27 de janeiro de 2015

O EFÊMERO COMO MARCA DA EXISTÊNCIA


Por Wagner Rafael Rodrigues¹

            
 Nos dias atuais é nítida a sensação de extrema rapidez que circunda o cotidiano. O fenômeno da globalização favoreceu que o conhecimento se tornasse amplo graças aos avanços tecnológicos. No entanto, o ser humano transita na dicotomia entre o virtual e o real, perdendo a noção de espaço e tempo. Ora, cada vez mais as relações sociais são tidas como funções a serem cumpridas, assim como as máquinas. De fato, Wilhelm Schulz (1797-1860) no século XIX advertia: “Não se levou em conta ainda esta grande diferença: até que ponto os homens trabalham com máquinas, ou até que ponto eles trabalham como máquinas” (SCHULZ, 1843, s.d, p.69 apud MARX, 2010, p.32).
            Outro fator é a influência que a tecnologia exerceu na vivência humana, por exemplo: na linguagem, na distribuição do conhecimento, na política, na saúde, na alimentação, economia e até mesmo nos espaços sagrados que em seus ritos adotaram instrumentos tecnológicos para auxiliarem em seus cultos.
O que há de errado em tudo isso? Qual o problema de uma sociedade tecnológica? O que se deixou para trás após o início da era tecnológica? Tais perguntas retratam o pano de fundo deste breve esboço sobre um dos principais problemas que afetam a vida humana, o Imediatismo².Tal concepção gera relações humanas superficiais e descartáveis, o que Zygmunt Bauman (19225) chama de Modernidade Líquida ³.

            Nesse sentido, por detrás da ideia de imediato se sobrepõe o conceito de Efemeridade, que por sua vez é marca registrada da natureza humana. Conforme, o Dicionário Aurélio efêmero: “1.Que dura um só dia. 2.De pouca duração; passageiro, transitório” (BUARQUE, 1986, p. 620). Ora, seria o ser humano eterno e imutável? Dessa maneira, pode-se afirmar que a única certeza da vida é o fim, ou seja,a morte4 . Assim, algumas questões se impõem sobre o modo de existir atual: Por que ter pressa para chegar ao fundo do pote? Em outras palavras, se a única certeza é a morte porque viver dias curtos e corriqueiros?
Nessa perspectiva, no filme “Sherlock Holmes” (2009), o famoso detetive indaga ao seu amigo Watson: quantos degraus há na escada da rua até a porta? Após ele ter subido por ela. O amigo não sabe responder alegando que não contou os degraus. Essa cena representa a automatização da vida humana, despercebendo-se assim, os detalhes que compõem o existir perdendo-se a capacidade de contemplação e reflexão.
            Nessa perspectiva, se faz pertinente à obra de um dos maiores poetas do século passado, o português Fernando Pessoa (1890-1931). A poesia pessoana se caracterizou pela criação de personalidades poéticas, a qual se denomina poesia heteronímica. Na obra do poeta contam-se muitos heterônimos, no entanto merecem destaque: O pastor de rebanhos Alberto Caeiro, o pagão neoclássico Ricardo Reis, o moderno industrial Álvaro de Campos e Fernando Pessoa ortônimo (ele mesmo). Esta é constelação da poesia heteronímica de Pessoa, que na sua dinâmica possui muitos paradoxos e tensões. De um lado temos Fernando Pessoa ortônimo que tem como característica o pensar, enquanto Caeiro não pensa. De outro lado temos Ricardo Reis que não quer sentir nada, enquanto Álvaro de Campos quer sentir tudo de todas as maneiras.
            Destarte é interessante para a questão da efemeridade a poesia do neoclássico pagão Ricardo Reis, que soube aproveitar o máximo de tempo que a vida lhe proporcionou, todavia, o pouco que aproveitou em nada sanou sua maior dor, a passagem do tempo. Em suas odes, Reis busca paliativos para encontrar um sentido para o viver. Portanto, angústia de Reis era tamanha, pois para ele a proposta cristã de ressurreição e vida eterna não faz o menor sentido. O andar do relógio trazia consigo o destino de todos os homens, e Reis sem nenhuma esperança sente o maior dos calafrios, o esquecimento e o vazio.
No bojo da poesia ricardiana três símbolos clássicos perpassam toda a sua obra, A Flor, A Água e O Vinho. Assim, o quê cada símbolo representa na poética de Reis? Descrever-se-á o modo como o poeta os concebe.
    O símbolo da flor caracteriza-se como uma tentativa de embelezamento do instante, como na ode:
Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
(REIS, 1983,p.73)

Assim, como uma dona de casa que coloca flores numa jarra para enfeitar a casa Reis colhe as flores, pois elas proporcionam, nem que seja por um instante, alegria a vida de Reis, e desse modo ele sente vontade de viver. Porém, a flor lembra a finitude e toda esta sensação alegre desaparece, e novamente o poeta é tomado pela angústia da passagem do tempo.
O símbolo da água se constitui pela dinâmica do rio enquanto passagem do tempo, Reis vai com o rio:
Vem Sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e  não estamos de mãos enlaçadas.
(REIS, 1983,p.80)

Em outras palavras, passar com o rio é diferente de passar como o rio, ou seja, Reis mergulha no rio e ao invés de boiar se deixar levar pela correnteza, ele se desespera e luta contra o rio, como um afogado. Noutras palavras, Reis angustia-se com o passar do tempo, pois ao término de cada segundo a vida se esvazia e mais próxima está à morte.
Na dinâmica do lago é a água que a morte seca, por isso o lago é estático, parado, inerte. Reis vê no lago a impossibilidade de lutar contra tempo sentado a beira-lago espera a morte chegar não se importando com a vida, como na ode:

E a beleza, incriável por meu sestro,
Eu goze externa e dada, repetida
Em meus passivos olhos,
Lagos que a morte seca.
(REIS, 1983, p.119)

Por fim, o vinho é para Reis uma tentativa frustrada de aliviar e esquecer sua dor, causada pela consciência da morte. Tal imagem é nítida nesta ode:
Bocas Roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa.
(REIS, 1983, p.103)

Reis não bebe o vinho para se alegrar, e muito menos constitui um ritual ou algo semelhante. Ora, beber e continuar sóbrio, eis o drama de Reis, que angustiado pela passagem do tempo não consegue se deleitar com o prazer que o vinho lhe proporciona.
Sendo assim, o conceito de efemeridade, representada nos símbolos da poesia de Pessoa-Reis, se constitui como uma pedra no sapato. Em outras palavras, o indivíduo que busca tudo no fundo não encontra nada, pois tudo que existe é efêmero, inclusive o próprio indivíduo. Será que o modo de existir atual ao eleger o lucro, o poder, o prazer e o ter, como valores essenciais encontrará sentido para a realização plena da existência? Se a certeza da vida é a morte qual será o legado que se deixará para aqueles que ainda não são? Cabe a cada um se questionar e ter a coragem de refletir sobre tais temas, buscando um sentido “para vida”, mesmo que todos os sentidos possíveis sejam efêmeros.



NOTAS


1 - Licenciado em Filosofia pela FAE Centro Universitário (2014).
2 - Imediatismo é tudo aquilo que se faz na busca do "agora", sem pensar nas consequências. Não há paciência e nem discernimento para o ser que vive o imediatismo. Essa busca desenfreada pode resultar em processos de estresse, assuntos mal resolvidos e pessoas infelizes. Disponível: http://www.dicionarioinformal.com.br/imediatismo/ Acesso: 07/01/2015.
3 -  Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês nascido em 1925, que iniciou carreira na Universidade de Varsóvia. Publicou mais de quarenta livros, entre os quais Modernidade Líquida, a obra foi publicada próximo ao ano 2000, na propalada virada do século, sendo efetivamente lançado em 2001. A liquidez, a qual Bauman propõe vem do fato que os líquidos não têm uma forma, ou seja, são fluídos que se moldam conforme o recipiente nos quais estão contidos, diferentemente dos sólidos que são rígidos e precisam sofrer uma tensão de forças. Disponível:http://www.ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=99&revista_caderno=23 Acesso: 07/01/2015.


4 -  No início do século XX era notável a corrente filosófica denominada Fenomenologia, a qual foi fundada por Edmund Husserl. Todavia, seu maior expoente foi filósofo alemão Martin Heidegger, que se debruçou sobre a questão do SER (Dasein). Nesse sentido, nessa ideia da poesia pessoana-ricardiana de que o fim da existência é a morte talvez o conceito SER- PARA- MORTE hedeiggeriano plastifique essa ideia, pois: “o Dasein como ser limitado por circunstâncias que compreendem o seu mundo compartilhado é levado a pensar sobre a dimensão futura de sua existência e a lançar-se para seu encontro. É chamado a projetar-se mediante tal desafio, vendo-se sempre limitado no tempo como ser mortal, frágil sujeito a incompletude, marcado pela   angústia”.
  
REFERÊNCIAS
BUARQUE, A. de H. F. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro. 2. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

PESSOA, Fernando. Ficções do interlúdio: odes de Ricardo Reis; Para além do outro oceano de Coelho Pacheco. 4. ed.Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1983.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad. Jesus Ranieri. [ 4. reimpr.]. São Paulo. Boitempo, 2010.

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