21 de setembro de 2014

A filosofia e seus incômodos: o problema da escolha de um livro didático

Por: Jonas J. Berra

    A cada três anos os professores das escolas estaduais do Paraná precisam escolher o livro didático que deverá ser utilizado como material pedagógico. Para isso, os professores de cada disciplina se reúnem e discutem as vantagens e desvantagens de cada livro. Antes disso, os exemplares de novas edições de cada disciplina são encaminhados previamente às escolas pelas editoras para que sejam analisados pelos professores. São os chamados materiais de divulgação. Nem todos os livros publicados pelas editoras chegam às mãos dos professores, apenas os que recebem a aprovação da Seed (Secretaria estadual de educação).



    Uma questão bastante confusa é o porquê muitos livros interessantes e pedagogicamente bons são deixados de lado, enquanto que outros são “renovados” e republicados todo ano. E isso acontece quase sempre com os livros dos mesmos autores, ainda que estejam cheios de deficiências metodológicas do ponto de vista do ensino de filosofia e do filosofar. Claro que aceitar essa crítica depende da visão e formação daquele que analisa o material. Um livro que para um professor parece conter graves deficiências metodológicas, para outro, pode parecer quase perfeito. Quem sabe isso ocorra por conta de uma base formativa diferente, ora mais tradicional, ora mais inovadora. Mas não há como não perceber que quando tratamos de materiais didáticos de filosofia existe o tal paradoxo entre ensinar o conteúdo histórico e ensinar a raciocinar de uma forma filosófica[1]. Um paradoxo pouco ou nada representativo em outras disciplinas.


    O paradoxo do ensino de filosofia relacionado a materiais didáticos fica mais fácil de ser entendido quando discutimos dois exemplos de livros famosos no Brasil: Filosofando[2] e Iniciação à Filosofia[3]. O primeiro escrito pelas “Marias” (Maria de Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins) e o segundo por Marilena Chauí, cujo nome foi colocado na lombada, para lembrar a todos de que se trata de uma grande pesquisadora (e não é irônica essa afirmação, já que ela é reconhecida nacional e internacionalmente como uma das poucas filósofas brasileiras). Se partirmos de uma análise da realidade atual das escolas públicas e de um projeto nacional de ênfase à atividade do FILOSOFAR, vamos ter que levar à sério quando algum professor disser que ambos os livros (Filosofando e Iniciação à Filosofia) são demasiadamente conteudistas. Entende-se por conteudista um material que carrega uma quantidade enorme de informações e, nesse sentido, em nada inova contra o método tradicional de ensino, em que o professor está mais preocupado em ensinar os conteúdos da filosofia (pensamentos, ideias, reflexões feitas pelos filósofos através dos tempos) do que o filosofar (no sentido de ajudar o estudante a pensar por conta própria). Na sua aparência, ambos os livros tentam transmitir a sensação de que fazem isso, mas se analisados com mais paciência, identificam-se alguns aspectos incômodos para ambos estarem sendo utilizados no ensino médio REAL[4] do Brasil. Se há uma necessidade histórica de nos servirmos da filosofia, não para construirmos cidadãos que meramente adquirem conteúdos, mas que efetivamente usem o pensamento reflexivo, ambos os livros vão na contramão disso. Dentre os aspectos a serem mencionados, cabe ressaltar que:

- o modelo de livro em questão é mais uma enciclopédia[5] do que um material pedagógico a ser utilizado em salas de aulas REAIS das escolas públicas;
- a fonte utilizada nesses livros é demasiadamente pequena, dificultando a leitura e levando os estudante ao cansaço;
- torna muitos professores presos a uma zona de conforto, em que utilizam apenas os livros didáticos durante todas as aulas e os seguem como verdadeiras “bíblias” de maneira contínua e irrefletida apenas para “dar conta do conteúdo” e ensinar exclusivamente as “verdades” milenares dos grandes filósofos. Nesse caso, o ensino de filosofia não deixa de ser doutrinário, promovendo o ódio à disciplina e o descrédito para questões filosóficas da atualidade;
- por serem livros com muita teoria, tanto Filosofando como Iniciação à Filosofia são muito pesados (em números de páginas) para o estudante querer transportá-lo em sua mochila, o obrigando a optar preferencialmente pelos livros de outras disciplinas (consideradas muitas vezes “mais importantes”) para serem levados naquele dia à escola;
- enfim, que a linguagem utilizada nem sempre facilita a compreensão dos textos, já que o academicismo dos autores-doutores parece não ter sido superado a fim de adequar-se ao contexto social e cultural dos estudantes.

    Evidentemente que esses pontos fazem parte de uma das formas de se discutir o problema, mas nenhum professor de filosofia deveria analisar os muitos livros que lhe são entregues como opção de material didático sem se colocar seriamente diante deles.
    Uma explicação que podemos fornecer para o sucesso dos livros citados não parece estar na qualidade do material (que não é ruim[6]), nem na formação acadêmica dos autores (que é até invejável), mas no medo que muitos professores têm do erro. É exatamente aí que a maioria acaba falhando, justamente por se fixarem tanto no livro didático pela sua fama, que não conseguem ver outras possibilidades e, assim, estarem dispostos a escolher algo diferente do habitual.
    Outro aspecto interessante é que a mera tentativa de inovar - daqueles que são declaradamente contra os livros didáticos apresentados - apenas pela tentativa em si, também não significa a obtenção de sucesso na sua prática de ensino. Se o professor opta por uma metodologia de ensino autêntica, precisa ter a coragem de enfrentar os erros, buscando melhorar cada vez mais. Os erros fazem parte do dia a dia de quem ensina e aprende. Mas aqueles que inovam são os que mais conseguem sentir na pele a experiência de acertar e errar e podem ter condições de optar pelos acertos.
     Chegamos, assim, ao ponto fundamental dessa reflexão: a contínua repetição da tradição como ela nos foi imposta é um dos bloqueios da experiência do filosofar em sala de aula. Para desviar-se desse bloqueio, o professor deve servir-se de um pouco de anarquismo metodológico[7], para, quem sabe, conseguir chegar mais perto de levar seus estudantes a uma experiência autenticamente filosófica. Nesse sentido, ao invés da mera utilização contínua e irrefletida dos livros Filosofando e Iniciação à Filosofia, a aula criada pelo professor que conhece a sua realidade escolar, é muito mais interessante e vantajosa, ainda que muito mais incômoda e desafiadora. Mas quem disse que não vale a pena?

Notas: 

[1] Sabe-se que a filosofia enquanto disciplina passa por um processo de consolidação como disciplina escolar. Ela ainda não é reconhecida como “útil” e “necessária” nas escolas. Uma das razões disso está nos mais de 30 anos de apagão gerados pela ditadura militar e pela falta de compromisso educacional dos governantes que vieram depois. Esse fator é, sem dúvida, determinante na produção e na escolha dos livros didáticos, sendo um assunto importante para ser discutido.

[2] ARANHA, Maria Lúcia. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1993. A quinta edição é de 2013.

[3] CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, 10ª. Ed., Ática, 1998. A segunda edição é de 2013 e já teve uma reimpressão.

[4] Uso o termo real em contraposição ao termo utópico. Em muitos livros de pedagogia e mesmo de filosofia, o ensino é apresentado como algo lindo, até demais, onde existe uma ordem, onde as metas são atingidas e os alunos ensinam e aprendem. Na realidade concreta esse mundo utópico desaparece e resta muito pouco do que chamamos de aprendizado. Assim, a mera entrega de quantidades exorbitantes de conteúdos para os alunos se constitui num profundo engano da utopia daqueles que vivem na fantasia. Fingem que ensinam, enquanto os alunos fingem que aprendem.

[5] Que lembra muito o modelo enciclopédico iluminista do século XVI. Será que precisamos realmente reproduzir o modelo antigo? Qual a dificuldade de se criar um modelo de livro didático mais atrativo e compromissado com as questões atuais?

[6] No livro da Chauí inexistiam imagens, até serem acrescentadas mais na última edição. Mas continua sendo textual e cansativo. Pode servir como fonte de pesquisa, mas como material didático para as escolas públicas fica difícil. A Chauí demostra se esforçar, mas não deixou de ser a professora da universidade pensando pelo ensino médio, ou seja, o pensamento vem de cima para baixo como uma imposição. Sem dúvida alguma, que o pensamento deve ser produzido a partir da realidade em questão, como algumas ideias de Paulo Freire nos ensinam, e não simplesmente pegar o que cai de cima da pirâmide como tem sido feito.

[7] Entende-se que um pouco de anarquismo metodológico é saudável à medida que o professor com sua experiência de vida e de estudos mais vasta que o aluno é capaz de utilizar-se de situações de improviso para levar seus alunos a um conhecimento novo. Não é fazer qualquer coisa, nem sequer deixar de planejar as aulas, mas aproveitar mais profundamente os momentos em que se percebe o interesse coletivo da turma em um determinado assunto.

Referências:

PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Diretrizes Curriculares da Educação Básica. Curitiba: Seed/DEB-PR, 2008. Disponível em: . Acesso em 27 agosto 2014.

PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Caderno de Expectativas de Aprendizagem (Departamento de Educação Básica). 2012. Disponível em: . Acesso em 29 agosto 2014.

Vários autores. Estudo sobre o processo de escolha de livros didáticos organizado em escolas de educação básica. IX ANPED SUL. 2012. Disponível em: . Acesso em 02 setembro 2014. 

6 comentários :

Reginaldo Polesi disse...

Penso que poderíamos continuar sim usando o livro didático gratuito, mas não do jeito que está.
Primeira mudança: o livro deve durar 3 anos.
1- No inicio do ano entregasse para o aluno e no final ele devolve para a escola. Se perder ou danificar terá que pagar por isso. Se não tiver dinheiro, terá que realizar alguma forma de compensação pelo uso inadequado;
2 - a mesma coleção deverá ser usada no ciclo inteiro e não ser trocada no meio do ciclo, ou seja, o aluno vai usar a mesma coleção do 6º ao 9º ano do fundamental e do 1º ao 3º ano do médio.
3 - as novas coleções serão SEMPRE para o 6º ano do fundamental e para o 1º do médio, pois o 7º e o 2º vai continuar com a coleção do ano anterior
4 - sepaar o livro em "conteúdo" e "atividade". O livro de "conteúdo" deve durar os 3 anos e por isso com papel de maior qualidade. Já o livro de "atividade" é individual, este fica com o aluno e por isso com papel reciclado e impressão mais simples.

Ou essa proposta ou alguma outra que reduza os gastos desnecessários com os livros didáticos onde vemos que todos os anos as escolas jogam TONELADAS de livros no lixo.

Prof. Jonas J. Berra disse...

Ótimas ideias Reginaldo. Concordo com todas ao mesmo tempo que imagino como é difícil aplicá-las. Existe uma má vontade política que impede que seja do jeito que você está sugerindo. Além disso, as editoras estão lucrando bastante com o atual sistema. É lamentável que o aluno leve para casa o livro de filosofia e nunca devolva à escola para ser usado no ano seguinte. Achei bem interessante essa ideias de separar o livro em conteúdo e atividade. Obrigado pela sua contribuição para esta discussão.

Reginaldo Polesi disse...

a aplicação completa dessa ideia, reduziria no mínimo a 50% os gastos com liros, sem que o aluno fosse prejudicado EM NADA.
Mas certamente que as editoras não iriam concordar em reduzir em 50% as vendas que fazem hoje.
Isso supondo uma política sem desvio de verba ou superfaturamento, somente os gastos com a compra.

Everton Marcos Grison disse...

Interessante Ideia Reginaldo. O livro de atividades poderia inclusive ser como uma apostila ou até online. As atividades poderiam ficar disponíveis em ebooks nos sites dos núcleos de educação, em abas específicas de cada disciplina. Isso tornaria o processo mais interativo e utilizaria a internet como recurso. Inicialmente não seria uma aceitação fácil, pois desconhecemos as possibilidades da rede, ainda temos a mentalidade estupidificada de que internet é sinônimo de rede social. Entretanto, depois da criação da mentalidade que utiliza a internet como recurso didático, a coisa funcionaria de modo bastante positivo. Aos que ainda não possuem acesso a internet em suas casas, facilmente resolveriam o problema utilizando o laboratório de informática, e no caso de Curitiba os faróis do saber, para acesso e resolução as atividades. O professor inclusive poderia receber estas atividades resolvidas via sistema (que não é difícil de ser implantado, falta VONTADE governamental) e determinaria as que deveriam ser feitas de modo manuscrito e entregues em mãos.

Reginaldo Polesi disse...

Everton,
veja o projeto que apresentei:
http://gepoteriko.pbworks.com/w/page/76944890/TCC%20-%20COMPLEMENTAÇÃO%20DE%20AULA%20PRESENCIAL%20ATRAVÉS%20DO%20MOODLE

Onde é exatamente isso que mencionou. Fiz isso com os alunos em meu site. usei o Moodle para eles postarem as atividades.
Isso juntamente com o cnceito de WEBQUEST resolveria o problema inclusive do livro didático.

RESUMINDO:
no lugar de livro didático impresso, WEBQUEST, no lugar de "caderno de atividade", site como o Moodle para os alunos realizarem as atividades.
Pense na vantagem economica, ecologica e logística que isso teria.
Mas isso é praticamente inviável, pois as editoras deixariam de ganhar milhões na impressão dos livros.

Everton Marcos Grison disse...

Sim Reginaldo. Muito interessante a sua proposta. Tens total razão. Com certeza a extinção do livro de chamada, que por sinal é inútil em todos os sentidos e traz dor de cabeça a muitos professores, se tornaria uma realidade. O Estado precisa andar alguns passos e viabilizar um pouco a estrutura de ensino. Chega de engordar as traças nos depósitos dos colégios.

Quanto aos livros didáticos há um grande esquema montado que envolve editoras e diretores, para que o livro de tal editora e tal autor seja escolhido. Para tanto, o diretor recebe um carro zero e o professore bonificações financeiras. E a qualidade? A viabilidade? O conteúdo do livro? Os alunos neste embaraço? Bom, quando a lógica econômica determina processos educacionais, a catástrofe é o resultado mais brando.