3 de março de 2014

Muito além dos muros: um ataque totalitário

Por: Everton Marcos Grison

         O que motiva esta reflexão é o choque causado pela pichação que ocorreu no muralismo, que está exposto na parede do Diretório Central dos Estudantes (DCE), da UFPR, em Curitiba. Mais do que um símbolo do nazismo, significa um ato de intolerância e violência.
       
 O totalitarismo é concebido como regime pautado no fim da liberdade, nos mais variados ambitos, além da crença cega em um ideal de domínio global. No celebre livro: Origens do Totalitarismo; antissemitismo, imperialismo, totalitarismo (1950), Hannah Arendt alerta que

a tentativa totalitária da conquista global e do domínio total constitui a resposta destrutiva encontrada para todos os impasses. Mas a vitória totalitária pode coincidir com a destruição da humanidade, pois, onde quer que tenha imperado, minou a essência do homem (2012, p. 13).

            Temos, assim, uma postulação do problema: o totalitarismo instala-se como um vírus na essência do homem, impedindo-lhe de pensar, negando os processos contraditórios inerentes ao ser humano, enquanto alguém em constante construção. Significa uma absolutização da homogeneidade.
      O grande segredo da eficácia de um governo totalitário consiste no grau de convencimento de seu ministério de propaganda. Porém, o mais importante é fazer com que os escravos aceitem a servidão por conta própria, sem perceberem que estão sendo submetidos.
            Vinte e dois anos antes de Origens do Totalitarismo, Aldous Huxley trazia a público seu Admirável Mundo Novo (1932). Um livro que possui relevância considerável, paralelo ao debate do totalitarismo, e que desenvolve uma crítica mordaz ao domínio estatal totalitário.
            No contexto de Admirável Mundo Novo, acusado injustamente pela crítica de ser um livro fatalista, os condicionamentos possuíam uma função econômica muito precisa; fazer com que os condicionados consumissem algum bem de produção, colaborando com a economia. Entretanto, o Estado, gerava o condicionamento, além das necessidades a serem supridas e por fim, distribuía os meios para que estas necessidades fossem sanadas.
        O Estado, representado pelo seu grande líder, adentrava à vida familiar, escolar, universitária, religiosa e individual. O pretexto era o controle econômico, mas o desejo era o indivíduo. Tanto a massa, quanto o indivíduo enquanto ser pensante são manipulados e dominados. Como diz Huxley; “... o condicionamento sem palavras é grosseiro e genérico; é incapaz de fazer aprender as distinções mais sutis, de inculcar as formas de comportamento mais complexas. Para isso é preciso palavras, mas palavras sem explicação racional...” (p. 63).
            O condicionamento chega a tal ponto, que as crianças, vestidas de cáqui, gêmeas, ou seja, todas iguais a um, eram condicionadas para a morte. O que significa matar muitos se eles aparentam apenas um? A necessidade da manutenção da organização é importante, pois no desenvolver de cada etapa de condicionamento, na concretização aniquiladora da identidade individualizada; todos são um, e assim quantos morrerem não é mais um problema, para quem abre o cadafalso.
         Desta maneira, o domínio se dá no macro e no micro; na multidão e no interior do indivíduo. Certa vez Hitler foi “perguntado[1]”, por que era contra as massas. Sua resposta foi; “Tudo aquilo que existe de verdadeiramente grande neste mundo resultou da vitória de um vencedor único e não das lutas de coligações”. A fé e a obediência na autoridade indiscutível do chefe (Führer significa grande líder) é a ordem e a regra.
          Na busca da compreensão deste fenômeno, como as manifestações antigas e as cotidianas, a voz de Arendt é inestimável, pois compreender significa

... examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós – sem negar sua existência, nem vergar humildemente ao seu peso. Compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela – qualquer que seja (2012, p. 12).

  Por que refletir sobre o totalitarismo atualmente? Qual a relevância desse assunto? Existem realmente manifestações totalitárias? O ato descrito pode ser encarado como totalitário? É mais do que necessário o debate, pois algo que “parece sepultado”, está cheio de vida. A atitude de passividade naturaliza e contribui para que a violência continue. A denúncia, a resistência, são instrumentos poderosos para não sermos surpreendidos por algo que além das paredes, está diante de nós.


Referências

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo; antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo; Companhia de Bolso, 2012.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Tradução de Lino Valandro e Vidal Serrano. São Paulo; Globo de Bolso, 2009.

__________. Regresso ao Admirável Mundo Novo. Tradução de Rogério Fernandes. Lisboa, Livros do Brasil, s/d.




[1] Em verdade esta entrevista não ocorreu de fato. Leandro Konder, destacado intelectual brasileiro, formulou uma suposta entrevista com Mussolini e Hitler. De inverdade, apenas suas perguntas, pois as respostas dadas pelos dois foram todas retiradas de seus discursos, artigos ou livros. A entrevista na integra encontra-se no link: http://www.consciencia.net/2005/mes/08/hitler-mussolini.html (Acessado em 27/02/2014, as 13:38). 

2 comentários :

Alexandre luis santos disse...

Enquanto isso, do outro lado do mundo...




http://www.nacion.com/mundo/Detengan-Putin-Blanca-Rusia-Ucrania_LNCIMA20140306_0169_27.jpg


http://imgsapp.diariodepernambuco.com.br/app/noticia_127983242361/2014/03/10/493207/20140310095656568501i.jpg

oseias Maques Padilha disse...

A corja, não dá valor ao que tem. Vandalizar patrimônio público é uma contradição, sai do nosso bolso os recurso para que eles sejam feitos.