21 de agosto de 2014

"Epistemologia" de Richard Fumerton - Ed. Vozes

Por: Jonas J. Berra

Às vezes algumas áreas da filosofia sofrem um pouco com o preconceito. Aquele em que se considera uma área menos importante ou menos relevante do que outra. Para quem não tem preconceitos em filosofia isso não vem ao caso. Mas o estudante pode partir da ideia de que a ética, por exemplo, é mais importante que a estética, ou que a política é mais útil que a ciência. E nisso consiste o preconceito mencionado. Quando, antes de se avaliar bem o assunto em questão, o estudante já o desqualifica sem conhecê-lo direito.


Para não termos preconceitos em filosofia devemos sempre tentar analisar bem o assunto em questão e abrir mão de nossas ideias pré-fabricadas, que poderiam bloquear a nossa capacidade de conhecer. Se deixamos de ler um livro apenas porque ele trabalha um tema que foge ao nosso interesse, então, afastamos a própria possibilidade de realmente saber se o tema em questão é ou não interessante ou importante. Em filosofia isso acontece muito com a epistemologia, que costuma ser conhecida como uma área hermética, que não trás tanta relevância quanto a ética e a política. Às vezes ela chega a receber as mesmas críticas que são deflagradas contra a filosofia em geral, ou seja, de que não tem utilidade prática, como se isso fosse uma de suas grandes falhas.

Mas conhecimento nem sempre precisa ser justificado pela sua utilidade do ponto de vista prático. E é por isso que não podemos levar à sério a frase de Marx: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; agora é preciso transformá-lo”. O pensamento filosófico como reflexão de tudo que existe e sobre tudo que é pensado é implicitamente transformador. Por isso, a frase de Heráclito ainda chama tanta atenção: "Ninguém entra no mesmo rio duas vezes". Sem dúvida, se algo muda em termos de pensamento, também, ainda que indiretamente, acaba por modificar a realidade prática à sua volta.

A partir dessa reflexão, propomos uma leitura bastante instigante: Epistemologia, de Richard Fumerton. Professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Iowa, EUA, Fumerton tem vários livros escritos na área. O autor mantém atualmente o foco na pesquisa sobre o papel da percepção na aquisição do conhecimento, do ceticismo na epistemologia, o debate entre internalismo e externalismo, assim como sobre as diferenças entre fundamentalismo, fenomenalismo, coerentismo e naturalismo.

Uma das vantagens da obra está em colocar os problemas epistemológicos também como problemas práticos. Em outras palavras, apresenta os problemas epistemológicos com exemplos reais do cotidiano das pessoas. Além do mais, por ter caráter introdutório, é um ótimo livro para quem não gosta de linguagens muito técnicas e rebuscadas. Veja, por exemplo, um pequeno trecho extraído do prefácio:

"Você está num júri. Sua tarefa é decidir se as provas mostram de fato que não pode haver dúvida racional de que Jones tenha matado sua esposa. Uma prova que você estará tentando a considerar de grande importância é que, na maioria dos casos, crimes dessa natureza são cometidos por pessoas muito próximas às vítimas. Mas, ao mesmo tempo, você não se sente muito bem por chegar a uma conclusão a respeito de uma pessoa específica, Jones, com base em provas desse tipo, meramente estatísticas."

Não é que dá vontade de ler cada vez mais? Quer dizer, apesar de ser um livro de epistemologia, que aparentemente dá a impressão de ser chato, ele está escrito de uma forma que chama a atenção para situações realmente significativas, das nossas vidas. É claro que, apesar disso, ele não deixa de ter cunho filosófico e crítico. Pelo contrário, parece ser uma tentativa bem sucedida de juntar o difícil da filosofia acadêmica, com o espantoso do cotidiano. 

Este livro da editora Vozes pode ser adquirido em Curitiba pelo Telefone (41) 32331392. 


Referências:

FUMERTON, Richard. Epistemologia. Tradução de Sofia Inês Albornoz Stein e Ramon Felipe Wagner. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

MARX, Karl. A ideologia alemã: 1. capítulo seguido das teses sobre Feuerbach. São Paulo: Moraes, 1984.

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