26 de agosto de 2014

A ESTÉTICA DO CORPO: UMA FORMA PERFEITA OU SATISFATÓRIA DE SER¹?

Por:  Esthefany Lazzaretti[1]
Edinei M. Grison[2]
Lucélia Nardi dos Santos[3]



Fonte: hypeness
          É um tanto irônico, particularmente, estar escrevendo sobre culto ao corpo. Eu, que sou demasiadamente preocupada com a beleza, dietas, tratamentos, hidratantes, maquiagens, cremes, academia, caminhadas, tudo e mais um pouco que acredito deixar-me “bonita”; mas, escrevo sobre esse assunto porque, sinceramente, me interessa, preocupo-me com aonde esse culto todo pode nos levar. Digo nós pois este é um problema social: a maioria das pessoas preocupa-se em estar melhor para as avaliações do outro na sociedade do que para si mesmo.


          Conforme Le Breton (2003), no “fundamento de qualquer prática social, como mediador privilegiado e pivô da presença humana, o corpo está no cruzamento de todas as instâncias da cultura, o ponto de atribuição por excelência do campo simbólico”. Modos de subjetividades, práticas subjetivantes parecem construir uma amálgama eficiente, hipervalorizando as relações com o corpo e a arte de modificá-lo. Diferentes formas de relacionar corpos propõem contextos, histórias, definições e mediações nas diversas trajetórias que a arte e o belo têm vivenciado ao longo dos tempos.

          Diz-se que a beleza é idolatrada como se isso fosse uma novidade dos dias atuais. Mas não é. A história da humanidade mostra que o belo está presente em todas as épocas e culturas, e que a arte é um reflexo dessa necessidade de capturá-lo. Desde cedo, histórias como Branca de Neve ou Cinderela povoam o imaginário infantil, revelando o desejo pela beleza e a inveja que ela suscita. Faz parte da essência da humanidade o desejo, a vaidade e o medo de envelhecer.

          Para Jurema Barros Dantas (2011), o “indivíduo parece ser responsável por sua aparência física por meio das várias formas de construções corporais hoje presentes no mercado – como as dietas, os exercícios físicos, os variados tratamentos de beleza e as cirurgias plásticas”.

          Ao contrário, para Priscila Postali Cruz et al. (2008) a forma como a modelagem corporal vem sendo abordada pelos meios de comunicação cresceu de forma gigantesca, e o corpo feminino está sob os holofotes há um bom tempo; antes as preocupações eram comportamentais, agora a imagem está à frente de qualquer objetivo. Portanto, nada mais atual do que a adoração desenfreada pelo corpo magro e o efeito cascata que é desencadeado por esta adoração.

           A tendência de se acreditar que existe uma forma perfeita de ser e fazer o corpo ser pode trazer grandes prejuízos e causar muitos sofrimentos, sociais e psíquicos. Nunca as pessoas foram tão infelizes, tão vazias e solitárias em busca da perfeição corporal. Multiplicam-se os temores, as insatisfações, as depressões. Os elementos constituintes desse culto são: perfeccionismo e possíveis relações patológicas com distúrbios alimentares (anorexia, bulimia, ortorexia, vigorexia), ansiedade e comportamentos obsessivos compulsivos. 

           Vivemos numa sociedade em que valorizamos o corpo perfeito, a magreza, as curvas torneadas e sem gordura. Incontáveis linhas de cosméticos, academias, centros de estética, salões de beleza, clínicas de cirurgia plástica, revistas sobre beleza e boa forma com uma ampla variedade, compõem o mercado da aparência física, que é um dos que mais cresce atualmente. A medicina também acena para soluções cada vez mais seguras e acessíveis para os seus "problemas" estéticos: mude seu nariz, aumente os seios e estique a barriga, pagando em suaves prestações. O Brasil é o segundo maior mercado de cirurgia plástica do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

          Somos bombardeados regularmente com propagandas sobre nossas "imperfeições" e limitações. Nossas singularidades são convertidas em inadequação quando a publicidade nos mostra soluções milagrosas para nos libertar da grande infelicidade de sermos como somos. A crueldade do mercado de estética reside no seu modo de operação: a mesma propaganda que anuncia a oferta cria a demanda.

          Evidentemente que devemos cuidar do nosso corpo e da nossa saúde. No entanto, esses cuidados não devem ser tão intensos e ditatoriais como se têm apresentado. Devemos sempre respeitar os limites do nosso corpo e a nós mesmos.

          O verdadeiro problema não está no corpo ou no rosto; está dentro das nossas cabeças, nas formas obcecadas de reflexão em prol do corpo perfeito. Sentir-se bem com o corpo é o primeiro passo para a harmonia e depende exclusivamente de cada um. Enquadrar-se em padrões de grupo é uma necessidade humana, ainda mais radicalizada na sociedade de consumo do século XXI. Quanto mais autonomia desenvolvermos em relação à aprovação dos outros, sobre nós mesmos e nosso corpo, melhor será nossa qualidade de vida.



REFERÊNCIAS



BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo. A transformação das pessoas em mercadorias. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.



DANTAS, Jurema Barros. Estudos e Pesquisas em Psicologia. Rio de Janeiro v. 11 n. 3 p. 898-912, 2011.



LE BRETON, D. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. Campinas: Editora Papirus, 2003. 


*Notas: 

[1]O presente texto reflete uma parceria e co-autoria interdisciplinar entre os professores de Filosofia, Sociologia e Língua Portuguesa e aluna do Ensino Médio, cujo objetivo concerne à participação da Olimpíada de Língua Portuguesa – 2014.

[2] Aluna da turma 202 da EEB Gomes Carneiro da cidade de Xaxim, estado de Santa Catarina. 

[3] Professor de Filosofia e Sociologia do Ensino Médio público da EEB Gomes Carneiro da cidade de Xaxim, estado de Santa Catarina. 

[4] Professora de Língua Portuguesa e Literatura do Ensino Médio público da EEB Gomes Carneiro da cidade de Xaxim, estado de Santa Catarina. 

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