24 de junho de 2014

"Lavoura Arcaica": verso e inverso da mesma semente



Fonte: Web
Por: Everton Marcos Grison

"Ninguém dirige aquele
que Deus extravia"
         
           Lúcifer tradução latina de Fósforo [“aquele que traz a luz”] (KURY, 1999, p. 156), foi o primeiro revolucionário no mundo religioso, pois plantou uma estaca na ordem do tempo, este demônio que a tudo mensura. Abalou o andar das coisas e salgou as feridas da onipresença e onisciência. Ele, o desgraçado, este animal selvagem e pestilento, a flor da maldade, instaurou o caos na existência ordeira e sempre a mesma da tradição divina. Por trazer a luz recebeu como troca as profundezas do inferno, para afogar-se na sua própria claridade e dúvida.
         André, nome de origem grega (Andreás), retirado do elemento andrós, que significa “homem”, “másculo”, “viril”, também possui presença marcante na bíblia. É mencionado no Novo Testamento como irmão de São Pedro[1]. Morreu crucificado em uma cruz em formato de X, chamada de “crux decussata”. Como seu irmão Pedro, não se achava digno de morrer como Cristo. É visto como aquele que possui ideias originais. André também é o antropônimo que se apresenta no livro Lavoura Arcaica de Raduan Nassar, identificando uma das figuras centrais.
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         Pouco se sabe sobre Raduan Nassar. Nascido em Pindorama – SP em 1935 descendendo de uma família libanesa cursou direito e filosofia na USP. Estreou na literatura em 1975 com o livro Lavoura Arcaica[2]. Em 1978 publicou a novela Um Copo de Cólera[3], composta em 1970. Em 1997 veio a público Menina a Caminho, uma reunião de contos dos anos 60 e 70, publicados de forma esparsa. Obra curta, mas de profundidade imensurável, com forte tom poético, de debate filosófico, político e social. É comumente comparado a Clarice Linspector e Guimarães Rosa. Tal equiparação é simplista tanto para Raduan, quanto para Linspector e Guimarães. Um grande autor e uma grande obra não precisam de identificações com terceiros. Eles são pelo simples fato de mostrarem-se.
         Lavoura Arcaica[4] recebeu tradução para o inglês, espanhol, alemão e francês, com sucessivas edições e reimpressões. O livro é classificado como romance pelos requintes de castração das “escolas literárias” brasileiras. Enquadrar como temático é bastante simplista, pois sua profundidade linguística e reflexiva é tamanha, que qualquer interpretação não passa de sopro de voz. A inteligentsia vê nas linhas de Nassar a presença de Nietzsche, Freud, Lacan, Kafka, Baudelaire, a Bíblia, o Alcorão e a mitologia.  Tudo isso é pouco. O livro é fruto de anos de trabalho, em uma rotina diária de fazer e refazer, lapidando com mãos de ourives as letras da existência.
                André, o homem viril e de ideias inovadoras, tem em suas veias o ímpeto febril da existência que abre os olhos e vê a luz, o diferente, o grotesco. André, como Lúcifer, abala a ordem patriarcal de uma casa imersa na lei encarnada, na construção e manutenção cultural da tradição impositiva, dos sermões do pai à mesa;

... hão de ser esses, no seu fundamento, os modos da família: baldrames bem travados, paredes bem amarradas, um teto bem suportado; a paciência é a virtude das virtudes, não é sábio quem se desespera, é insensato quem não se submete. E o pai à cabeceira fez a pausa de costume, curta, densa, para que medíssemos em silêncio a majestade rústica da sua postura. (p. 60).

                O filho-irmão, o sal das feridas da onisciência, é o fruto amadurecido da impaciência: “a impaciência também tem os seus direitos” (p. 88). A paciência, virtude transbordando a religiosidade primordial, sustentada pelo tempo, “...o demônio absoluto conferindo qualidade a todas as coisas” (p. 97), com a sua forma mais suprema no amor na família, na união que traz o acabamento de todos os princípios, é questionada pelo possuído que revira o cesto de roupas sujas da casa; “eu, o epilético, o possuído, o tomado, eu, o faminto...” (p. 110).
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                A fome que tem por ímpeto quebrar o copo do arcaico, da peste súbita e virulenta da pureza completa. “Era Ana, era Ana, Pedro, era Ana a minha fome... era Ana a minha enfermidade, ela a minha loucura, ela o meu respiro, a minha lâmina, meu arrepio, meu sopro, o assédio impertinente dos meus testículos... gritei de boca escancarada, expondo a textura da minha língua exuberante...” (p. 107).
                É Ana, a irmã, o remédio para sua febre, que lhe causa cólera. E Ana vem do Hebraico Hannah, que no latim tornou-se Anna, tida como aquela que é “graciosa”, “cheia de graça”. No Velho Testamento, Ana é a mãe de Samuel, que engravidou velha. No Novo Testamento aparece como profetisa que reconheceu o menino Jesus como o messias. De modo controverso é considerada a mãe da virgem Maria.
                O possuído sente fome da graça. Tal graça unida ao possuído de impaciência abalam com uma relação incestuosa, a ordem presente e sustentada pelo patriarca. O balanço da estrutura é dado à sombra de seus olhos. E para tanto, André quer ser profeta de sua própria história, vivendo uma religião ligada diretamente à natureza e a um mundo de pulsões e assepsias com a ordem familiar. A cópula com Ana é o coroamento de sua liturgia, a postulação do seu marco. Por outro lado, é abalada pela rejeição posterior da irmã, que não responde aos pedidos e promessas do irmão, tão imersa que está na contemplação religiosa das contas do terço.
                O descompasso dos dois inverte os polos de tensão, e André que era o transgressor e exilado voluntário, assume a postura de observador entorpecido. A peste efetiva instaura-se em Ana, tomada pelas coisas do irmão e pela intensidade da claridade. Ela usurpa o ritual da dança familiar, ferindo Pedro, o irmão que descende diretamente da árvore paterna e está à direita do pai nas refeições.
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                O pai, o arcaico, a lei encarnada bebe de um copo de cólera e desfere a força contra a perturbação da paciência ordeira.

“Todos os erros humano são impaciência, uma ruptura precoce do que é metódico, uma aparente implantação daquilo que é aparente.” “Existem dois pecados capitais, dos quais todos os outros derivam: impaciência e indolência. Por causa da impaciência os homens foram expulsos do paraíso, por causa da indolência eles não voltam. Mas talvez só exista um pecado capital: a impaciência. Por causa da impaciência eles foram expulsos, por causa dela eles não voltam.” (KAFKA, 2011, afor: 2, 3, p. 189).   



         O pai sente a expulsão do paraíso, provando a amargura violenta da verdade; o bem e o mal andam de mãos dadas. “...não teria a mesma gravidade se uma ovelha se inflamasse, ou se outro membro qualquer do rebanho caísse exasperado, mas era o próprio patriarca, ferido nos seus preceitos, que fora possuído de cólera divina (pobre pai!), era o guia, era a tábua solene, era a lei que se incendiava.” (p. 191).
           
                A própria virtude cerrou com punho forte o incomodo da impaciência, o arrobou da desordem, o corpo nu e escrachado da existência virulenta. É no mesmo corpo efervescente que encontram morada Deus e o Diabo. Ambos estão a postos para deflorar sua foice na cabeça de quem lhes cruzar a fronte. O ser é a morada de ambas as instâncias. O bem e o mal não se separaram, pois tanto um como outro, são frutos da mesma lavoura arcaica do tempo. 

Referências

ABRANCHES, Aluísio. Um copo de Cólera. Brasil, 1999. (70 min).

CARVALHO, Luiz Fernando. Lavoura Arcaica. Brasil, 2001. (2:51 min).

KAFKA, Franz. Aforismos. In: KAFKA, Franz. Franz Kafka Essencial. Tradução, seleção e comentários de Modesto Carone. São Paulo: Penguin/Companhia, 2011.

KURY, Mário da Gama. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. 5ª ed. Rio de Janeiro; Jorge Zahar, 1999.

NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica. 3ª ed revista pelo autor – 29ª reimp. São Paulo; Companhia das Letras; 2014.

__________. Menina a Caminho e outros textos. São Paulo; Companhia das Letras, 1997.

__________. Um copo de Cólera. São Paulo; MEDIAfashion, 2012. (Coleção Folha. Literatura ibero-americana: v. 11).

Notas: 


[1] Pedro: rocha firme. Apóstolo que negou Cristo por três vezes antes do cantar do galo. Foi crucificado de cabeça para baixo pois não se achava digno de morrer como o mestre.
[2] Possuímos o arquivo em PDF tanto de Lavoura Arcaica como de Um copo de Cólera. Aos interessados, basta enviar um e-mail para: reflexaodialogada@yahoo.com.br solicitando os arquivos.
[3] O livro também recebeu adaptação cinematográfica, com brilhante atuação de Alexandre Borges e Júlia Lemmertz.
[4] O livro também recebeu adaptação cinematográfica, com brilhante atuação de Selton Mello, interpretando André. O filme encontra-se disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=YkihUlo0A74 (Acesso em 24/06/2014 as 09:21). 

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