24 de setembro de 2014

Exposição das Tripas – Paulo Sandrini

Por: Everton Marcos Grison





O livro com o dorso ladeado por parafusos

          Escrever é ato de esquizofrenia, é incomodo constante, muito além da religião e da atualidade reduzida aos 140 caracteres. Sobrará espaço para a poesia após a passagem meteórica do twitter pela vida das pessoas? E a literatura? E a experimentação, aquele processo precedido de uma eloquente intenção que busca pulverizar o mundo com a pólvora da provocação? A sabedoria vai muito além dos 140 caracteres, aliás, ela é anterior. O sapere é perene, o twitter sobrevive do agora. Cada vez mais o diagnóstico de que tudo está acabado dá uma piscadela, mas, restam processos de abstração, entendida não como elucubração, ao contrário, como recorte único e potencializado e por assim ser, levando consigo o nome de exposição.

          Depois de Auschwitz para Theodor Adorno, não seria mais possível a poesia. Tudo que fosse produzido carregaria o peso da perversidade humana. E a perversidade ganhou requintes de cientificidade: o gás que matava judeus, o Ziklon B, hoje mata mosquitos e guarda o sono tranquilo das nossas crianças. O veneno virou remédio. O diabo virou santo. As tripas tornaram-se meia calça de grife. Exorcizando o próprio eu coletivo, sobra reconhecermos que 

Somos dejetos 
Objetos de consumo  
Descartáveis  
Somos  
Óbvios 
Somos  
Insetos  
Numa selva caótica 
De concreto... (p.08-09)

           Este dedo em riste é de Paulo Sandrini ou de seu texto? Não seria o texto que lhe tomou a mão, e alterando a máxima de Agostinho Tole et Legere (Toma e lê), ordenou de modo imperativo: Tole et Scribit (Toma e escreve)? Sandrini, figura dos paralelepípedos curitibanos, cria das traças e de Manoel Carlos Karam, Jamil Snege e Valêncio Xavier, autor de vários livros, entre eles: O Estranho Hábito de Dormir em Pé [2003]; Códice d’incríveis Objetos e Histórias de Lebensraum [2005]; Osculum Obscenum [2008] e o Rei era Assim [2011]. Autor premiado no Brasil, designer gráfico, mestre e doutor em estudos literários pela UFPR, é quem materializou o texto em palavras no incrível Exposição das Tripas, publicado pela Kafka Edições. 

          O livro é difícil de ser classificado e que bom que se fez assim. É uma junção muito acertada de prosa e poesia, de qualidade que beira a citação. Este livro é para ser engolido, fazendo um paralelo com o primeiro livro do autor; Vai ter que engolir [2001]. O texto tem suas exigências, na esteira do que pensava Karl Kraus; “Meus trabalhos devem ser lidos duas vezes para serem bem compreendidos. Mas tampouco me oponho a que sejam lidos três vezes. Prefiro, porém, que não sejam lidos do que o sejam apenas uma vez. Não pretendo me responsabilizar pelas congestões de um imbecil que não tem tempo”. 

          Poderia se chamar Dorso Ladeado por Parafusos, pois por um lado faria uma homenagem ao grande Karam, autor de Pescoço Ladeado por Parafusos [2001], além do fato que o livro de veras possui dois parafusos no dorso, que podem ser desatarraxados, permitindo ao leitor a reorganização das páginas. Para o autor um livro despretensioso, com capa e dorso, ambos vazios de informações, com o título a amarrar-se com o nome do autor na contracapa. Ao leitor, taxinhas para pregá-lo na sua cadeira confortável da futilidade cotidiana; 

Entre nós mesmos
Somos puros arremedos do humano
E trazemos sempre nas mãos
Nossos dedos ásperos
Para apontarmos na direção do outro
E designá-lo como o grande culpado (p.24)

          Além de um texto pulsante, violento e verdadeiro, o livro traz belíssimas ilustrações de Danilo Oliveira e Fabiano Vianna, assinando as fotos Diego Singh, e um texto (posfácio?) de Ricardo Corona, dando a agulhada final na costura das tripas. Não é só um livro, muito menos mais um livro. É texto, poesia, imagem, vida incompleta e vibrante. É um grito em direção da capacidade de sermos humanos, menos tradicionais e arcaicos, para lembrar Raduan Nassar e sua Lavoura Arcaica [1975]. É uma exposição das tripas sociais, políticas, mas sem cair em panfletarismo. O texto que não possui nenhum compromisso social e político tem tanta importância quanto uma flatulência. O livro é um ato revolucionário de si, para si e para os outros. Aos que quiserem, cuidado, pois a Exposição das Tripas os transformará em outros. De herança ficam os respingos de humanidade, algo que temos deixado para o intestino pensar.

Book trailer do livro:

Nenhum comentário :