24 de abril de 2014

Caniços Pensantes: Nietzsche, Pascal e Agostinho*



Fonte: Web
Por: Oséias Marques Padilha

Ainda no século XVII o filósofo francês Blaise Pascal afirmou: “O homem não é senão um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante”¹. Um caniço que mesmo tendo ultrapassado o céu, pisado o solo Lunar, continua sendo “Um nada com relação ao infinito, um tudo com relação ao nada, um meio entre o nada e o tudo, infinitamente afastado de compreender os extremos; o fim das coisas e seu princípio estão para ele invencivelmente escondidos num segredo impenetrável”².
Quem dera pudéssemos perpetrar nossa interioridade (há uma interioridade? Em que ela consiste?) da mesma maneira como nos é possibilitado sondar as propriedades mais recônditas da matéria, a luz de lentes que nós mesmos projetamos, subsidiados pelo nosso conhecimento cientifico, e podermos encontrar uma psyché, um cogitos, um alguém ou uma substância capaz de preencher as lacunas concernentes a nossa essência.
Na impossibilidade de tal façanha, sentimos ainda reverberar em nós o espanto do qual foram tomados os mais antigos sábios diante do mistério da existência, do qual nasceu, não somente a religião, mas também a reflexão filosófica, e assim como Pascal, o homem hodierno ainda é constrangido a exclamar: “o silêncio eterno desses espaços infinitos me apavoram”³.
É bem verdade que nossa geração aumentou em décadas a expectativa de vida em relação às gerações anteriores com avanço das ciências médicas, e, com a criação de métodos profiláticos cada vez mais eficientes foi possível à erradicação de inúmeras doenças.

Fonte: Web
No entanto, nos parece que quanto mais vive o homem, mais pusilânime este se torna. Os primatas temiam as feras, os medievais temiam os barbáros. Nós tememos a inflação e a queda do Índice Dow Jones. Não que tais preocupações sejam irrelevantes, pois diretamente nos afeta, mas denunciam ainda mais nossa fragilidade.
Apoiados sob as próteses de nossas ideologias políticas, conquistas tecnológicas, acordos diplomáticos, seguimos claudicando pela via quimérica do progresso. Não estaríamos hoje fartos de eruditismo, mas vazios de conhecimento? Ou não estaríamos transbordando de futuro, mas vazios de vida?
Em Assim Falou Zaratustra, Nietzsche narra um evento curioso vivido por seu profeta dançarino numa passagem intitulada Da Redenção, onde ao passar por uma grande ponte, Zaratustra é cercado por aleijados e mendigos, atraídos por sua pregação, e no meio deles, um corcunda se dirige a Zaratustra dizendo:

Olha Zaratustra! Também o povo aprende contigo e ganha fé na tua doutrina: mas, para que ele creia em ti completamente, uma coisa ainda é necessária – tens de convencer também a nós aleijados! Tens aqui uma boa coleção deles e, na verdade uma senhora oportunidade! Podes curar os cegos e fazer andar os paralíticos; e daquele que tem coisa demais nas costas poderia também tirar um pouco: - acho que esta seria a maneira certa de fazer os aleijados acreditarem em Zaratustra!.4

Zaratustra rejeita a petição do corcunda, e ainda afirma que “Desde que estou entre os homens, isto me parece o mínimo do que vejo: ‘A este falta um olho, àquele uma orelha e a um terceiro a perna, e a outros que perderam a língua, o nariz ou a cabeça’”. 5
Nietzsche através desta alegoria, alude justamente ao humano fragmentado pelo conhecimento especializado, que Zaratustra classifica como sendo uma espécie de “aleijados às avessas”, “homens que tinham muito pouco de tudo e demasiado de uma coisa só” 6
Santo Agostinho, filósofo e cristão devoto assim como Pascal, mas ainda antes deste, dizia nas Confissões Criaste – nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós.” 7 Mais que uma verdade cristã doutrinária, esta frase expressa um descontentamento universal, ínsito na natureza humana, uma sensação de deslocamento que nos advém durante o curso deste nosso périplo prometeico.

Se comemos furtivamente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, ou se roubamos o fogo dos Deuses, certo é que por alguma razão parece termos sido privados da verdade. Mas ainda que frágeis como um caniço, não fomos privados de viver, e de pensar,: “Toda nossa dignidade consiste, pois no pensamento. É daí que temos de nos elevar, não do espaço e da duração que não conseguiríamos preencher. Trabalhemos pois para pensar bem : eis aí o princípio da moral”. 8

Notas

* Agradecimentos pela revisão feita por Thaís Carolina da Silva. 
1.       PASCAL, 2005, p. 86
2.       PASCAL, 2005, p. 80
3.       PASCAL, 2005, p. 86
4.       NIETZSCHE, 2011, p. 131
5.       NIETZSCHE, 2011, p. 131
6.       NIETZSCHE, 2011, p. 132
7.       AGOSTINHO, 1999, p. 37
8.       PASCAL, 2005, p. 86


Bibliografia

PASCAL, BLAISE. Pensamentos. Trad. Mario Laranjeiras. São Paulo. Ed. Martins Fontes, 2005.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Trad. Paulo Cesar de Souza. São Paulo. Ed. Companhia das Letras, 2011.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad. J. Oliveira dos Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina, S.J. Rio de Janeiro; Vozes de Bolso, 2011. (Coleção Vozes de Bolso).

Nenhum comentário :