e a sua história. Tomo I. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2003.

URBAN, Teresa. 1968 Ditadura Abaixo. Ilustrações de Guilherme Caldas. Curitiba: Arte e Letra, 2008.

*Notas: 


[1] Para uma consulta mais completa sobre as técnicas de torturas empregadas pelo regime, recomenda-se a leitura do livro: Brasil Nunca Mais, especialmente a parte 1 – “Castigo cruel desumano e degradante”; parte 5 – “Regime marcado por marcas da tortura”; parte 6 – “Os limites extremos da tortura”. Também é de inestimável importância o livro de Frei Betto intitulado Batismo de Sangue.  

[2] “...O pau de arara consiste numa barra de ferro que é atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, sendo o ‘conjunto’ colocado entre duas mesas, ficando o corpo do torturado pendurado a cerca de 20 ou 30 cm do solo. Este método quase nunca é utilizado isoladamente, seus ‘complementos’ normais são eletrochoques, a palmatória e o afogamento [Augusto César Salles Galvão, estudante, 21 anos, Belo Horizonte; carta de próprio punho, 1970: BNM n.150, V. 2º, p. 448-450]”. (B.N.M, 2011, p. 35).

[4] “...sentou-se numa cadeira conhecida como cadeira do dragão, que é uma cadeira extremamente pesada, cujo assento é de Zinco e que na parte posterior tem uma proeminência para ser introduzido um dos terminais da máquina de choque chamado magneto; que, além disso, a cadeira apresenta uma travessa de madeira que empurrava as suas pernas para trás, de modo que a cada espasmo de descarga as suas pernas batessem na travessa citada, provocando ferimentos profundos... [José Milton Ferreira de Almeida]”. (B.N.M, 2011, p. 37-38).

[5] GIORDANI, Marco Pollo. Brasil Sempre. 2ª edição. Porto Alegre: Palmarinca, 2014. [1ª edição foi lançada em 1985, pela editora Tchê].

[6] O jornalista Flávio Tavares é uma das referências principais sobre o golpe de 1964 e seus desdobramentos. Entre seus vários livros sobre o período e o tema da ditadura se destacam: “O Dia em que Getúlio matou Allende e outras novelas do poder” (Lp&m Editores, 2014); “1964 O Golpe” (Lp&m Editores, 2014); “1961 – O Golpe Derrotado – Luzes e sombras do movimento da legalidade” (Lp&m Editores, 2012).

6 comentários :

Alexandre luis santos disse...
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Alexandre luis santos disse...
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Alexandre luis santos disse...
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Alexandre luis santos disse...

Prezado amigo,

Vejo-me no dever de contestar as afirmações aqui expostas.

“...a propaganda assume diretrizes que determinam a consciência dos indivíduos”.

A propaganda em todas as suas espécies, seja na forma da mais fria exposição, seja na forma do mais gritante apelo, visa apenas convencer um indivíduo para que ele forme uma escolha, não determinando sua ação e muito menos sua consciência. Se assim fosse, não lhe seria possível uma escolha, quanto mais uma crítica. Dada a sua natureza limitada, não é concebível que a propaganda possa assumir essa função diretriz, função essa que viria determinar a consciência de alguém. Os fracassos publicitários, por exemplo, são elementos suficientes para que esta tese seja reduzida ao patamar de Doxa.

“Todos cumprem uma mera função decorativa, de fantoches sem função específica no teatro da vida.”

Se assim for, qual a situação existencial do imenso conjunto de intelectuais que compartilham da sua tese? Pelo que a realidade nos mostra, vivemos todos sob o mesmo sistema. Assim, segundo a sua tese, eles também cumprem apenas uma função decorativa, de fantoches. Caso não cumpram, sua tese não é universal. Se não é universal, não é filosófica. Há um termo mais preciso para a crítica que exclui de antemão todo aquele que a profere: hipocrisia, consciente ou não. É a vida um teatro ou é um teatro esta tese?

Alexandre luis santos disse...

“Quem é o responsável pelo medo que trava a juventude inexperiente, fazendo com que se tornem uma massa disforme, passiva, sem cheiro e sem dor? Aquela dor da consciência, ou seja, aquele estado de espírito que bate no próprio rosto exigindo um mínimo de ação.”

Ninguém é responsável por um medo inexistente. Como alguém pode ter dor de consciência por um ato que não cometeu? Massa disforme? O indivíduo passou a ser considerado apenas no que diz respeito a uma coletividade? O que ele é por si nada vale, só vale em termos de aceitação ou não de uma ideologia? O estado de espírito que bate no próprio rosto exigindo um mínimo de ação é um estado de espírito doentio quando os seus pressupostos “filosóficos” pregam uma leitura míope da realidade, reclamando a formação de uma sociedade que “deveria ser” e tornando mais feia do que já é a realidade mesma, não a conceitual.

“O jovem de hoje precisa saber que o sonho de Três Reis vai além dele, é algo que só pode ser possível se for entendido por muitos. No raiar de cada dia precisa pensar que, quem esquece o passado está fatalmente condenado a repeti-lo, com roupagem de maior mediocridade e menor vida.”

O Sonho de Três Reis, apesar de belo e bem-intencionado, não poderia se realizar pelas vias que optou. Ele entrou para a ALN (Aliança Nacional Libertadora) sem nenhuma consciência de seus atos? Baseada em premissas falaciosas, a ideologia de Três Reis não pode ser entendida, nem por poucos, nem por muitos. Não fiar-se em teses equivocadas é requisito mínimo para uma roupagem sem mediocridade e com mais vitalidade. Além do mais, em todo o processo de formação individual, precisamos de um conhecimento considerável apenas para perceber a extensão de nossa própria ignorância, que no cotidiano nos provoca até mesmo as mais caras frustações, obrigando-nos a absorver elementos antes não considerados, e que na vida intelectual nos obriga a ler uma lista de livros imensamente maior que a lista aqui referenciada.
Todo este processo de formação individual, em seu duplo aspecto, nos é imensamente caro... Pergunto-lhe: como é possível você se render a uma retórica tão barata?

A Tortura foi, é e sempre será um ato abominável. A investigação de fatos ocorridos antes da Lei da Anistia deve ser feita não de maneira unilateral, mas de um modo que esgote TODOS os elementos de uma história e que esclareça os atos cometidos dos DOIS LADOS. Essa história começa em 1935 com Luis Carlos Prestes, e só abarcando os fatos ocorridos antes de 64 poderemos entender, com honestidade intelectual, todo o ocorrido na Ditadura Militar.

Alexandre luis santos disse...

“A ditadura militar agia como um princípio religioso fornecendo aparato e caminho para a salvação comunista. A eles, tal doutrina e regime iria tomar o Brasil de assalto.”

Financiados e treinados por Fidel Castro, que banhou Cuba em sangue com a sua revolução, não seria com beijinhos e abraços que os defensores desta doutrina tomariam o Brasil...
Interessante seria comparar o número de mortos da ditadura brasileira com os que morreram no “paredón” cubano. Fica a dica.

“Reis provavelmente diria ao jovem de hoje que, na escola deveriam aprender primeiramente, o significado do ponto de interrogação, pois são as perguntas que realmente movem o mundo e nos tiram da mediocridade, tonificando nosso cérebro e acabando com a anemia de uma geração que é burra de história”

Não desejo que o cérebro de ninguém seja tonificado em uma ideologia que nunca deu certo, que prega uma sociedade que nunca existiu e que quer fazer da sociedade atual um rato de laboratório, tentando aperfeiçoá-la, na base da tentativa e erro, precisamente só erro, e que custou a vida de milhões pelo mundo. “Ah, mas lá eles erraram, desta vez será diferente...” Quem garante? Você garante? Aceita a responsabilidade de incitar e converter uma geração a sair de uma suposta “mediocridade” para um fim incerto, quando a História lhe revela, a esta mesma geração “burra de história”, a via sem ética e de desgraças incontornável? Afinal de contas, “...o essencial é saber perguntar, todo o resto é secundário ou inútil.”

“Conhecer é prestar culto à memória dos que apanharam, morreram e ainda, daqueles que vagam em busca de suas histórias roubadas.”
Culto prestamos àqueles que pela via construtiva, ética e por mérito, façam a diferença para a humanidade com atitudes pequenas, porém sólidas e duradouras. Não há que se prestar culto àqueles que se iludiram o suficiente para pegar em armas, desde 1935, e não tiveram maiores escrúpulos em utilizar bombas, sequestrar aviões e justiçar os próprios companheiros que, no meio da selva, saíram da caverna ideológica e notaram que pela via destrutiva nada perdura. Não há que se prestar culto aos mesmos que hoje escondem os seus crimes e que não permitem que sejam investigados.
Prestamos culto aos vários inocentes do conflito; prestamos culto a João Pereira, de 17 anos, que foi esquartejado em Xambioá, Tocantins, na frente da família, pelos guerrilheiros liderados por José Genoíno, melhor definidos como os Terroristas do Araguaia.