6 de novembro de 2014

As Narrativas de A. Gordon Pym: entre as fronteiras da existência e os caprichos da fome

Por: Everton Marcos Grison

“...ao longo dos quatro dias 

para sempre memoráveis de 17, 18, 19 e 20 de junho”...


          As questões que dizem respeito à existência humana, sejam tratando sobre seu sentido ou real necessidade, inquietaram muitos indivíduos que diante da complexidade; EU EXISTO, pararam à presença de um real problema filosófico. Não são poucas as situações em que as pessoas precisam dar um significado a própria existência. Diante de situações catastróficas e limites, tal exigência torna-se muito asseverada. 

          O personagem de Edgar Allan Poe (1809-1849), chamado Arthur Gordon Pym, que se apresenta através de um relato de bordo, parte de sua autoria, parte de autoria de um senhor Poe; “... se verá o quanto do relato que segue é de meu próprio punho, e se compreenderá também que nenhum fato foi mascarado nas primeiras paginas escritas pelo Sr. Poe”. (p.17), depara-se com dilemas existenciais no barco em que viaja escondido, ajudado pelo amigo e filho do comandante da embarcação Augustus.

          Fiódor Dostoiévski (1821-1881) importante expoente da literatura russa, escreve o prefácio de; A Narrativa de Arthur Gordon Pym, livro que conta as peripécias de Arthur. Para o escritor russo, ao se referir a Poe; 


Seria antes o caso de chamar Edgar Poe não de escritor fantástico, mas de caprichoso. E que caprichos mais estranhos, que coragem nesses caprichos. Quase sempre toma a realidade mais extraordinária, põe seu herói na mais extraordinária situação externa e psicológica, e com que perspicácia, com que precisão surpreendente ele relata o estado de alma dessa pessoa. (p.08). 


          Poe é o autor dos detalhes, nos quais a força inventiva da imaginação eleva-se a patamares dos mais consagrados. Poe é um compositor de estranhezas, de obras que refletem em muito, as misérias sofridas pelo próprio autor. Como bem identifica Charles Baudelaire; 


Por algum tempo a miséria fez dele um soldado e é presumível que se serviu da ociosidade sórdida da vida de caserna para preparar os elementos de suas futuras composições; composições estranhas que parecem ter sido criadas para nos demonstrar que a estranheza é uma das partes integrantes do belo. (p. 278)[1]


          Especialmente em Arthur Gordon Pym, obra considerada como introdução e suma criativa do autor, a estranheza do delírio gerado pela fome é associada ao desvanecimento da existência. A fome coloca o humano diante da incerteza caustica da continuidade da vida, além de lhe pintar no rosto a inscrição de sofrimento. A consciência da fome é o delírio de muitos. 


Achava-me agora, por assim dizer, sozinho no brigue, e minhas reflexões, decerto, eram da mais terrível e sombria natureza. Nenhuma perspectiva oferecia-se à minha vista senão definhar de fome, ou, no melhor dos casos, ser engolido pela primeira tempestade que se erguesse, pois em nosso presente estado de exaustão não podíamos acalentar a esperança de sobreviver a outra. A fome dilacerante que experimentava então era quase insuportável, e me senti capaz de ir às últimas consequências para aplacá-la. Com meu canivete, cortei um pequeno pedaço da mala de couro, e esforcei-me por comê-lo, mas foi absolutamente impossível engolir um único bocado, embora me parecesse que, ao mascar e cuspir o couro em pequenos fragmentos, eu obtinha um ligeiro alívio de meus sofrimentos. (p.130). 


          O delírio físico e mental de consumir algo, a necessidade direta da ingestão conduz o ser humano às fronteiras da existência. Quanto de agonia suporta um indivíduo? Qual o limite da tortura estomacal, que nos conduz a morder as pontas dos próprios dedos? Qual é o tamanho da paciência? Qual a abrangência da esperança de resgate? Quem possui colhões para suportar o convite de uma mala de couro, um sapato largado, a suculência da própria coxa? 

          Não se trata de falar dos limites ou tentar mensurar o quanto de fome cada um suporta, mas, que isso nos coloca diante de uma questão essencial e não resolvida: quem somos? Quem somos nós, estes seres asseados, belos diante de um rótulo, bobos a frente de uma pequenez, fracos na presença de uma formiga e facilmente moldáveis como o aço? A quem existimos, para quem e como conduzimos nossas estranhezas diárias? Quem somos nós, seres racionais, educados, esclarecidos, desanuviados no interior da caixa da existência? A existência grita e arromba a tampa de sua clausura para nos esmurrar a cara, vociferando sem piedade: 


Tudo que vejo
São pisos frios de cerâmica
E sobre eles
Carros parados
Sempre reluzentes
Mais vivos que os próprios donos. (SANDRINI, 2014, p.07)


          É o Outro, este acontecimento que planta o palanque, para fixar a cerca do nosso limite, da abrangência existencial de cada um, do horizonte maltratado da vida exposta. É quando somos expostos ao Outro, obrigados a levantar a cabeça e reconhecer além de nossas existências, que percebemos a necessidade dele para inclusive, dar continuidade a nossa vida; 


Tornando um pouco à calma, continuamos a observar o navio, até que afinal o perdemos de vista, enevoando-se o tempo com uma ligeira brisa que se erguia. Assim que ele se foi por inteiro, Parker virou-se para mim com uma expressão no rosto que me fez gelar. Tinha um ar de serenidade que não notara nele até então, e, antes que ele abrisse os lábios, meu coração me disse o que ele iria dizer. Propôs, em poucas palavras, que um de nós fosse sacrificado para preservar a existência dos outros. (p.135). 


          Neutralizar a consciência para aceitar que a única alternativa restante era o sacrifício de alguém? Este é o caminho, ou aguardar a boa vontade da esperança, atolada de preguiça no interior da Caixa de Pandora? Os náufragos decidiram de uma forma banal, expondo todos a igualdade aterrorizante, com a plena certeza de poder morrer, e um fio de possibilidade de continuar existindo. A morte eminente e a vida desvanecia a frieza do fim, abocanhando a dentadas firmes o músculo que contraia e descontraia. Entre o viver e o morrer, foi um palito, o juiz desse processo: 


Voltei a mim a tempo de assistir ao desenlace da tragédia, a morte daquele que fora seu principal instrumento. Não opôs resistência alguma e foi apunhalado nas costas por Peters, caindo morto instantaneamente. Não me alongarei no terrível festim que imediatamente se seguiu. Tais coisas podem ser imaginadas, mas as palavras não tem o poder de impressionar o espírito com o requintado horror de sua realidade. Baste dizer que, tendo em alguma medida aplacado no sangue da vítima a sede ardente que nos consumia, e tendo por comum acordo decepado as mãos, os pés e a cabeça, lançando-os ao mar junto com as entranhas, devoramos o resto do corpo pedaço a pedaço, ao longo dos quatro dias para sempre memoráveis de 17, 18, 19 e 20 de junho. (p.242). 


Referências

BAUDELAIRE, Charles. Edgar Poe, sua vida e suas obras. In: POE, Edgar Allan. A narrativa de A. Gordon Pym. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. 2ª ed. São Paulo: Cosac Naify, 2010. (Coleção Prosa do Mundo)

DOSTOIEVSKi, Fiódor. Prefácio a Poe. In: POE, Edgar Allan. A narrativa de A. Gordon Pym. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. 2ª ed. São Paulo: Cosac Naify, 2010. (Coleção Prosa do Mundo)

POE, Edgar Allan. A narrativa de A. Gordon Pym. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. 2ª ed. São Paulo: Cosac Naify, 2010. (Coleção Prosa do Mundo)

__________. Poemas e ensaios. Tradução de Oscar Mendes e Milton Amado. 4ª ed revista. São Paulo: Globo, 2009. (Coleção Clássicos Globo)

SANDRINI, Paulo. Exposição das Tripas. Ilustrações de Danilo Oliveira e Fabiano Vianna, fotos de Diego Singh. Curitiba; Kafka Edições, 2014. 


Notas: 

[1] Este excerto foi retirado de um texto de Charles Baudelaire intitulado: Edgar Poe, sua vida e suas obras, que figura como apêndice na tradução brasileira publicada pela editora Cosac Naify de: A Narrativa de Arthur Gordon Pym.

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