18 de junho de 2014

La Classe Operária Van in Paradiso¹: Uma análise crítica do mundo do trabalho



Fonte: Web
Por: Edinei Marcos Grison

A história política da Itália foi determinante para que Élio Petri produzisse no cinema italiano o filme: La Classe Operaria Van in Paradiso. Não se refere a uma visão romântica do mundo do trabalho e das relações de produção capitalistas na indústria. Pelo contrário é uma clara denuncia dos movimentos de exploração e alienação da classe trabalhadora na Itália.
Vários são os elementos da realidade que proporcionaram a base para o desenvolvimento cinematográfico, a saber: a crise econômica italiana, advinda do fim da segunda guerra mundial, o avanço do partido de esquerda com orientação comunista, a greve geral de 1948, a participação de comunistas em resistências contra o fascismo e por fim, as mudanças capitalistas da década de 70 no mundo.
Élio Petri foi membro do partido comunista italiano (PCI) e um dos mais renomados roteiristas do cinema político italiano. A perspectiva teórica utilizada por Petri segue a matriz materialista dialética, marxista com cunho comunista. Como membro do partido comunista italiano (PCI) aplicou as suas análises críticas, sob a orientação, também das raízes que fundaram o partido, a saber, Antonio Gramsci.
O filme tem como cenário uma indústria de peças para motores. O regime de trabalho tem como base altas jornadas de trabalho repetitivo com finalidade de cumprimento de metas na produção. Assim, o trabalho a cada passo, ampliava a distância entre o produto final, a mercadoria e as realidades salariais/lucros dos patrões. Rotinas exaustivas de atividades repetitivas com docilizações claras dos corpos dos trabalhadores, bem como posturas incômodas nas funções realizadas.
Os supervisores bem como diretores da indústria BAN recebiam os funcionários com sistema de som que motivava os trabalhadores a cuidarem das ferramentas, aumentarem a produção em grau progressivo e para que o desempenho no trabalho fosse satisfatório aos interesses dos patrões.
Lulu Massa, protagonista do filme, representa um apêndice da máquina, retomando o operário ideal, ou seja, aquele que é capaz de ditar o ritmo de trabalho aos companheiros de setor. Por ser um padrão, Massa é considerado aliado do patrão e discriminado e assediado moralmente pelos companheiros no setor de produção.
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A função exercida por Massa o deixa sabedor que tal função não exige uso de graus elevados da intelectualidade. Conflitos no interior da indústria são constantes na rotina de trabalho de Massa. Os conflitos também tomam os aspectos familiares. A concentração na atividade do trabalho vem da relação estabelecida para com a vida sexual. Deste modo, Massa passa a ser visto como um competidor em plena jornada de trabalho.
Um aspecto determinante da vida exterior para com a indústria que Massa trabalha é a consumação compulsiva de produtos supérfluos, relacionados aos gostos de sua esposa. O gasto excessivo de todo o salário com agrados à esposa e a compulsividade pela ordem dos objetos, atesta o precoce estado de loucura de Massa, advindo do trabalho.
A rotina de trabalho e a insanidade abalada foram quebradas por um acidente de trabalho. Afloram-se forças sindicais, grupos contrários da lógica de produção capitalista, claros diagnósticos das divergências políticas existentes na Itália de Élio Petri. Posturas conservadoras pelo viés de sindicalistas da época refletem a revolução por meio de alianças de estudantes universitários com operários. A solução apontada e pleiteada pela aliança, exigia a destruição dos meios e modos de produção em vigência.
Massa rende-se ao conservadorismo dos estudantes, desconectados da realidade da fábrica e propõe greve e confronto ao sistema que tanto era súdito. É despedido de sua função. A falsa ideia de revolução proposta pelos estudantes universitários conservadores, leva Massa a soma de desempregados e a conclusão de que o papel dos sindicatos é útil quando motiva a desalienação das condições de trabalho e de vida.
Os percalços vividos por Massa no período de militância o tornara uma pessoa diferenciada da lógica que o aprisionará no início do filme, dirigido por Petri. Deste modo, Petri conclui o filme com a tese de que o trabalho deve ser humanizador e não somente visto como processo de produção de manufatura, mercadoria, alienada e alienante.
As principais teses presentes no filme são:
1.    A utilização da mais-valia relativa sobre a absoluta: caracterizada pela inserção da tecnologia no processo de produção para a ampla e dinâmica produção em conjunto e superior a mais valia absoluta, caracterizada pela intensificação do ritmo de produção que obviamente gera ainda mais excedente.
2.    A relação fetichista entre homem e máquina revela que a máquina passa a ser um amuleto com poder superior ao do homem, considerada como ídolo.
3.    A loucura seria uma decorrência natural da sociedade moderna pelos altos níveis de produção, longas jornadas de trabalho, ritmos de produção exaustivos e redução dos momentos de lazer e descanso.
4.    A teoria do valor-trabalho de Marx conectada, ligada ao tempo gasto na produção de uma mercadoria.
A produção de Élio Petri torna evidentes, os formatos clássicos dos sistemas produtivos, (taylorismo/fordismo), por características tais como: produção de peças em larga escala, sob o aproveitamento constante do tempo/produção (taylorismo).  O fordismo apresenta-se a partir da fragmentação do processo de produção, da existência e dinâmica da esteira e do não reconhecimento do sujeito trabalhador no produto final pelo nível acelerado de produção e alienação.
A gestão organizacional produtiva hierarquizada pelo nível, dinâmica de produção, relacionada às possibilidades outorgadas pelos empregadores com fins de remuneração capitalista são sem possibilidade de autonomia na produção como forma alternativa. A desigualdade e a realidade estamentada é uma constante na produção de Élio Petri pelas relações desiguais entre patrões e empregados.
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Tanto a influencia do taylorismo como do fordismo são evidentes às consequências relacionadas à saúde mental dos trabalhadores pela aceleração e demência criada pelo sistema de produção, cerceando a liberdade do trabalho pelo tempo/produto.  A subjetivação dos trabalhadores objetiva práticas de ordem, semelhantes à dinâmica vivenciada nas funções desempenhadas na fábrica.
Trabalhadores e empregadores representam no filme, a dialética clássica do sistema capitalista, na divisão do trabalho em relação de desigualdade. Os sindicatos da época propunham a organizar noções de classe entre os trabalhadores, cujo olhar estava direcionado a produção e a paga da atividade desempenhada. As formas evidentes que representam a tentativa de organização no filme refletem o processo de alienação do sistema produtivo capitalista, a presença da esquerda política como forma alternativa de mobilização e de tateamento de direitos trabalhistas.

Notas: 
[1] Este título (em italiano) refere-se à obra cinematográfica de Élio Petri, lançada na Itália no ano de 1971. Uma importante reflexão sobre o mundo do trabalho através do viés materialista dialético.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Ricardo (org.) A Dialética do Trabalho - escritos de Marx e Engels. Vol. I e II São Paulo: Expressão Popular, 2013. 

PETRI, Élio. La Classe Operaria Van in Paradiso. Itália: 1971. 1 DVD (110 min.)

PINTO, Geraldo Augusto. A organização do trabalho no século XX - Taylorismo, Fordismo e Toyotismo 2ª ed. São Paulo, Editora Expressão Popular, 2010.



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