10 de abril de 2014

A Farsa move montanhas; Os Protocolos dos Sábios do Sião

     Por: Everton Marcos Grison

Capa da 3ª edição  dos Protocolos
publicados no Brasil. Sua primeira tradução
para o português foi feita pelos anos de 1930.
     A farsa move montanhas, destitui governantes, prejudica pessoas, aniquila individualidades, além de fundamentar em grande medida, os complôs ao longo da história. E a história é marcada pela existência de inúmeros complôs, com interesses e alcances dos mais variados, chegando inclusive a mover montanhas. 
      O tema da farsa, da informação manipulada e reificada a bel prazer, foi objeto de pesquisa de muitos pensadores, seja na área científica ou literária. Na literatura são infindáveis os livros que tratam de complôs, sociedades secretas. A questão é que enquanto se mantém no campo literário, servindo-se da fantasia e da farsa, tais escritos funcionam de forma interessante, mexendo com o imaginário dos leitores, mas não movem montanhas.
       Um autor que encara este tema com muita maestria é Umberto Eco[1], reconhecido mundialmente pelos seus trabalhos de semiótica, além de seus romances, que são muito bem recebidos pela crítica e pelos leitores. Para quem conhece um pouco da obra de Eco, que é extensa, sabe que o tema da mentira, dos embustes, é muito recorrente.
           Em seu O Pêndulo de Foucault (1988), por exemplo, um complô “completamente falso”, forjado por um grupo de amigos aventureiros, termina de forma catastrófica. No romance intitulado Baudolino (2000), o personagem principal, que dá nome ao livro, pode-se dizer que é um mentiroso “mor”, pois mente tanto, que chega a acreditar em suas próprias falsidades.
            No seu instrutivo Confissões de Um Jovem Romancista (2011), Eco estabelece uma conversa com seu leitor, destrinchando aspectos cruciais de sua escrita, além de dissipar interpretações parcas de seus escritos. Ele deixa claro seu interesse pelo tema da falsidade. Seus romances sempre relacionam acontecimentos, datas, locais e personalidades verdadeiras, com pitadas de fantasia e falsidade. O resultado sempre é impressionante, pois as fronteiras entre realidade e falsidade, verdade e mentira, vida e fantasia desaparecem. 
          No seu último romance, O Cemitério de Praga (2010), Eco reúne personalidades do quilate de Sigmund Freud, Garibaldi, satanistas, documentos falsos do caso Dreyfus, e a formação dos Protocolos dos Sábios do Sião, assunto que nos interessa nessa reflexão.
        Basicamente, os Protocolos contam a história de um suposto complô Judaico para dominar o mundo. A questão é que este documento moveu montanhas, contribuindo em partes, para fundamentar posturas antissemitas. Esta obra serviu, tempos depois de seu aparecimento, de inspiração para Adolf Hitler desenvolver, juntamente com os nazistas, seu plano de manutenção do arianismo, além do aniquilamento das raças tidas como inferiores.
            Os Protocolos são considerados a maior farsa construída nos anos finais do séc. XIX e início do séc. XX. O Jornal The Times de Londres, em 1921, publicou um artigo que provava a farsa por trás dos Protocolos. Tais Protocolos são cópia grotesca do livro; Dialogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, de autoria do satirista francês, Maurice Joly.
           Em seu panfleto, Joly forja um diálogo entre Maquiavel, posto como aquele que defende a força, e Montesquieu, o defensor da lei, no inferno. Sua intenção era atacar as atitudes imperialistas assumidas por Napoleão III, o qual na opinião de Joly, estava “...destruindo de alto a baixo todas as liberdades públicas” [2]. O livro foi um sucesso. A polícia do império descobriu a autoria do panfleto, prendeu, julgou e condenou Joly a prisão. Tempos depois, ao sair da prisão, acabou cometendo suicídio, sem chegar a tomar partido da fraude que seu livro seria envolvido.
            Os Protocolos foram um documento encomendado pela polícia Russa

Em 1905 foi publicado na Rússia, sob os auspícios da polícia secreta do czar Nicolau II, um livro apresentando como um conjunto de atas que relatavam reuniões secretas dos sábios judeus, as quais revelavam um plano para dominar o mundo (JOLY, 2009, p.12).

            Amplamente reconhecida à farsa por trás dos Protocolos, mesmo assim, Hitler em seu Mein Kampf afirmava;

Como a existência desse povo se baseia em uma mentira contínua fica claro pelos famosos Protocolos dos Sábios do Sião. Eles se baseiam em uma falsificação, choraminga a cada semana a Frankfurter Zeitung: e nisso está a melhor prova de que são verdadeiros... Quando este livro se tornar patrimônio comum de todo o povo, o perigo judaico poderá ser considerado eliminado (ECO, 2010, p. 478).

Edição alemã de Minha Luta.
Fonte: Web
       Percebemos que não está em jogo se o documento é verdadeiro ou não, mas que ele fala de um plano que é verdadeiro. Para Hitler, seu conteúdo é verdadeiro, mesmo que lhe provem que é falso. Não importa que seja uma falsificação, mas, que fale de um complô dos judeus para dominar o mundo. Isso sob qualquer suspeita é verdadeiro, sendo assim, os Protocolos são verdadeiros. Quando este documento tornar-se um patrimônio comum do povo, leia-se povo alemão ariano, o perigo judaico estará sepultado. 
      Will Eisner (1917-2005), um grande desenhista, que produziu histórias em quadrinhos magníficas, dedicou mais de vinte anos de pesquisa sobre o assunto. Disso, fez um livro[3] focado nos indivíduos envolvidos na produção dessa farsa. Seus quadrinhos sempre tiveram um compromisso social e este, contribui de forma imensurável para informar uma população mais geral, sobre esta grande farsa. Eisner conta a história completa, de uma maneira descontraída e fundamentado nos mais recentes estudos.
      Este assunto está longe de ser esgotado, pois contínua a fundamentar posturas antissemitas pelo resto do mundo. A venda dos Protocolos é proibida mundialmente, entretanto, são facilmente encontrados em sebos e pela internet [4]. Cabe ressaltar que o aspecto mais extraordinário é a recepção e a crença das pessoas nesse panfleto. São inúmeros também, os textos pela internet propondo-se a provar a veracidade dos Protocolos.
O que faltou a Hitler quando relatou sobre esta farsa, além de ser o que alimenta os crentes nessa história, talhada a sufocamento e escrita com sangue alheio, foi a honestidade intelectual, ou seja, aquela mesma que reconhece o outro enquanto ser. A desonestidade marcou a produção dos protocolos, escreveu as linhas de Hitler e contínua a viver como verme na mente dos desavisados. Lembrar é uma forma de resistir às adversidades, além de ser uma válvula interessante de denúncia. Como alerta fica o seguinte; esta farsa move montanhas, mas não são fantasiosas, ou como eram as de caráter mitológico. Trata-se de montanhas de cadáveres humanos, os quais não souberam e continuam não sabendo, ao menos, o porquê estavam sendo massacrados.

Referências

ECO, Umberto. O Cemitério de Praga. Tradução de Joana Angélica d’Avila. 4ª ed. Rio de Janeiro, 2011.

__________. Confissões de um Jovem Romancista. Tradução de Marcelo Pen. São Paulo; Cosac Naify, 2013.

EISNER, Will. O Complô – História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião. Tradução de André Conti. São Paulo; Quadrinhos na Cia, 2010.

JOLY, Maurice. Dialogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu ou a política de Maquiavel no século XIX, por um contemporâneo. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo; Unesp, 2009. (Coleção Pequenos Frascos).

ROSENFELD, Anatol. Mistificações Literárias – Os Protocolos dos Sábios do Sião. São Paulo; Perspectiva, 2011. (Coleção Elos).

           
Notas:
[1] Umberto Eco nasceu em Alexandria em 1932. Professor de Semiótica, leciona atualmente na universidade de Bolonha, e é reconhecido como um dos maiores escritores e pensadores vivos. Estrou na ficção com O Nome da Rosa, seguido por O Pêndulo de Foucault, A Ilha do dia Anterior, Baudolino, A Misteriosa Chama da Rainha Loana e por último, O Cemitério de Praga. Entre seus trabalhos de filosofia, crítica literária e semiótica, destacam-se Obra Aberta, Apocalipticos e Integrados, Kant e o Ornitorrinco. Também escreveu os livros de ensaios Cinco Escritos Morais, um dialogo com o cardeal Carlo Maria Martini, intitulado Em que creem os que não creem?, e mais recentemente Confissões de um Jovem Romancista. Organizou os livros História da Beleza, História da Feiura e A Vertigem das Listas.

[2] JOLY, Maurice. Sons passe, son programme. Paris, Lacroix, 1870.

[3] Trata-se do livro; O Complô – A História secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião. O livro possui introdução de Umberto Eco e é publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras. Aos interessados, possuímos o arquivo do livro em PDF e podemos repassá-lo. Basta enviar um e-mail ao blog; www.reflexaodialogada@yahoo.com.br, solicitando o arquivo.

[4] No site Estante Virtual, site que reúne sebos de todo o Brasil, há inúmeros anúncios de venda do livro, como é possível conferir no link: http://www.estantevirtual.com.br/q/protocolos-dos-sabios-do-siao  (Acesso: 08/04/2014, as 09:48). Os Protocolos também estão disponíveis na integra no seguinte endereço: http://www.scriptaetveritas.com.br/maconaria/livros/misterio/Os_Protocolos_dos_Sabios_de_Siao.pdf  (Acesso: 08/04/2014, as 09:48). 

3 comentários :

PROF. EDINEI M. GRISON disse...

Maravilha de reflexão.

Acredito na transparência e na nudez da verdade recentes que desconstroem os complôs e diferentes acordos que balizaram o poder autoritário no comando do globo.

Parabéns.

oseias Maques Padilha disse...

Parabéns Everton! Eu tenho pouco domínio no assunto, mas seu artigo me despertou o interesse de retomar a leitura do cemitério de Praga de Umberto Eco. Como já disse anteriormente, considero este autor um dos maiores iconoclastas da nossa época.

Everton Marcos Grison disse...

Este assunto infelizmente não faz parte do conhecimento coletivo. Muitas pessoas não fazem ideia desse complô. Muitos livros de história negligenciam este acontecimento. Muitos professores desconhecem isso. O livro do Umberto Eco é muito preciso. Todos os nomes e fatos que relacionam os Protocolos dos Sábios do Sião são verdadeiros. Exitem também outros artigos do Eco tratando do assunto dos Protocolos dos Sábios do Sião. O conhecimento desse assunto não é apenas uma honestidade histórica, mas uma forma de dissipar as falsidades que escravizam e martirizam pessoas.