29 de maio de 2014

O falso ídolo ressurge: o Brasil na mira de uma das maiores fraudes da ciência moderna

Por: Jonas J. Berra

Time: 9 de janeiro de 2006. O ídolo caído
          O título é bastante sugestivo, mas não tem o objetivo de fazer qualquer insinuação de que a pesquisa científica no Brasil seja infrutífera, ou que algum pesquisador brasileiro seja responsável por alguma fraude grave. Dessa vez vamos poupar o Brasil das críticas. Iremos mostrar a relação que há entre nosso país e o cientista Woo Suk Hwang, um coreano mundialmente conhecido pela fraude de pesquisas de células-tronco embrionárias humanas. 
       
 Mas o que será que poderia ter levado a um cientista como Woo Suk Hwang a ter interesse no Brasil? Para citar um exemplo, temos uma pesquisa de setembro de 2013, apresentada pela Agência Brasil[1], em que o Brasil aparece em 14º lugar no ranking mundial da pesquisa científica. Portanto, o Brasil é visto como um país em desenvolvimento com relativo crescimento das pesquisas no campo das ciências biológicas e o mais fundamental para alguém como Woo Suk Hwang: por aqui há muitos benefícios financeiros.
Fonte: web
           Uma das ideias mais controversas sobre a pesquisa científica é a de que ela tem que ser inovadora, ou seja, é preciso necessariamente haver novas descobertas e a criação de novas tecnologias. Woo Suk Hwang é um exemplo representativo dessa ideia controversa, já que protagonizou em 2004 uma das maiores fraudes da ciência. Ele publicou na revista Science  que havia conseguido a “primeira obtenção de células-tronco embrionárias humanas clonadas de uma pessoa adulta”[2]. Na época, isso significava um grande avanço no tratamento de muitas doenças graves. No entanto, um ano depois foi provada a fraude ou irregularidade das pesquisas.

         Nenhuma fraude pode ser justificada, porém, podemos levantar hipóteses sobre as razões que levaram a ocorrência dessa e de outras fraudes, entendendo a ideia de inovação. Segundo o Fórum de Reflexão Universitária da Unicamp (2002), por trás da ideia de inovação está a crença de que a exportação de tecnologias poderá reverter a situação de miséria social de um país. No entanto, essa crença se torna falsificada quando encontramos pesquisas na internet e percebemos que países do norte da Europa com índices de patentes anuais pouco representativos, tem um desenvolvimento social melhor que muitos países com altos índices de patentes anuais. A pesquisa mostra, portanto, que “a desigualdade social e o abandono das classes menos favorecidas no Brasil não são consequência direta da falta de investimentos em laboratórios ou do atraso na formação de pesquisadores” (s/p.). Além disso, temos fortes razões para acreditar que milhares de pesquisas universitárias, que gastam milhões anualmente, não possuem qualquer relevância para a humanidade. São pesquisas que são levadas adiante, quase que exclusivamente, com o objetivo de manter os financiamentos dos órgãos de fomento.
Fonte: web. Um dos benefícios da descoberta é
a obtenção de reconhecimento e fama.
            Sabemos que toda pesquisa deve ter, no mínimo, dois objetivos fundamentais: ser uma pesquisa de qualidade e relevância. A qualidade está na profundidade técnica da pesquisa, enquanto que a relevância corresponde ao caráter utilitário da pesquisa, se ela pode responder aos problemas aos quais ela se propõe responder e em que aspectos ela ajuda a sociedade a ser melhor. Assim, o artigo do Fórum de Reflexão Universitária[3] da Unicamp nos mostra que nem sempre a qualidade está associada à relevância.
                  Segundo o mesmo artigo, normalmente o cientista dá bastante ênfase à qualidade e só se lembra da relevância da pesquisa quando ocorre a necessidade de receber algum financiamento. Mas podemos levantar também outra hipótese: a qualidade da pesquisa está mais associada ao financiamento recebido pelo pesquisador do que pela sua boa vontade em ajudar a humanidade.
      Se pensarmos na hipótese apresentada, fica mais clara a razão pela qual o coreano Woo Suk Hwang divulgou resultados positivos da clonagem das células-tronco em 2004. Segundo a BBC Brasil[4], no final de 2005, “o pesquisador recebeu o equivalente a US$ 42,2 milhões do governo para sua pesquisa, e US$ 4,35 milhões de fundações privadas”. Mas as vantagens de Woo Suk Hwang não param por aí. Ele “teve selos com sua imagem. Viagens de graça em primeira classe na Korean Air por 10 anos”[5].
Fonte: web.  Os selos.
            Mas Woo Suk Hwang não é totalmente farsante. Apesar das fraudes que cometeu, conseguiu clocar um cão, Snuppy, também no ano de 2005. Portanto, podemos dizer que ele conseguiu fazer alguma coisa, ainda que não tenha conseguido clonar 11 linhagens de células-tronco embrionárias humanas.  Apesar da fraude, o coreano deu alguma “contribuição”[6] para a humanidade com pelo menos uma tentativa bem sucedida de clonagem.

            Agora, em 2014, Woo Suk Hwang tem planos de trabalhar no Brasil. Ele pretende clonar cães e vacas com objetivos comerciais e de pesquisa biomédica e biotecnológica. Segundo entrevista concedida ao Estadão[7]:

“O Brasil tem um potencial enorme na área de biotecnologia. Estamos conversando com possíveis colaboradores interessados, incluindo cientistas e empresários”.

                 Ainda, falando do Brasil, Woo Suk Hwang diz:

“Também quero usar minhas tecnologias de clonagem para abrir uma nova era de pesquisa na indústria biomédica, especialmente aqui no Brasil. Há um potencial enorme para isso aqui nos setores de bovinos e suínos. Um dia o Brasil será o líder mundial no uso da tecnologia de clonagem animal nas indústrias de biomedicina e biotecnologia”.

              Por enquanto o coreano está trabalhando com clonagem de cães em um centro de biotecnologia em Seul, o Sooam Biotech. Mas é evidente que o Brasil está no seu caminho. A partir do momento em que ele pisar em solo brasileiro, certamente os debates em torno da clonagem de animais e de embriões humanos serão retomados. Mas não será tarde para isso?
            Até que ponto podemos utilizar qualquer animal, sejam cães ou vacas, como cobaias?

Foto representativa do caso dos beagles no Brasil.
Em outubro de 2013, 178 cães foram roubados
por ativistas que invadiram o instituto Royal,
uma unidade de pesquisas em São Roque,
a 66 km de São Paulo.


REFERÊNCIAS

[1] CRUZ, Fernanda. Brasil está em 14º lugar no ranking mundial de pesquisas científicas. Site Agência Brasil. Disponível em: <http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-09-17/brasil-esta-em-14%C2%BA-lugar-no-ranking-mundial-de-pesquisas-cientificas>. Acesso em: 22 maio 2014.

[2] ESCOBAR, Herton. Coreano quer clonar cães e vacas no Brasil. Site Estadão. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/vida,coreano-quer-clonar-caes-e-vacas-no-brasil,1167791,0.htm>. Acesso em: 25 maio 2014. 

[3] Vários autores, Os desafios da pesquisa no Brasil. São Paulo: Unicamp, 2002. Disponível em: <http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/jornalPDF/ju170tema_p01.pdf>. Acesso em: 22 maio 2014.

[4] BBCBrasil. Cientista sul-coreano é indiciado por fraude em clonagem. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2006/05/060512_cientistaclone.shtml>. Acesso em: 25 maio 2014.

[5] HOLTZ. Alberto. Conto do veterinário,Woo-Suk Hwang. Superinteressante. Disponível em: <http://super.abril.com.br/ciencia/conto-veterinario-woo-suk-hwang-446215.shtml>. Acesso em: 25 maio 2014.

[6] Coloquei entre aspas porque podemos levantar sérios questionamentos sobre o suposto lado benéfico da clonagens.

[7] ESCOBAR, Herton. Coreano quer clonar cães e vacas no Brasil. Site Estadão. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/vida,coreano-quer-clonar-caes-e-vacas-no-brasil,1167791,0.htm>. Acesso em: 25 maio 2014.

Nenhum comentário :