16 de abril de 2014

O Ouro de Tolo; três pontos fundamentais para se entender os mitos

Por: Everton Marcos Grison

Capa da 34ª edição do livro. Fonte: Web
        É difícil encontrar alguém que ao menos, não tenha ouvido falar do livro; “O Livro de Ouro da Mitologia – histórias de deuses e heróis”, de autoria de Thomas Bulfinch (1796-1867). Este livro serviu de referencial para muitos interessados em mitologia, seja um público mais geral ou, aquela clientela especializada. São infindáveis os textos e até os vídeos disponíveis na internet, apresentando e vangloriando o trabalho de Bulfinch. Por outro lado, é muito curioso que inexistam críticas sobre o livro. Acreditamos que o livro possui problemas e se serviu de referência, não serve mais.
        Nosso objetivo não é desacreditar o livro e muito menos o autor, mas, depois do surgimento de pensadores comprometidos com os mitos como Mirceia Eliade[1], Jean-Pierre Vernant[2] e o brasileiro Junito de Souza Brandão[3], o livro de Bulfinch precisa ser criticado, ou seja, toda a investidura de aura que muitos leitores lhe atribuíram, em verdade, tem muito de leitura simplista e desavisada, que encara os mitos como histórias para passar o tempo, como fábulas, parábolas ou lendas. Ao criticarmos o livro de Bulfinch, temos também por objetivo, apontar três pontos essenciais, mas não os únicos, vistos como básicos para entendermos os mitos.
        Um dos primeiros problemas do livro está em seu título. A tradução brasileira feita por David jardim e publicada pela Ediouro[4], possui um forte apelo midiático. Perpassa a ideia de referência; “O livro de Ouro..”, mas este ouro, pelo menos em parte é ouro de tolo. Atentemos para o título original em inglês; “The Age of Fable”. Em uma tradução literal significa; A Idade das Fábulas ou ainda, A Era das Fábulas. O autor trata dos mitos como Fábulas? Eis nisso a primeira incoerência.
          Segundo a definição do dicionário Houasis, fábula é a

Narração popular ou artística de fatos puramente imaginados... curta narrativa, em prosa ou verso, que tem entre as personagens animais que agem como seres humanos, e que ilustra um preceito moral <as f. de Esopo>... narração de aventuras e de fatos (imaginários ou não), no romance, na epopeia, no conto...(HOUASIS, 2007, p. 1297).


         Como podemos perceber na definição de Houasis, a fábula é um tipo de narração com pretensão de ilustrar um preceito moral. Sendo assim, a fábula mexe como o imaginário, ao mesmo tempo em que transmite algo de teórico ou moral. 
        O mito assemelha-se a fábula por ser uma narração, por mexer com o imaginário das pessoas, mas não pretende transmitir algo de teórico ou moral. Seguindo a definição de Junito de Souza Brandão, o mito é uma narrativa de criação, ou seja, algo que não existia, com a narração mítica passa a existir. Sendo assim, o mito é uma narração sobre coisas, sobre o surgimento de coisas, sendo definido não tanto pelo objeto de sua mensagem, mas, pelo modo de proferi-la (Cf: BRANDÃO, 2007, p. 35-36). Em outras palavras,

... mito, consonante Mirceia Eliade, é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípios, illo tempore, quando com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois, a narrativa de uma criação; conta-nos de que modo algo, que não era, começou a ser (BRANDÃO, 2007, p. 35-36).

          Isso comprova que a tradução de The Age of Fable por; O Livro de Ouro da Mitologia é incoerente, e a postura de Bulfinch de tratar os mitos como fábulas também está comprometida. Aproveitamos para fazer uma diferenciação, seguindo a monumental trilogia de Junito de Souza Brandão sobre a mitologia grega. Trata-se da diferença entre Lenda, Parábola e Alegoria.
         A Lenda (provém do latim legenda, o que deve ser lido), é uma narrativa composta para ser lida, para ser narrada em público. Tem como alicerce o histórico, de forma deformada. São muito características em nosso tempo as lendas urbanas, por exemplo, aquelas em que pessoas aparecem em cemitérios, a do lobisomem, que muitos avós esmeram-se em contar. 
Já a Parábola é uma narrativa de caráter didático e intencional, possuindo um alicerce simbólico. As parábolas bíblicas são um exemplo desse caráter simbólico, que pretende de forma didática, transmitir preceitos religiosos. Por fim, a Alegoria, que etimologicamente quer dizer outra coisa. Funciona como uma mascara que se aplica a ideia que se pretende explicar.
Uma segunda crítica ao livro de Bulfinch está no fato de lançar as informações sobre os mitos ao léu, sem revelar ao menos, uma fonte da qual se baseou para escrever o livro. Os mitos originaram-se na tradição oral antiga. Muito do que se escreveu sobre, se perdeu no decorrer do tempo e da história. Desta maneira, as versões e interpretações de um mesmo mito foram bastante variadas, mas muitos registros antigos foram conservados e servem de base para conhecimento e comparações das diversas versões de um mesmo mito. Bulfinch não revela em que fonte está se baseando além de negligenciar este fator importante dos mitos.

O mito... vive em variantes; ora, a obra de arte, de conteúdo mitológico, somente pode apresentar, e é natural, uma dessas variantes. Acontece que, dado o imenso prestígio da poesia na Grécia, a variante apresentada por um grande poeta impunha-se à consciência pública, tornando-se um mito canônico, com esquecimento das demais variantes, talvez artisticamente menos eficazes, mas, nem por isso, menos importantes...(BRANDÃO, 2007, p.27).

          Nesse sentido, completamente na contramão de Bulfinch, Luc Ferry escreve um livro intitulado; A Sabedoria dos Mitos Gregos – Aprender a Viver II, em que ressalta em muitas passagens as variantes conhecidas para determinado mito. Ao contrário do que muitos pensam isso não torna o texto em parte alguma enfadonho e também, como leitura para especialistas, ou seja, escrita de caráter acadêmico. O livro de Luc Ferry é introdutório[5] e cumpre este papel de forma magistral. Aqui estamos falando da honestidade intelectual que mostra as duas faces de uma mesma moeda, e não apenas a que mais lhe interessa. Bulfinch passa por cima disso de forma indiscriminada. 
          O terceiro e último ponto essencial[6] acerca dos mitos, mas não esgotando o assunto de modo algum, inscreve-se no fato de que o mito está diretamente ligado ao cosmos, à manutenção de sua harmonia. A mitologia, antes de qualquer coisa, uma narração, tem como uma das questões principais, a manutenção da vida boa, ou seja, a vida em harmonia com o cosmos.
          Viver em harmonia com o cosmos significa nunca desvincular-se do lugar que lhe é natural. Cada ser, coisa, objeto deve ocupar seu lugar no cosmos, para que o equilíbrio se mantenha. Um exemplo clássico disso está na Odisséia de Homero. Ulisses, (Odisseu), o mesmo que teve a brilhante ideia de construir o cavalo de Tróia, usado na guerra de Tróia, empreende uma viagem de retorno[7] a sua Ítaca, a sua mulher e a seu palácio. A viagem de retorno do herói não é apenas um retorno para casa, para os seus. Ulisses é o exemplo do que significa esta harmonia com o cosmos, o ocupar o seu lugar, não se esquecendo do que lhe é natural.
          São várias as ocasiões em que Ulisses é tentado a esquecer, ou seja, a distanciar-se de seu objetivo, em nome de prazeres e vilanias. O esquecimento destrói os homens, pois os afasta de seu lugar natural, contribuindo assim, para a desarmonia do cosmos. O esquecimento é uma força do caos. Como estabelece Luc Ferry;

... o herói que cumpre ações impensáveis para os simples mortais – como Aquiles, justamente, ou Ulisses, Hércules, Jasão... – escapa do esquecimento em que em geral, se enterram os homens. Ele se subtrai do mundo do efêmero, daquilo que se limita a um período de tempo, entrando numa espécie, não de eternidade, mas, pelo menos, de perenidade que, de certa forma, o assemelha aos deuses (FERRY, 2009, p. 27).

          Isso é uma declaração clara do culto a memória que os gregos davam tanta importância. Um povo que passou séculos e séculos recitando os versos homéricos sem ter nada registrado, possui crédito mais que comprovado. Esquecer o lugar natural é enterrar-se no comum, na mediocridade, na igualdade aniquiladora do todo em detrimento da parte. Desta forma, os mitos continuam a falar para o indivíduo do séc. XXI, para aquele ser que vive e interage de forma demasiada para com as máquinas, esquecendo-se de se olhar, esquecendo-se de seu lugar natural, esquecendo quem é. Esquecer-se de si mesmo, eis um diagnóstico de nossos tempos, de nós mesmos, imersos em arrogância, estupidez, sem olhar para o próprio rosto. O homem moderno pergunta-se; quem sou eu?
           A mitologia ofereceu e continua a oferecer, aos seres limitados e mortais que somos, um sentido para o mundo que nos envolve, indo muito além das caracterizações dogmáticas dos “ismos” religiosos. Sendo assim, “... não se considera o universo um objeto a se conhecer, mas uma realidade a se viver” (FERRY, 2009, p. 34). E sem sombra de dúvida, o caos, o cosmos, o universo, o homem, não vão conseguir viver de modo harmonioso, se continuarem a cultuar o esquecimento indiscriminado, vivendo uma existência de ouro de tolo.

Notas:

[1] Mirceia Eliade (1907-1986), foi professor, historiador das religiões, mitólogo, filósofo e romancista. Seu conhecimento era tamanho, que se diz que falava oito idiomas (romeno, francês, alemão, italiano, inglês, hebraico, persa e sânscrito). Possui uma ampla produção teórica. Destacamos Mito e Realidade e História das Crenças e das Ideias Religiosas, ambos com tradução para o português.

[2] Jean-Pierre Vernant (1914-2007), foi historiador e antropólogo francês, especialmente se dedicando aos estudos sobre a Grécia antiga e mitologia grega. Possui uma produção numerosa de livros tratando dos mais variados aspectos da cultura e mitologia grega. Dentre eles destacam-se; Origens do Pensamento Grego; Mito e Tragédia na Grécia Antiga; Mito e Religião na Grécia Antiga; Entre Mito e Política e O Universo, Os Deuses, Os Homens – Mitos gregos contados por Jean-Pierre Vernant, livro de introdução sobre os mitos, escrito e dedicado para seu neto. Todos os livros citados possuem traduções para o português.

[3] Junito de Souza Brandão (1925-1996), foi professor titular de Língua e Literatura Grega e de Língua e Literatura Latina na PUC-RJ, na universidade Santa Úrsula e na Universidade Gama Filho. Era licenciado em Letras Clássicas, tinha Doutorado e livre-docência em Literatura Grega. Ministrava, além de suas aulas normais nas universidades supracitadas, cursos regulares de Mitologia no Rio de Janeiro e principalmente em São Paulo, na Puc-SP e na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica da mesma cidade. Suas obras de maior destaque são; Mitologia Grega (em três volumes); Dicionário Mítico-Etimológico; Teatro Grego – Tragédia e Comédia. Do grego verteu; Édipo Rei (Sófocles); Hécuba (Eurípides); O Cíclope (Eurípides); As Rãs, As Nuvens e As Vespas (Aristófanes).

[4] Existem também, duas edições do livro publicadas pela Editora Martin Claret. A primeira foi publicada na “famosa coleção”; Obra Prima de Cada Autor - Série Ouro, traduzida por Luciano Alves Meira. Lembramos que esta editora tem seu nome manchado pelas contrafacções referentes a traduções. Sobre a história da editora e suas “aventuras”, indicamos o competente blog; www.naogostodeplagio.blogspot.com , de Denise Bottmann. A outra edição, mais recente (2013), é a mesma tradução de Luciano Alves Meira e ilustrada por Getúlio Delphim, em edição luxuosa de capa dura.

[5] Como livro de introdução aos mitos, além do livro de Luc Ferry, existe também o livro de Jean-Pierre Vernant; O Universo, Os Deuses, Os Homens – Os mitos gregos contados por Jean-Pierre Vernant. Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo; Companhia das Letras, 2000.

[6] Luc Ferry em seu; A Sabedoria dos Mitos Gregos – Aprender a Viver II, estabelece cinco interrogações que dão vida aos mitos. A primeira interrogação trata sobre a origem do mundo e dos homens, a segunda é; como os homens vão se encaixar nesse universo dos deuses, que, em princípio, não parece absolutamente feito para eles?. A terceira interrogação trata sobre a hybris, de modo geral, “o descomedimento de vidas que escolhem e se desenvolvem na hostilidade à ordem ao mesmo tempo divina e cósmica...” (p.36). A quarta interrogação trata tanto da sabedoria de Ulisses, como da loucura de quem cede a hybris. Como situar aqueles seres fora do comum, heróis ou semideuses, que povoam quase todos os grandes mitos gregos? Por último, como quinta interrogação, o autor propõe; como explicar que um mundo considerado harmonioso, um cosmos que se afirma justo e bom, estabelecido e guardado por olímpicos de alta estirpe, permita que o mal se abata indiferentemente sobre os bons e os maus? Este trajeto de cinco interrogações principais estabelece um caminho interessante, de caráter introdutório, sobre as questões que envolvem os mitos.

[7] Acontecimentos muito curiosos sobre esta viagem de retorno encontram-se especialmente nos Cantos IX, X e XI da Odisseia de Homero.

Referências

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega – Vol I. 20ª ed. Petrópolis; Vozes, 2007. (Coleção em três volumes).

BULFINCH, Thomas. O livro de Ouro da Mitologia. Tradução de David Jardim. 34ª ed. Rio de Janeiro; Ediouro, 2013. (O livro encontra-se disponível em PDF, para dowload no link: http://filosofianreapucarana.pbworks.com/f/O+LIVRO+DE+OURO+DA+MITOLOGIA.pdf (Acesso em: 16/04/2014 as 07:44 horas).

FERRY, Luc. A Sabedoria dos Mitos Gregos – Aprender a viver II. Tradução de Jorge Bastos. Rio de Janeiro; Objetiva, 2009.

HOMERO. Odisseia. Tradução e introdução de Carlos Alberto Nunes. São Paulo; Hedra, 2011.

KURY, Mário da Gama. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. 8ª ed. Rio de Janeiro; Jorge Zahar, 2009. (O livro encontra disponível em PDF, para dowload no link: http://uploaded.net/file/joni83mh (Acesso em: 16/04/2014 as 07:52).

HOUASIS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houasis da Língua Portuguesa. 2ª reimp. com alterações. Rio de Janeiro; Objetiva, 2007. 

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