20 de janeiro de 2014

NIETZSCHE: O TRABALHO ENQUANTO ASCESE E ANULAÇÃO DA PESSOA

         
Por: Oséias Marques Padilha 

Cena do filme Tempos Modernos,de Charlie Chaplin
Vicejava na Europa do século XIX, o frenesi característico da cultura capitalista sob o eco de Benjamim Franklin “Lembra – te que tempo é dinheiro”. Cada vez mais intenso no cotidiano do homem europeu, Nietzsche vê este legado americano surgir como um imperativo ascético, trazendo não o progresso, mas antes um retrocesso à vida, em razão de avaliá-la tão somente sob a perspectiva da economia. 
Diante disso, em Humano Demasiado Humano o filósofo alemão afirma que “Todos os homens se dividem, em todos os tempos, e também hoje, em escravos e livres, pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito.” (NIETZSCHE, 2000, pag.191).


Numa época em que ainda se comemorava a abolição da escravidão, uma das maiores conquistas propiciadas pelo iluminismo, ter uma profissão, afirmava a dignidade do indivíduo perante a sociedade. Porém para Nietzsche, a inquietude presente no homem de negócios, a demonização do ócio e do pensamento, cada vez mais presente em seu tempo, significava a instauração de uma escravidão regulamentada e generalizada, uma vez que já não se restringia a uma determinada etnia.
Assim, para o pensador de Röcken, em um tempo que os homens “pensam com o relógio”, “não estar fazendo nada” pode resultar na perda de algo. Nietzsche chega ainda a enfatizar no aforismo 329 de A Gaia Ciência que “a reflexão demorada quase produz remorso” naqueles que foram inoculados pela ânsia mórbida da representatividade profissional e material. Ser “prático”, ter ambições, e não ocupar-se com “abstrações” eram “virtudes” que por sua vez, caracterizavam o “homo oeconomicus” moderno.
Contemporâneo de Nietzsche, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) também se ocupou com o problema do trabalho e do capitalismo moderno. Na obra intitulada de A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo, Weber afirma que este estilo de vida, resultante de um processo de racionalização dos princípios constitutivos da ética protestante, sobretudo no que diz respeito ao calvinismo e algumas seitas puritanas, colocaram “o ser humano em função do ganho como finalidade da vida, não mais o ganho em função do ser humano como meio destinado a satisfazer suas necessidades materiais.”(WEBER, 2009, pag.46).
Embora o escopo da análise weberiana não tenha sido a de interpretar o capitalismo moderno sob um prisma moral, ela nos remete às criticas de Nietzsche ao trabalho compulsivo. Nietzsche não nega a importância do trabalho profissional, no entanto, fazer dele o centro de gravidade da vida, é cair novamente nas malhas da escravidão ascética, quando se tenta atribuir à vida um sentido que não seja ela mesma.
No aforismo 173 de Aurora, Nietzsche chega a dizer, que as longas jornadas as quais os trabalhadores se submetem, cooperam antes de tudo para a domesticação do ser humano e “que trabalho é a melhor polícia, que ele detém as rédeas de cada um e sabe impedir o desenvolvimento da razão, dos anseios, do gosto pela independência. Pois ele despende muita energia nervosa, subtraindo a reflexão, a ruminação, aos sonhos, as preocupações, ao amor,ao ódio;”(Nietzsche, 2008, pag.126).
A atualidade dos diagnósticos de Nietzsche parece ganhar mais intensidade na medida em que nos distanciamos de seu tempo. Afinal, o cansaço do homem consigo mesmo e com a vida, refletido na neurose da bolsa de valores, no imediatismo e no utilitarismo do século XIX, eram ainda efeitos prodômicos de uma mixórdia ainda mais superlativa na qual, o homem do século XX e XXI estaria enredado, situação da qual somos vivas testemunhas.
Nietzsche, só foi um de muitos pensadores que perceberam a necessidade de repensar o trabalho. Mesmo não sendo o único a “ir contra a corrente”, ainda vemos perdurar esta carência na nossa sociedade. Falando em termos de educação, por exemplo, a finalidade desta se reduziu a formar profissionais, não indivíduos, evidenciando que a preocupação com o fazer vem antes do ser.
Assim, a máxima “Lembra – te que tempo é dinheiro”, pode implicar no esquecimento de que acima de tudo somos pessoa. Diante desta barbárie, Nietzsche faz o seguinte questionamento: “ter um preço pelo qual não se é mais pessoa, mas engrenagem! Serão vocês cúmplices da atual loucura das nações, que querem sobretudo, produzir o máximo possível e tornar-se o mais ricas possível?” ( NIETZSCHE, 2008, pag.151). Cabe ao homem contemporâneo, ou seja, a nós respondermos esta pergunta.

Bibliografia

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Trad. Paulo Cezar de Souza. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano Demasiado Humano. Trad. Paulo Cezar de Souza. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich. Aurora. Trad. Paulo Cezar de Souza. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2008.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo. Trad. José Marcos Mariani de Macedo. Revisão Téc. Antônio Flávio Pierucci. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2013.

Nenhum comentário :