13 de maio de 2014

Uma Paisagem Matizada: Gilberto Freyre e Octávio Ianni definindo o Brasil

Por: Edinei Marcos Grison.

                Com o pretexto de realizar um resgate teórico-biográfico de Gilberto Freyre e Octávio Ianni, apresenta-se o Brasil como morada de raças, conciliações e desigualdades no presente ensaio. Tais matizes mesclam o Brasil mestiço de Freyre e o desigual de Ianni na construção das noções que definem o Brasil no que tange a cultura, sociedade e poder.

 
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Para tanto, em Gilberto Freyre existe uma complementariedade entre as obras: Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mucambos. A história social do patriarcado brasileiro cruza o espaço das duas obras. Os processos de subordinação são pontuados a partir da lógica funcionalista, amplamente trabalhada na sociologia clássica de Émile Durkheim[1]. A conciliação entre as partes para Freyre fundamenta a relação entre o senhor e o escravo, entre a casa e a rua, entre o sobrado e o mucambo, a partir da tese de que a pátria Brasil, é de todos. Assim exemplifica Freyre (2004, p.29):

[...] evitando estímulos sem justo motivo; todos somos filhos da Patria; ella [sic] pertence a todos; nós a devemos amar, socorrer, defender e pôr em socego, por que isto redunda em nosso benefício; haja união bem serrada em nossas almas...
                                                                                                  
O Brasil do patriarcado não é um Brasil da desigualdade, atenuante de condições sociais, direitos civis. É um Brasil feito a partir das diferentes culturas em um espaço de possibilidades de vivências entre contrários, em conformidade com a condição social que estivesse vivendo, em prol do bem da ordem e da nação. No espaço de morada Brasil haveria espaço para todos. Não existiria distância entre a Casa Grande e a Senzala, mas diferença e relações entre diferentes conciliáveis. Sobre isso complementa Freyre (2004, p.30):

O centro de interesse para o nosso estudo desses antagonismos e das acomodações que lhes atenuaram as durezas continua a ser a casa ─ a casa maior em relação com a menor, as duas em relação com a rua, com a praça, com a terra, com o solo, com o mato, com o próprio mar.


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A sociedade patriarcal brasileira para Freyre é admirável pela possibilidade de acomodação de brancos e pretos[2]. Senhores e servos pais e filhos, mulheres e homens. Das casas grandes, vieram os sobrados, identificando o processo de urbanização na sociedade patriarcal em queda no seu sentido agrário. A senzala ficou reduzida ao quarto do criado, ou até ao que se chamava de mucambo. Sobrados e cortiços cresciam um a ao lado do outro. E para Freyre, natural a relação de um e outro pela diferença.
O espaço da rua no Brasil patriarcal revela a impureza do público. A casa, a pureza e a proteção do luxo. Contra as intempéries de um espaço impuro revelado na rua, imponentes leões, cachorros, gatos, tigres se desenhavam nos umbrais dos sobrados em proteção ao espaço puro. A rua permitia um espaço de confraternização, relação, complementariedade e relação dialógica. Uma verdadeira conciliação. A nova sociedade brasileira, agora não mais na sombra das casas grandes e senzalas, morava na imponência dos sobrados e na simplicidade dos mucambos. Todos passaram aos poucos a valorizar o espaço da rua como a possibilidade do diálogo entre todos.
Do domínio da classe nobre, a rua foi dando espaço também para o moleque, para a negra e para o negro. Esta, a expressão real da rua brasileira. O Brasil sendo patriarcal revela a construção de um tipo social de homem, aquele da facilidade de comunicação entre raças, festas, eventos e classes e um espaço de morada da mestiçagem.
Contra visões sectárias de desigualdade, exploração, Freyre sugere uma abordagens descritiva, interpretativa do Brasil pelo modelo da revelação. Em vez de desajustes, equilíbrio e ajustamentos culturais, Freyre vê no Brasil espaços que não possuem as objetividades de espaços persistentes na desigualdade, mas campos de manifestação e desenvolvimento da mestiçagem no Brasil como morada.
               Se para Gilberto Freyre a história do Brasil se dá entre culturas num espaço de morada da diferença, na complementariedade do povo brasileiro entre negros e brancos, senhores e servos, para Octávio Ianni este é o nó central da formação do povo brasileiro, a partir da desigualdade, da opressão e da triste realidade racista, escravista. Segundo Ianni (1996, p. 115): “Na história da sociedade brasileira, desde a Independência, a problemática racial sempre representou, e continua a representar, uma perspectiva importante para a compreensão de como se forma o povo”.
                A compreensão dialética da formação do povo brasileiro de Ianni dinamiza o olhar para a desigualdade a distância entre o que para Freyre era complementar e conciliatório, ou seja: as raças. Ianni apresenta três raças que foram agraciadas pela tristeza na história do Brasil, a saber: o índio (aldeado), o negro (escravizado/expatriado) e o mestiço (uma síntese da desigualdade e da mistura racial brasileira).

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               A partir do momento que o Brasil segregou/desenhou espaços de exclusão na sua construção social, apresentou o índio, o negro e o mestiço como exemplos discretos de sua desigualdade interna, concomitantemente apareceram espaços puros e impuros como identifica Ianni (1996, p. 116): “Por meio de uma taxionomia inocente, constroem-se os elos e as cadeias de uma estrutura na qual se distribuem os puros e impuros, superiores e inferiores, civilizados e bárbaros, históricos e a-históricos”.
                Binômios e dicotomias são marcantes entre os espaços e as raças no Brasil. Tais dicotomias revelam as identificações entre a cidade e o rural, entre o puro (europeu) e o mestiço (miscigenado brasileiro). A proporcionalidade das misturas, em estado desigual incentivou a vinda de europeus de forma desenfreada, fundamentando os simpáticos processos de branqueamento.
                A invenção do negro no Brasil segue os padrões do homem branco. Assim todo um movimento de incutir este negro no outro, fundamenta as desigualdades entre raças presentes desde a independência. Impossível desconsiderar a presença do negro na formação do estado nacional brasileiro.                                           As revoluções burguesas em marcha na história do Brasil trouxeram o arianismo como elemento congênito. A ordem e o progresso fundamentam na história do povo brasileiro o binômio da domesticação/controle pela uniformidade. Escravos passam a serem os trabalhadores livres, sem nada mais que a mão de obra a ser vendida pela moeda da exploração capitalista modernizante. Tanto o advento das cidades como o surgimento do processo de industrialização, forçou o desenho, a metamorfose do Brasil conciliável de Freyre para desigual de Ianni (1996, p.130):

Uns querem circunscrever os membros da população à condição de trabalhadores: sem luxúria nem preguiça. Outros querem a transformação do negro, mulato, índio, caboclo, imigrante em cidadão. E há aqueles que procuram mostrar as desigualdades sociais, econômicas, políticas e culturais que constituem e reproduzem as desigualdades raciais.


A sociedade e a cultura impressa no Brasil/burguês ao mesmo tempo em que se desenha a desigualdade, rabisca sentidos de liberdade e igualdade irreais à realidade brasileira. Projetos de grupos seletos, da elite branca inculcam a cultura européia nos espaços assimétricos das realidades do povo brasileiro. Atrelada à raça, a cultura e a sociedade brasileira, existe a desigualdade social.
O incentivo aos fluxos migratórios europeus trouxe ao Brasil o desenvolvimento social ocidental, nunca visto pelos negros e mestiços que se acumulavam, outrora em meio às senzalas, doravante mucambos. A população conquistada revela o Estado militarizante, paternalista sufocante.
Visões contraditórias revelam um país desigual pulverizado pela conquista burguesa que inocentou na conquista pela dominação do índio, negro e o mestiço. A partir deste olhar, Ianni (1996, p.143) representa a formação cultural pelo óculo dialético.

É verdade que a cultura apresenta especificidades, sistemas significativos, conjuntos que articulam passado e presente, construções ideias, representações românticas, realistas, naturalistas, parnasianas, modernistas e outras.


A dinâmica cultural da formação do povo brasileiro no presente, passado, realista ou ideal, serviu-se de mitos, personagens e a relocação do problema entorno ao estado nacional Brasileiro. Para todos, ou posse de alguns?
A cultura hegemônica construída na formação do povo brasileiro requer reinterpretação. O recorte histórico de 1964 – 1985 exemplifica o que representou, segundo Ianni (1996, p. 153) “a cultura do bloco de poder”. Oliveira Vianna representou a referência científica e teórica para a existência do Estado Forte Militar. Entre blocos e grupos o Brasil se constitui em realidades desiguais, racistas, arianas e opressoras.
Entre casas grandes, senzala, sobrados, mucambos, índios, negros e mestiços houve a constituição da história política e social do Brasil. Do patriarcado a modernidade brasileira, mitos e realidades representaram tipos ideias em muitos casos, a realidade desigual e oprimida.
De Jeca Tatu a Zumbi dos Palmares indignações e inquietações reformam as visões culturalistas que integravam a opressão, a desigualdade e o poder no mito da morada sustentável entre os trópicos no Brasil. Do arianismo, ao aldeamento dos índios e a segregação da senzala, o povo brasileiro surge pela mestiçagem identificada por Gilberto Freyre nas obras: Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mucambos.
O patriarcado desenhou a história antiga no agrarísmo recôndito das propriedades com suas casas grandes e senzalas, rudimentares, ainda não atingidas pela modernidade burguesa, entre sobrados e mucambos que doravante anunciariam o desenho das cidades modernas como sinônimo de Brasil em progresso. A busca de autonomia e soberania nacional, necessariamente passaria pela urbanização e pela industrialização como sinônimos de modernidade.
Contradições refletiram na realidade sensível do Brasil a modernidade. Espaços se construíram culturas e significados se descontruíram e a origem do povo brasileiro se fez na dinâmica entre cidade, periferia, patriarcado e modernidade.  A ingerência de nações externas ao Brasil, desigualdade social interna e instabilidade econômica, nortearam os limites da sociedade brasileira na forma de pensar este Brasil por ora visto como morada de diferentes, conciliáveis e ora de diferentes distantes e desiguais.  

REFERÊNCIAS

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 50. ed. São Paulo: Global, 2005.

_______________. Sobrados e Mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. 5. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 2004.

IANNI, Octávio. A Ideia de Brasil Moderno. São Paulo: Brasiliense, 1996.

____________. Tipos e Mitos do Pensamento Brasileiro. São Paulo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.17, n. 49, jun. 2002.

PERES, Maria Thereza Miguel; TERCI, Eliana Tadeu. Revisitando a Modernidade Brasileira: nacionalismo e desenvolvimentismo. Revista Impulso, n. 29, [s.d].


Notas:


[1] Sugere-se a seguinte obra para aprofundamento: DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

[2] Sabe-se de toda a discussão relacionada às condições étnicas. Prevaleceu o uso do termo ‘preto’ por constar nas obras consultadas de Freyre.

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