21 de dezembro de 2015

Filosofia: os autores, as obras - Jacqueline Russ

                Por: Everton Marcos Grison

          No Brasil, o ensino de filosofia está próximo de completar dez anos de retorno à etapa do ensino médio. No país, por mais de 30 anos os jovens não dispuseram nesta fase de formação, das reflexões e ideias dos filósofos. Muito já foi feito no sentido de consolidação da disciplina no interior das escolas brasileiras, sejam elas públicas ou privadas, mas há muito a ser conquistado.
          Ao longo desse período várias metodologias foram testadas e muitas continuam a ser objeto de pesquisa diariamente por professores de escolas e pesquisadores universitários. A pesquisa também se desenvolve na escola e quem sabe, neste âmbito seja onde o retorno acadêmico para a sociedade é mais evidente. Existe uma necessidade latente de que o professor, especialmente o professor de filosofia, também seja um pesquisador, no sentido de manter-se atualizado com tudo de novo que está sendo produzido, além é claro de refletir a partir de suas visões de mundo e suas propostas de investigação.
           O material disponível para o ensino de filosofia felizmente é vasto. Cabe ressaltar que é preciso um critério bastante claro na seleção dos materiais didáticos e nos referenciais dos professores, para garantir um ensino de filosofia de qualidade , que esteja atento ao manuseio do texto filosófico, o trabalho conceitual, o desenvolvimento histórico e problemático das ideias.
          Levando em conta isso, a Editora Vozes lançou no país uma obra da já reconhecida pesquisadora e professora francesa Jacqueline Russ, intitulada: Filosofia: os autores, as obras. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. 499 páginas, R$: 89,00. Russ também é  autora de: Os Métodos em Filosofia (2010) igualmente publicado pela Editora Vozes. Na obra lançada este ano, a autora busca elaborar reflexões sobre a vida e o pensamento dos grandes filósofos.

13 de outubro de 2015

Resenha: Cadeia: relatos sobre mulheres - Debora Diniz.

Por: Everton Marcos Grison

uma anatomia do abandono


         A escrita é um eco que deve necessariamente ultrapassar o limite da audição. Escrever é um ato de exorcismo, comportamento um tanto esquizofrênico, uma forma de compreender o incompreensível e o incompreendido. Ato de rebeldia, manifestação da liberdade, a escrita trancafia aquilo que eclode da inconformidade, do grito que quer chamar a atenção para a paralisia. A escrita apresenta as veias abertas do sofrimento, ao mesmo tempo em que delineia os contornos da maça da esperança. A escrita é o relacionamento definido, o extravio não reconciliado, as mãos dadas do casamento entre deus e o diabo.

            Escrever é estar diante das múltiplas faces do abandono: abandonar-se enquanto ser escrevente, estar abandonado em meio a um mundaréu de palavras e regras gramaticais, abandonar-se para além do registro escrito, como testemunho sincero da existência, tratar daquilo que é abandonado, enredar-se através e com o abandono humano. Escrever é uma anatomia abandonada.

10 de outubro de 2015

Oração do Óbvio[1]

Por: Everton Marcos Grison

O escarnio sobre a desgraça alheia é a nítida feição da completa mediocridade. 


          Que a minha prece em verdade seja um grito, daqueles que não pedem passagem e ocupam espaço. Que o ribombar da minha voz alcance os ouvidos mais próximos, pois são estes que me causam medo. É meu pai, meu irmão, meu tio e meu vizinho. Quem precisa ouvir senta a mesa comigo, divide a cama, me chama de meu amor. 
          "Eu sou minha, só minha e não de quem quiser. Sou deusa, minha deusa". Chamar-me-ão de todo tipo de "V"; vadia, vagabunda, vaca, valentona, víbora. Todos os "Vs" que deveriam iniciar com "M", com o "M" destrutivo da maldade. 
         Não estou subjugada a nenhum deus de araque, cultuado na cerimônia do pênis. Como uma artificie, manuseio as palavras, mas sustento todos os "Vs". Nas minhas mãos eles se tornam "V" de vitória. Haverá ódio nos olhos, protestos e cobranças: "faça um filho com um dedo então?"
          Não é desafio, não é proposta, mas ataque! Zeus deus grego, fazia de tudo para aplacar seu apetite sexual, tornando-se inclusive animal. As deusas não são tão desesperadas. O desespero é ocorrência dos adoradores do falo. 
          A tirania persiste: "agora vocês não precisam mais de nós? Isso é a ditadura da vulva. É isso que acontece quando se lê demais Karl Marx". Não é uma e muito menos outra coisa. O que é perseguido inscreve-se como óbvio: o reconhecimento pelo que se é, ou seja, a questão doída da filosofia do ser. O que se busca é mais sorrisos e menos lágrimas. Isso é o necessário para se viver, do contrário, teremos que prosseguir com a oração do óbvio e os gritos de socorro: "Sou minha e só minha. Não de quem quiser".  

Notas: 
[1] Texto lido no evento Cutucando a Inspiração, Curitiba, 17/07/2015, por Francine Cruz, no evento em que homens liam mulheres e mulheres liam homens. 

11 de julho de 2015

Prazer em conhecê-lo: TEXTO.

Por: Everton Marcos Grison         
        
          O texto inicia o momento em que o autor marca a página com o ponto final e dá o sopro vital necessário para que o escrito ganhe vida própria e voe desprendido. O autor deixa de ser quem produz e passa a ser o porta voz daquilo que é vivaz e, portanto, reclama sua liberdade e existência. Por ser um ente existente, o texto possui suas peculiaridades, exige um trabalho sério e espera do leitor as retomadas inumeráveis, para que a cada novo contato o sentido vá clareando cada vez mais.

            No labor filosófico a atividade de leitura é o plano principal. É através principalmente da leitura do texto filosófico, que se desenvolve todo o delineamento das ideias. Sem dúvidas, cabe ressaltar que para muitos o trabalho filosófico ultrapassa os limites do texto e se inscreve na sonoridade de uma música, no espanto estético de um quadro ou até, na própria apreensão do discurso oral desenvolvido de forma mais informal, mas nem por isso menos importante.
            O texto filosófico traz consigo todo um contexto o qual está inserido e reflete as ideias de uma época e lugar. Entretanto, parece se inscrever como texto filosófico não apenas por representar bem uma época. O texto de filosofia vai além de seu tempo e espaço; ele fala para as gerações futuras, os lugares ainda não existentes e aos leitores que ainda não nasceram.

            Desta maneira, é primordial a leitura e principalmente a releitura do texto filosófico, pois a leitura normalmente é marcada pelo desconforto da linguagem, a dureza da constituição das ideias, muitas vezes cunhadas com dor e suor. As ideias filosóficas também são a materialização do sofrimento e angústia de alguém que tenta dialogar com o futuro. Para tanto, a releitura é uma forma de honestidade com quem manchou aquela folha com as palavras, e um trabalho de sinceridade com o próprio texto, que não se apresenta todo de uma vez na primeira leitura. Em verdade, o texto é como o desenvolvimento de uma relação amorosa, que geralmente não acontece prontamente de uma vez. É fascinante o caminho, a conquista, o contato, a presença. Quanto mais presente, tanto mais o texto se desnuda e mais nítido fica seu sentido e sua profundeza. 

20 de maio de 2015

Paraná: o governador, os deputados e o óleo de peroba

Por: Everton Marcos Grison

Vivemos o inferno, com bombas, balas de borracha, spray de pimenta, violência e muita truculência. Estávamos desarmados! Apenas carregávamos as nossas ideias, os nossos sonhos e a indignação. Fomos massacrados por um governo insensível as causas públicas, incompetente nas questões técnicas e sem moralidade para ocupar o cargo que ocupa.

            O dia 29/04/2015 representa o pior dia da história na vida de muitas pessoas. Significa o maior ataque contra a democracia já perpetrado por um governante no Brasil, pós período militar. Quem sabe, os requintes de maldade orquestrados por Carlos Alberto Richa e sua equipe psicopata, tenham ultrapassado os limites da loucura praticada pelos militares entre 1964 e 1985 no Brasil. De uma vez só, o governo do estado expôs a tropa da Polícia Militar do Paraná ao completo ridículo, massacrou professores, funcionários e demais servidores e sepultou para sempre sua carreira política.

28 de abril de 2015

O Desenvolvimento e as Condições Reais de Fato¹

Por: Edinei Marcos Grison

A história do desenvolvimento econômico na América Latina é denominada por Cardoso& Faletto (1979) como um processo social. No entanto, segundo Amartya Sen (2000), o grande número de possibilidades não é capaz de liquidar com situações onde a expectativa/qualidade de vida, a renda, os direitos políticos e sociaisdeixem de ser uma realidade inexistente e complexa. A passagem do subdesenvolvimento para o desenvolvimento ainda continua sendo um transcurso excludente e disforme.
Segundo Barbosa (2012) a justiça fiscal, ou seja, a transparência do sistema financeiro poderia reduzir as desigualdades sociais e econômicas. No entanto, a questão da pobreza e do subdesenvolvimento é muito mais grave que se possa considerar, pois os pobres são pobres além das fronteiras nacionais.A lógica de transparência financeira é bem simples: controle do sistema financeiro para boicotedas práticas ilícitas e da alimentação dos paraísos fiscais que não possuem controle das movimentações financeiras.A distancia social e econômica pode ser medida, verificando-se o Índice de Gini que, mede a concentração de riqueza e a pobreza como indicadores da desigualdade.

Abujamra Eternamente

Uma fatalidade, que deixa nosso coração ainda mais triste nesses dia de luta e dificuldade!
Uma daquelas pessoas feitas de arte!




16 de abril de 2015

Resenha: "Cartas de Esperança em Tempos de Ditadura"

Por: Everton Marcos Grison

            É perfeitamente cabível contar a história da humanidade a partir das cartas que as pessoas trocaram ao longo das épocas. Desde a antiguidade, as informações, felicitações, manifestações de afeto, notícias tristes, testamentos entre muitas outras formas de informações, foram trocadas via cartas. Elas possuem um mistério, apenas revelado àqueles que se dispõem ao risco do registro. A carta é uma manifestação do pensamento, o início do movimento que se faz parado. O primeiro passo de uma corrida, a volta performática da letra no início do relato enviado a alguma condessa. Ambos são claras declarações da vida do pensamento, que para demonstrar-se em plenitude, exige seu momento, quer o seu tempo, sua tinta, a grafia...

12 de abril de 2015

O antipetismo e a histeria coletiva

Por: Jonas J. Berra

Fonte: Correio do Povo. Ato de protesto divide os manifestantes
em Porto Alegre.
Em meio a uma série de denúncias de corrupção na Petrobrás[1] durante a atual gestão do partido dos trabalhadores (PT), um movimento emerge reivindicando para si o título de movimento democrático e apartidário. Ao mesmo tempo, saem do armário os adeptos da ideologia militarista[2], aproveitando-se do movimento para pedir a volta da ditadura; a revista Veja intensifica radicalmente a propaganda contrária ao governo; e o Jornal da Globo começa seus trabalhos da madrugada com frases de efeito como “mais um político do PT envolvido no escândalo da Petrobrás”. E a vida segue tal como nos dias anteriores, como a rotina de milhares de brasileiros que assistem novelas. O objetivo final do telespectador parece ser mesmo o entretenimento, enquanto o civismo só parece ser válido enquanto demonstrações públicas e midiáticas contra o “governo demoníaco”, que tal como o demônio representa o mal absoluto a ser eliminado. Assim, observa-se a histeria coletiva, porque sua consequência é um tipo de ação que parte das entranhas, enquanto a reflexão torna-se um entrave a ser deixada de lado. A frase de efeito FORA PT, socialismo, esquerda e Dilma, torna-se a senha da vez, juntando a massa para a eliminação de um inimigo em comum. A guerra, mesmo que por enquanto seja ideológica, passa a ser legitimada, desde que o inimigo seja eliminado. A partir daí, milhares de brasileiros que foram às ruas fecharam os olhos aos que pediam a volta da ditadura, fecharam os olhos aos xingamentos, que igualmente fazem parte do dia a dia de jogos de futebol e revelam a falta de pensamento reflexivo dos indivíduos que seguem a massa.
Olavo de Carvalho. Com sua pseudociência política, 
ele espera prever o futuro, desmascarando  os "males" 
da ideologia comunista e, portanto, dos "idiotas". 
Suas teorias de conspiração enchem 
o ego de seus leitores, que acreditam piamente 
e com isso acham que se tornam mais inteligentes 
que aqueles que não leram seus livros. 
Fonte: Rainha Maria


"coxinhaço" em Porto Alegre critica protestos contra Dilma


22 de março de 2015

A Filosofia e o Cuidado da Vida

Por: EDINEI M. GRISON.

A relação do ser humano com o conhecimento desperta inúmeras tomadas de posição. Ora pela racionalidade (instrumental, dominadora, colonizadora...), ora pelos sentidos (a empiria, experiência), gerando relações opostas de poder no mar de possibilidades do conhecer.
Arcângelo Buzzi com a obra: A filosofia e o cuidado da vida, publicada pela Editora Vozes no ano de 2014, sugere que a filosofia pode promover o cuidado da vida, reconduzindo o ser humano a uma relação direta com as coisas. Ou seja, “a experiência prática será sempre mais importante do que a teorização abstrata”.
Sugere o autor que o cuidado deve promover a tarefa de não desviar a vida de sua intencionalidade mais importante: sair e ir ao mundo ao encontro das coisas. O livro está organizado em dez seções que representam ensaios temáticos a partir de palavras chaves que se verticalizam sobre o cuidado da vida.
Desafie-se na arte de ler e interpretar!


Este livro da Livraria Vozes de Curitiba na rua Emiliano Perneta, 332.

15 de março de 2015

O que os jovens de hoje sabem sobre os jovens de ontem? 30 anos do fim da Ditadura Militar Brasileira

Por: Everton Marcos Grison

“o sistema esvazia nossa memória, ou enche a nossa memória de lixo, e assim              nos ensina a repetir a história em vez de fazê-la. As tragédias se repetem como farsas, anunciava a célebre profecia. Mas entre nós, é pior: as tragédias se repetem como tragédias” (GALEANO, 2000, p. 121).


Imagem de Marighella assassinado pela Polícia sob o
comando do delegado Fleury. 
          
O caminho para cada jovem brasileiro atualmente não tem ligação alguma com pré destinação, aspectos religiosos ou de imposição parental. Tal como é definida a sabonete que cada um usa para se banhar, ou o creme dental que mata as bactérias bucais, a propaganda assume diretrizes que determinam a consciência dos indivíduos. Tudo o que cada um entende por legal, alguém já o pensou anteriormente, defini-o com bastante precisão e pos para girar a roda da reprodutibilidade técnica, igualando a produção e escolha de ideias, a simples sabonetes que escoam com a água do banho pelo ralo. O que não se percebe é que juntamente com a água se vão as ideias, a autonomia, a personalidade e a vida. Todos cumprem uma mera função decorativa, de fantoches sem função específica no teatro da vida.

27 de janeiro de 2015

O EFÊMERO COMO MARCA DA EXISTÊNCIA


Por Wagner Rafael Rodrigues¹

            
 Nos dias atuais é nítida a sensação de extrema rapidez que circunda o cotidiano. O fenômeno da globalização favoreceu que o conhecimento se tornasse amplo graças aos avanços tecnológicos. No entanto, o ser humano transita na dicotomia entre o virtual e o real, perdendo a noção de espaço e tempo. Ora, cada vez mais as relações sociais são tidas como funções a serem cumpridas, assim como as máquinas. De fato, Wilhelm Schulz (1797-1860) no século XIX advertia: “Não se levou em conta ainda esta grande diferença: até que ponto os homens trabalham com máquinas, ou até que ponto eles trabalham como máquinas” (SCHULZ, 1843, s.d, p.69 apud MARX, 2010, p.32).
            Outro fator é a influência que a tecnologia exerceu na vivência humana, por exemplo: na linguagem, na distribuição do conhecimento, na política, na saúde, na alimentação, economia e até mesmo nos espaços sagrados que em seus ritos adotaram instrumentos tecnológicos para auxiliarem em seus cultos.

6 de janeiro de 2015

Compreender Hans Jonas

Por Oséias Marques Padilha


Compreender Hans Jonas é uma das obras mais recentes do Prof. Jelson Oliveira da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, lançado em 2014, acrescentando assim, à Coleção Compreender, da Editora Vozes, uma abordagem acerca da filosofia de um dos maiores pensadores da ética contemporânea, conforme destaca o autor.
O livro é constituído de 6 capítulos, sendo eles :  1) Hans Jonas, vida e obra; 2) O gnosticismo e o problema do dualismo; 3) Por uma ontologia da vida; 4) A questão da técnica; 5) A ética da responsabilidade; 6) Responsabilidade nos experimentemos com seres humanos;
O autor tem como objetivo buscar através da obra, respostas para as seguintes perguntas: “[...] Quem é Hans Jonas afinal”? Quais elementos dão unidade a seu pensamento? Qual é o itinerário que unifica e dá consistência a sua filosofia?”(OLIVEIRA, 2014, p.10)”.