1 de setembro de 2014

A Cegueira nossa de cada dia: sobre a terceirização das relações humanas

Por: Everton Marcos Grison

“É regra invariável do poder que, às cabeças
o melhor será cortá-las antes que comecem a pensar, 
depois pode ser demasiado tarde[1]”.


          José Saramago (1922-2010), grande escritor português, prêmio Nobel de literatura em 1998, deixou para a humanidade um legado literário marcado pela distopia e a provocação. Dentre suas obras, o Ensaio sobre a Cegueira[2] (1995) destaca-se, pois descreve um processo de cegueira que vai acometendo os habitantes de uma cidade. Os cegos são colocados em um manicômio desativado e ali têm que viver e organizar seu espaço e suas relações da maneira que for possível. O quadro que se desenvolve é uma completa calamidade, de rebaixamento do humano à sua partícula mais perversa e maldosa: todos cegos de si e dos outros. O livro é dilacerante. A cegueira escrita por Saramago é uma resposta para uma pergunta não feita, mas uma provocação necessária: qual é a cegueira nossa de cada dia?
          Nos últimos cinquenta anos foram produzidos uma infinidade de novos objetos, novas tecnologias, propagandeadas como respostas para os problemas não resolvidos. Entretanto, parece haver um equívoco nesse intuito: foram construídas muitas respostas sem sabermos a quais perguntas estas coisas pretendiam satisfazer. Muitas das últimas criações beberam do chá forte da cegueira e produziram mais cegueira em quem bebeu dessa xícara. A peça que representa nossa relação com a tecnologia e as diversas mídias nos impõem questões antigas: quem somos nós? Para quê tudo isso? Até que ponto estamos melhorando com as novas tecnologias? As respostas já estão dadas. 

          Fernando Pessoa (1888-1935), poeta e heterônomo no mais alto grau que possa significar esta palavra, pensava que nossa grandeza está no olhar. 

Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver[3].

Fonte:Clube de Leitores
          Diariamente sentimos vergonha e não temos coragem de olhar nos olhos dos outros. Pode haver pior covardia do que acovardar-se de si mesmo? Tanto a prece, como a arte e a ciência são fagulhas derivadas da mesma fogueira. Em comum está o desejo incontido de se sair das profundezas do eu, para transcender a própria existência, tendo como porto de chegada algo outro. Entretanto, este outro se revela o próprio eu de saída, pois no fundo desse processo dialético, há um interesse de mendicância de si para si. O resultado é o nosso próprio rosto de mãos atadas com a nossa vontade, ambos imersos na cegueira cotidiana do bastar-se. Renato Russo já dizia e hoje ainda faz muito sentido: “O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / esperando por um pouco de atenção”[4]. 

          Com as novas criações, a internet com alta velocidade disponível em computadores, tablets e celulares, temos em mãos instrumentos que nos transportam para além do tempo e do espaço: podemos ser vistos e ouvidos na China, estando em Curitiba. Isso parece representar que a dinâmica da vida alterou-se; virtualmente, podemos estar em dois lugares ao mesmo tempo, sendo ouvidos e vistos. Por outro lado, as praças, locais de encontro e trocas, ambiente das relações humanas estão legadas à solidão. Seus bancos, antes usados para encontros dos mais variados, tornaram-se poleiros de pombos, e as pessoas estão confortáveis em suas casas trocando informações pela internet. 

           Criamos novos mitos e novas ilusões para continuarmos existindo. Mentimos diariamente para mantermos o fio da nossa existência conservado. “Ah, os sentidos, os doentes que veem e ouvem! / Fôssemos nós como deveríamos ser / E não haveria em nós necessidade de ilusão”...[5] Acreditamos piamente nas falsas conversas virtuais. Através da internet, do celular, não conversamos; apenas despejamos nossas informações nas máquinas, tanto quanto despejamos fezes e gases nos sanitários e, felizes, transferimos nossa responsabilidade de relacionamento para os aparelhos. Então, não existem conversas virtuais, mas, trocas de informações entre máquinas. Conversar é o mesmo que trocar e estar presente, tocar o outro com nossa fala e olhar, e também ser transpassado pelos olhos e a voz do outro. Por sermos covardes, terceirizamos as relações humanas para as máquinas e vivemos felizes nossas existências, baseadas nos toques de tela. Nunca na história humana desgastamos tanto nossos dedos polegares e indicadores. 

          Estamos terceirizando nossas relações pessoais para os objetos tecnológicos. Não são poucas as pessoas que têm sua existência reduzida ao celular. Atacamos diariamente nossa inteligência impondo ao cérebro uma utilização que se restringe a 140 caracteres[6]. Somos reféns do curtir e do compartilhar. Quem não ficou depressivo quando ninguém curtiu ou compartilhou suas opiniões, indicações, ideias e até futilidades? Essas constatações mostram a necessidade de perguntas, pois tudo isso são respostas dadas pelo ser humano das múltiplas inteligências. De tantas inteligências, tornou-se um idiota. Entre estas perguntas estão: pra que serve o curtir? Qual a função do compartilhar? O que nos faz curtir ou compartilhar algo? Quais nossas intenções no ambiente virtual? Quem somos nós? Para que e para quem estamos ali? Não estamos vivendo um sonho ilusório de felicidade, realização e sucesso, mascarado num sorriso? Por que transformamos o ambiente virtual de plena felicidade? Estamos construindo um mundo paralelo, pois o real e material já está perdido? Não somos nós os insuportáveis de si mesmos? Qual é a cegueira nossa de cada dia? 

          A internet, sem dúvidas, é um espaço de polarização de opiniões. É um campo aberto de manifestações, de protestos, já que reclamar é a nova moda do verão. A partir disso, surgem constantemente páginas, blogs, aplicativos que buscam propiciar condições e fornecer espaço para que todos possam falar. Entre estas novas criações, o aplicativo SECRET, criado nos Estados Unidos no início do ano e que despontou no Brasil em maio, tem causado polêmica. Originalmente criado para ser um local de desabafo, supostamente secreto, em que a pessoa não revela quem é e fala o que quer. A polêmica está no fato de que muitos se utilizaram do aplicativo para difamarem, caluniarem e exporem outras pessoas ao ridículo[7]. O aplicativo virou febre entre os estudantes do ensino médio (15-17 anos). Muitos se utilizaram do espaço para difamarem e exporem colegas e professores, marcarem brigas[8] além de fazerem montagens com fotos, buscando denegrir a imagem das pessoas[9]

          Este aplicativo, que não é o único, vende a propaganda de anonimato. O que as pessoas mais querem é não serem descobertas. Por outro lado, se não vistas e reconhecidas no ambiente virtual, apelam para o ridículo se necessário. Tais ferramentas demonstram o descontrole e a falta de prudência com nossas próprias criações. A virtualidade tem mostrado algo bastante curioso e perigoso; a falta de perenidade. A lei do aqui e agora com máximo de prazer possível é regra bastante generalizada, mesmo que a sustentação do nosso riso seja a desgraça do outro. Que tipo de história estamos construindo? Esperamos chegar a algum lugar? Nós somos realmente importantes para as gerações vindouras? 

          A desgraça da prudência é a falta de parar, pensar e agir. A cultura puramente do agora, dos 140 caracteres, produz para o momento, mas a humanidade também é do antes e do depois. Teremos depois? Quem sabe um pouco de virtude, ou seja, um pouco de equilíbrio no que fazemos diariamente possa ajudar a minimizar nossa catarata. O difícil é encontrar o equilíbrio, a justa medida; “... virtude diz respeito às paixões e ações em que o excesso é uma forma de erro, assim como a carência, ao passo que o meio-termo é uma forma de acerto digna de louvor[10]”. 

          Não é claro até que ponto estamos dispostos a reconhecer que vivemos uma cegueira diária, iludidos na nossa potencialidade de agir, que se reduz a toques de tela e curtidas de inexistência. Quem sabe o equilíbrio esteja no reconhecimento que estamos cegos de nós e dos outros. O reconhecimento da desorientação pode ser a mola propulsora para percebermos que nós podemos ir muito além dos 140 caracteres. 



Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Coleção Os Pensadores). 

CANDIOTTO, Cesar. Ética: definições, modelos e perspectivas, p. 9-24. In: CANDIOTTO, Cesar (org.). Ética e abordagens e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2010. (Coleção Didática; 1). 

MEIRELLES, Fernando. Ensaio sobre a Cegueira. Brasil/Canadá/Japão: 121 min, 2008. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=3FOMTO8axVM (Acesso em 18/08/2014 as 14:52). 

PESSOA, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro. São Paulo: Martin Claret, 2006. (Coleção Obra Prima de cada Autor). 

RAMOS, Cesar Augusto. Ética e Política em Aristóteles, p. 27-48. In: CANDIOTTO, Cesar (org.). Ética e abordagens e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2010. (Coleção Didática; 1). 

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das letras, 2010. 

__________. Ensaio sobre a Lucidez. São Paulo: Mediafashion, 2012. (Coleção Folha. Literatura ibero-americana: v. 7). 

*Notas: 

[1] SARAMAGO, 2012, p. 130. 

[2] Em 2008, o livro recebeu adaptação cinematográfica, com direção do brasileiro Fernando Meirelles. O filme encontra-se disponível no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=3FOMTO8axVM (Acesso em 18/08/2014 as 14:52). 

[3] PESSOA, 2006, p. 42. 

[4] Música Esperando por mim, do disco A Tempestade (1996). 

[5] PESSOA, 2006, p. 81. 

[6] Referência ao Twitter que permite o espaço para mensagens de apenas 140 caracteres. 




[10] ARISTÓTELES, 1973, p. 273.

Um comentário :

oseias Maques Padilha disse...

Após ler o texto lembrei do texto de Heidegger sobre a questão da técnica. O curioso é que naquela época ainda não se imaginava a proporção que a tecnologia tomaria no cotidiano das pessoas. Heidegger nos advertiu com relação a falta de serenidade. Devido a esta carência, como você mesmo disse ainda que em outras palavras, nos tornamos escravos das máquinas.