30 de abril de 2014

"Há Esperanças, só não para nós". Sobre a greve dos professores do Paraná

Por: Everton Marcos Grison



Vídeo que ilustra o tom da ruas:
video
    Franz Kafka, importante escritor contemporâneo, disse a frase que intitula este texto: "Há esperanças, só não para nós". Esta frase descreve a atual situação da educação do Paraná. Pode até haver jeito, mas as variadas demonstrações são de que, para nós não. 
    Isso se inscreve de forma clara na greve que foi orquestrada nos últimos sete dias. A situação da educação não chega nem a ser caótica, está pior que o caótico. Se falássemos de caótico estaríamos elogiando uma situação que é muito pior. Deixando de lado as formulações, orquestradas por pessoas que não acompanharam as mobilizações, que não estavam nas ruas e não viram o que se desenrolou, informando-se através dos jornalecos brasileiros, precisamos ponderar alguns pontos. 
      Primeiramente, não houve nenhuma proposta do governo do Estado do Paraná. Todos os compromissos feitos pelo governo não são propostas, visto que a lei já lhe obriga que cumpra, por exemplo; contratos claros para os professores PSS, hora atividade, salário base, condições estruturais das escolas, etc. Desta maneira, continuamos em estaca zero, e o governo do estado sai fortalecido desse processo, pois soube dirigir toda a situação de forma organizada.
   Em seguida, soma-se ao ponto levantado em relação ao governo, a falta de pulso do sindicato dos professores em conduzir o movimento de greve. Desde o início das negociações, ficaram claros quais seriam os resultados. Esta greve foi midiática, com número, quantidade avantajada, mas destituída de mudanças práticas. O movimento termina sem termos uma mudança realmente efetiva. 
          É importante ressaltar que não foi o sindicato que definiu pelo fim da greve, mas uma assembleia em que participaram professores e sindicato. Foi a votação da "maioria" que decidiu pelo fim da greve. Entretanto, antes mesmo dessa assembleia acontecer, os discursos proferidos diante do palácio do governo indicavam isso. Para quem estava lá pode confirmar as frases; "...uma greve forte, uma greve bonita. Saímos fortalecidos", "Hoje a tarde decidiremos pelo fim ou continuidade da greve, mas o movimento foi lindo...". 
        A presença de milhares nas ruas ontem (o número exato é um problema. Mídia e sindicato não concordam com os números) foi interpretado como dia histórico. Isso precisa ser encarado com certa cautela. O tom das rua era claro; a greve vai continuar. Atingimos um ponto importante e determinante: possuímos apoio da sociedade, a categoria está mobilizada. Agora teremos um enfrentamento que renderá frutos e melhorias para a educação. Entretanto, este clima não transpareceu na assembleia da categoria. 
      Mesmo assim, muitos educadores acreditaram que as coisas poderiam melhorar. A esperança, sepultada pelas trapalhadas do sindicato, aliadas aos desmandos e sacanagens do governo, possuía ainda um sopro de vida. Era muito forte o ânimo e a ESPERANÇA de que agora conseguiríamos algo. Com a decisão da assembleia ontem, finalmente a esperança foi sepultada com concreto e ferragens de forma reforçada. Não há mais esperança. Isso não é fatalismo de forma alguma, mas, precisamos aprender que as velhas formas de luta, os velhos sindicatos possuem lado e isso ficou claro ontem. O resumo da ópera foi uma grande pizza, mas infelizmente esqueceram de deixar um pedaço para os educadores do estado do Paraná. 
       Saímos da greve sem proposta do governo, com uma cartilha de compromissos que não são compromissos, pois isso ele já deveria cumprir a tempos, além de uma categoria novamente desanimada, fragilizada e envergonhada, dado o rumo que as coisas tomaram. O que mais revolta  é o tom de manipulação e jogo político que o movimento ganhou. Diante desse vale de lágrimas, devemos velar a esperança sindical, além de aprender com uma cartilha de luta que deu certo no Brasil, uma cartilha recente; precisamos ir tomar aulas com os garis do Rio de Janeiro, para aprendermos como se luta e se consegue melhorias, sem utilizar os tradicionais meios. 

Algumas fotos que tiramos durante a Passeata: 













5 comentários :

oseias Maques Padilha disse...

Um quadro lamentável. Eu espero que nas próximas eleições essa indiferença da gestão atual, não caia no esquecimento, e seja considerada pela população ao votar. Também espero, que a oposição, não se utilize deste evento como uma mera plataforma política, mas como uma crise que necessita de ser erradicada. E também espero, que a situação mude, quando mudarmos a gestão deste governo. Parabéns aos professores que foram as ruas, essa luta ainda não acabou!

Bianca Ambrosio disse...

Para mim é evidente que o "acordo" feito foi apenas para afastar as multidões dos arredores do Palácio Iguaçu, devido ao showzinho que terá na quinta-feira (quem esteve por lá deve ter notado as estruturas sendo montadas, a ultima coisa que o governador iria querer é uma pandemia em meio ao show do dia primeiro).

oseias Maques Padilha disse...

Bianca, concordo em número, gênero e grau. Estou cansado de ver essas manobras presente no governo atual.A educação fica em segundo plano porque ela liberta, liberta da neurastenia, da conformidade, da ignorância. Portanto, quando um povo possui uma educação de qualidade, e não domesticação, fica difícil para um governo indolente e ímprobo se manter no poder. Não será isto que eles tanto temem ao fazerem vistas grossas a situação em que a educação e os professores se encontram?

PROF. EDINEI M. GRISON disse...

Em uma dedicatória, Frei Betto escreveu-me: "Edinei muita utopia no coração".

Acredito que na atual situação deprimente que o ensino/educação se encontram, o mais confortante (não é a forma mais ideal) é sonhar.

O jargão democrático/liberal: "a 'maioria' legaliza o pacto social" e vence sobre as particularidades, autoriza que drásticas e necessárias mudanças sejam abortadas.

Os donos do poder negociam em seus gabinetes e nos seus palacetes circunscrevem qual seja o "interesse da maioria" decidindo pela maioria e sendo a maioria.

À mercê dos donos do poder e do leviatã do estado burguês, muda e se revitaliza somente o que gera mercadoria, capital e lucro.

A encruzilhada é grande! e a educação/ensino só cria capital a longo prazo e este cultural.

Everton Marcos Grison disse...

Sim Bianca, sua analise pode ter razão. Se a greve continuasse iria melar as comemorações do 1º de maio. Não ia ser lindo e gracioso.

Quanto a utopia, mesmo sendo difícil, devemos continuar acreditando que possa existir jeito. Para quem não nasceu em berço esplendido, o ato do estudo é a maior atitude de resistência e rebeldia.