13 de agosto de 2013

Cidades Rebeldes: uma cartilha de reflexões

Boitempo Editorial
Por: Everton Marcos Grison 

E assim dizia a música:

"A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu" 
(Daniela Mercury)

          Este é o tom que transparece nas páginas do interessantíssimo livro, saído do forno recentemente intitulado Cidades Rebeldes; passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil
(Boitempo Editorial e Carta Maior). Uma coletânea de artigos que refletem, cada qual sob sua perspectiva, a efervescência dos protestos que vivenciamos em junho e julho passados. 
          O livro, um verdadeiro emaranhado de informações e de questões, composto por 16 artigos, escritos por pessoas das mais variadas formações, possui textos de autores do peso de David Harvey, Ermínia Maricato, Slavo Zizek, entre outros. Traz para as páginas de discussões um artigo escrito pelo Movimento Passe Livre (MPL), que abre o livro e que abriu as portas do que se viu pelo Brasil. Como eles mesmo dizem; "Não começou em Salvador, não vai terminar em São Paulo" (título do artigo do movimento presente no livro). Tomara que assim seja, que as coisas não se diliuam tornando-se um café sem cafeina, uma cerveja sem alcool, como bem apontou Slavo Zizek em seu texto, que fecha o livro. 
          Podemos dizer que um dos temas que perpassa os textos do livro é a apropriação do espaço público. Os espaços públicos, de todos e para todos, mas usados por poucos e servindo a interesses de poucos, foram ocupados mostrando uma multidão de pessoas cansadas, perdidas, revoltadas, com foco, sem saber porque estavam ali, entretanto, eufóricas com a possibilidade de fazer alguma coisa, mesmo que sem saber direito qual coisa seria esta. 
          O momento é muito interessante e fica marcado, não apenas porque reuniu milhões nas ruas, fato inegável. A velha demência midiática, assada nos fornos da ditadura militar, se viu com as calças na mão e teve que abrir mão de uma postura criminalizadora, que rotulou os manifestantes como baderneiros, destruidores. A mídia desconcertada estava no fundo, preocupada com a criminalização dos "destruidores do patrimônio público", pois focando neste assunto, mantinha ao mesmo tempo, intocados os acéfalos deste país, preocupados com seus vinténs, seus carros, seus prédios, seus bancos, vendo tudo de suas fortalezas, relaxados em hidromassagens, enquanto outros estão sufocados em um poço de merda. 
       A mídia não entendeu que o grito não é por centavos, mas sim, por vidas humanas, por homens, mulheres e crianças que conhecem o sol de um jeito e não tem tempo em vida para vê-lo de outro modo, pois estão dentro de ônibus/metrô tempo demais ou, a violência carrega-os antes que tentem qualquer coisa. 
     A discussão é sobre os "Amarildos". Vale mais um prédio depredado ou um homem desaparecido? Os prédios são mais importantes que as pessoas? E a constituição? O eu, o você e o nós? As pessoas não são de ferro e concreto. Em suas veias corre sangue, sua estrutura é óssea e seu corpo é de carne; sagrado. 
     Luta-se pelo chão, pela cidade, pela vida. "...as lutas territoriais não só ampliam como ressignificam as suas perspectivas: a cidade não é só o palco das lutas, mas é também aquilo pelo que se luta" (p. 69). 
          O grito é pela dignidade humana, pelo fim da militarização policial, respingos ainda viventes da ditadura militar. Não se trata questão social com repressão policial. A expressão "caso de polícia", usada pelo ex-presidente Washington Luiz na década de 1920, deve ser suplantada. Questão social é questão humana, que não se trata com armas em punho...   
          As pautas dos manifestantes são muitas e não seguem uma ordem. O movimento é diferente, as ideias são outras e os tempos são outros. Por isso um livro como este cumpre um papel essencial no esclarecimento e na provocação, para que se pense, questione e articule sobre o que aconteceu e poderá ainda acontecer. Não vivemos isso antes e não sabemos para onde tudo isso vai dar, mas como disse Carlos Vainer em um dos textos: "A história nos revisita, nos pisca o olho e nos lembra de que outra cidade é possivel" (p. 40). 
       E sobre o povo que acordou,  basta a reflexão presente no livro de Leonardo Sakamoto; "...o povo não acordou agora. Quem acordou foi uma parte. A outra nunca dormiu - afinal, nem tinha cama para tanto" (p. 99). 

* O livro custa R$: 10,00 (impresso) e R$: 5,00 (ebook). Pode ser encontrado no site da editora Boitempo Editorial, como também nas livrarias Saraiva e Cultura

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