11 de março de 2014

Falta Filosofia neste governo!

Por: Jonas J. Berra 

Manifestação em frente ao Colégio Isolda Schmid 
de Curitiba no dia 27 de fevereiro.
              É só ligar a televisão ou procurar na internet a afirmação “Governo fecha salas de aula no Paraná” ou algo como “Alunos protestam contra fechamento de turmas no Paraná”, que se poderá encontrar uma vasta literatura de comentários críticos em relação ao fato. Trata-se de um problema que vai muito além de uma ideologia política[1].

          Não, apesar de estarmos falando do Paraná isso não acontece só aqui, ainda que tenha se tornado uma prática banal do atual governo. Não é comum, pois não pode ser aceito como normal. Para a filósofa Hannah Arendt (Apud MORAES; BIGNOTTO, 2001, p.144)[2], “existe uma diferença fundamental: lugar-comum é o que acontece frequentemente, o que acontece comumente, porém algo pode ser banal mesmo sem ser comum”.
            Mas além de ser uma banalidade, o fechamento das salas de aula é algo absurdo para quem compreende minimamente a importância da educação ao longo da história e como foi difícil termos escolas públicas no Brasil e em grande parte do mundo. Poderíamos demonstrar através da história da educação todos os percalços vividos pela humanidade para termos locais públicos de socialização do saber, mas ao invés disso gostaríamos de mencionar brevemente alguns pontos chaves da história da filosofia e da reflexão filosófica em geral, que nos permitem compreender parte da gravidade que é o fato de termos salas de aulas sendo fechadas no estado do Paraná.
            Observa-se que ao longo da história da filosofia podemos encontrar vários pensadores que acreditavam na popularização do saber, que tentavam aos poucos levar os seus interlocutores ao desenvolvimento de uma racionalidade crítica e criativa. Na antiguidade é ilustre a figura de Sócrates, que dialogava com os jovens pelas ruas da polis provocando-os a questionar a autoridade dos que se diziam conhecedores da verdade. Tornou-se o símbolo do “Filósofo ideal”[3]. Na modernidade, Kant foi um grande representante do chamado Iluminismo, enfatizando a importância da busca do conhecimento verdadeiro, do racionalismo no processo de aquisição desse conhecimento e defendendo, do ponto de vista político, a paz mundial. O fundamento dessa paz mundial seria o esclarecimento, que “é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo” (KANT, 1974, p. 100). A educação seria um forte meio de colaborar com a ampliação da capacidade dos jovens de pensarem por si mesmos, todos colaborando com a construção de um mundo melhor.
       No mundo contemporâneo Theodor Adorno foi um filósofo que tinha especial preocupação com assuntos relacionados à influência de uma boa educação na construção da sociedade. Um exemplo de como devemos nos preocupar com o tipo de educação recebida pelos jovens é a ênfase com que Adorno dá a entender que nunca devemos nos esquecer de Auschwitz[4], e que cabe à educação impedi-la de se repetir (1995, p. 117). Portanto, a educação tem um papel crucial de resistência. Educar-se significa resistir frente às adversidades, como, por exemplo, a possibilidade de haver uma nova Auschwitz caso os seres humanos esqueçam o terror e o sofrimento que a primeira representou.
Será que o governo quer chegar a isso?
(fonte: Crónicas do Homer)
            Se a educação tem essa capacidade de, quem sabe, ser um meio de resistência aos terrores absurdos do passado, ela pode ser a justificativa fundamental de não podermos, sob hipótese alguma, aceitar o fechamento de salas de aula em pleno funcionamento. Não devemos nos posicionar filosoficamente contra uma imposição, sendo capazes de denunciar e debater esse problema? Afinal, quais seriam os verdadeiros pressupostos e justificativas do governo, para fechar as salas de aula? O que estaria por trás deste fechamento? Como ficam as pessoas prejudicadas com o fechamento? Qual a real relação entre o fechamento das salas de aula e o orçamento do governo do estado? Falta realmente dinheiro, ou é mal gerido?
           
             Só pode estar faltando Filosofia neste governo!




[1] Não importa qual a posição política que tenhamos, pois mesmo quem é do PSDB poderá ter razões para não concordar com o fechamento das salas provocado por este governo. Uma das razões poderia ser o fato de não devermos prejudicar a educação por causa de um problema econômico de todo um governo. Para lembrar, é interessante ler: http://www.brasil247.com/pt/247/parana247/131407/Richa-quer-fechamento-de-salas-em-escolas-p%C3%BAblicas.htm.
[2] Não consegui encontrar a citação direta da autora, mas a obra citada contém uma série de reflexões e diálogos em que Arendt participou diretamente.
[3] Essa menção a Sócrates é bastante comum para a maioria dos estudantes de filosofia, pois o filósofo é quase sempre apresentado como um grande Sábio que sofreu uma condenação injusta. O site Terra tem um pequeno artigo a respeito dessa questão do “Filósofo Ideial”: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/filosofia3.htm.
[4] Auschwitz era um campo de concentração para onde Hitler enviava os judeus como escravos e onde seriam assassinados nas câmaras de gás.

Referências:

ADORNO, Theodor W. Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

CARVALHO, Alonso Bezerra de. A Filosofia da Educação Kantiana: Educar Para a Liberdade. São Paulo: Unesp, s/a. Disponível em: 

KANT, Immanuel. Textos Seletos. Petrópolis: Vozes, 1974.

MORAES, Eduardo Jardim; BIRGNOTTO, Newton (Orgs.). Hannah Arendt: diálogos, reflexes, memórias. Belo Horizonte: UFMG, 2001.


Outras referências da internet:

Vídeo:


APP Sindicato:

2 comentários :

Alexandre luis santos disse...

Exemplo vergonhoso de administração do governo paranaense... Isso é Brasil!!

Prof. Jonas J. Berra disse...

Você tem razão Alexandre. E se esse tipo de gente governasse o país, estaríamos ainda piores do que estamos.