14 de agosto de 2014

Ainda nos cenários da Caverna

Por: Oséias Marques Padilha 

Fonte: Web
Diante do mar de sangue que estamos presenciando devido à guerra entre Israel e as facções palestinas, somos levados a fazer a seguinte pergunta: seria este século, o século do conhecimento ou da barbárie e da ignorância? Realmente, não estamos livres da Filosofia.
“As aparências enganam”, trata-se de um ditado popular, no qual encontramos implícito um antigo problema abordado pela filosofia que, no entanto, permanece latente na sociedade atual: o do contraste presente entre a realidade e a aparência.
Foi Platão (427 a.C. - 347 a.C.) quem ilustrou, de forma magistral, através do conhecido mito da caverna, como podemos construir um falso juízo em relação a um determinado fenômeno quando fazemos de nossos sentidos os mediadores do conhecimento. O mito é explanado no Livro VII da República, uma das obras mais importantes deste pensador, através de um diálogo entre Sócrates e Glauco:

Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoço, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça por causa dos grilhões; serve – lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe numa iminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há uma caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no gênero dos tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público para mostrarem as suas habilidades por cima deles.(PLATÃO, 2012, p.315)

O filósofo grego, ainda, continua dizendo que “ao longo deste muro, homens que transportam toda espécie de objetos que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados” (PLATÃO, 2012, p.315).
Fonte:Web
Assim, conforme narra Platão, os homens agrilhoados e inertes, ao olharem para as sombras dos objetos projetadas na parede à frente deles, as imaginariam como sendo a única realidade possível, e atribuiriam a elas a procedência dos sons emitidos pelos transeuntes que se movimentam por detrás do muro.
Mas e se um destes prisioneiros fosse liberto e tirado para fora da escuridão da caverna, conhecendo assim a luz do sol? Através deste diálogo, Platão afirma que se assim fosse,

Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar – se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando – lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora se mostravam? (PLATÃO, 2012, p.317)

O habitante da caverna, portanto, após seu êxodo, padeceria de inúmeros desconfortos até que seus olhos, habituados à escuridão, pudessem contemplar a luz do sol sem dificuldade e seu corpo, estático por tanto tempo, viesse superar as dores oriundas dos movimentos que agora fazia.
A caverna, para Platão, simboliza a ignorância: afirma posteriormente Willian Shakespeare, “não há trevas, senão na ignorância” ¹. Porém, já no início da construção desta alegoria, o filósofo mostra que a ignorância é resultado do grau de educação que recebemos ou não.
O interessante é que, para Platão, assim como os olhos podem ser inúteis para aqueles que não sabem direcionar o seu olhar, como no caso dos habitantes da caverna, o pensamento pode conduzir ao engano para quem não sabe pensar. “A faculdade de pensar é, ao que parece de um caráter mais divino, do que tudo mais; nunca perde a força e, conforme a volta que lhe derem, pode tornar-se vantajosa e útil, ou inútil e prejudicial.” (PLATÃO, 2012, p.321).
Exemplo disto é o fato de que no mito da caverna o personagem que a ela retorna, acaba sendo assassinado ao tentar alertar os outros habitantes acerca da ignorância em que viviam; tipifica Sócrates, condenado à morte em Atenas em razão de seus ensinamentos. Os que permaneceram na caverna são os sofistas. Ora mais não seriam os sofistas homens instruídos nas diversas áreas do conhecimento na antiga Grécia? Por que reduzi-los então aos ignorantes persistentes da caverna? Chegamos neste ponto à “docta ignorância” socrática “Só sei que nada sei”: estaria neste paradoxo o caminho para se tornar um homem sábio, admitindo que nada sabe.
Quando julgamos saber, permanecemos no terreno da superficialidade, ou como no caso dos moradores da caverna, nos tornamos cativos daquilo que é aparente. E, Como disse Guimarães Rosa ² "O animal satisfeito dorme", a conformidade e a adequação a realidade vigente nos conduz a um estado de letargia, e que muitas vezes, nem mesmo a dissonância de uma voz carregada de questionamentos é capaz de aplacar.
 Não teríamos nós construído a civilização baseados nas sombras do conhecimento? Pisamos na lua, enviamos robôs a Marte, mas a paz continua sendo terra de ninguém. Não estaríamos nós ainda com nossos pés plantados no solo úmido da caverna?
Por muito tempo perdurou a ideia de que uma imagem vale mais do que mil palavras; no entanto, a realidade nos faz ver o contrário, que uma palavra, pode valer mais do que mil imagens.
Um exemplo disto é GAZA, onde o sangue é o preço a se pagar em nome de uma tradição, quando uma "civilização" insiste em viver ainda nos cenários da caverna.




NOTAS

1. In SEITZ, 1980, p. 163.
2. In CORTELLA 2008, p. 11.



REFERÊNCIAS


CORTELLA, Mário Sérgio. Não Nascemos Prontos. Ed. Vozes. Petrópolis, 2008.


HAWKING, Stephen e MLODINOW, Leonard. Uma Nova História do Tempo. Trad. Vera Paula de Assis. Ed. Agir. Rio de Janeiro, 2012.

PLATÃO. A República.Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Ed. Calouste. Lisboa, 2012 

SEITZ, Bruno. Cinco Mil Ilustrações e Pensamentos. Ed. Pensamento. São Paulo, 1980.


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