27 de maio de 2013

Guilherme de Ockham


Por: Jonas J. Berra

          Nasceu por volta de 1280, no condado de Surrey, a nordeste de Londres. Ainda muito jovem já tinha interesse pelos estudos de teologia, sendo que em 1307 entrou no convento franciscano de Oxford. Por seguir os regulamentos, passou oito anos estudando filosofia, para depois, por mais quatro anos, comentar as Sentenças de Pedro Lombardo (1095-1160).

          Entre 1315 e 1323, Ockham, ministrou aulas em Oxford, onde se fez bacharel e, mais tarde, com uma série de conferências sobre as Sentenças, já possuía os requisitos necessários para o doutorado. Como as autoridades papais acusavam seu trabalho de ser exageradamente heterodoxo, acabou não conseguindo o título de doutor. Esse parece ter sido um dos fortes motivos que o colocaram contra a ortodoxia papal. Essa oposição, por outro lado, também expõe o embate de duas tendências filosóficas: a empirista inglesa e a racionalista da Europa continental [1].

          Dentre as muitas afirmações de Ockham contra a autoridade papal, pode-se colocar em destaque uma encontrada nas primeiras páginas do livro da coleção Os Pensadores, no capítulo intitulado: Um franciscano rebelde: “assim como Cristo não veio ao mundo a fim de tomar dos homens seus bens e direitos, o vigário de cristo (o papa), que lhe é inferior e de modo algum o iguala em poder, não tem autoridade ou poder para privar os outros de seus bens e direitos”.

          Sua posição crítica em relação à Igreja rendeu-lhe também muita perseguição, inclusive acusações de heresia e a censura de suas obras. Entre 1323 e 1327 compôs a Summa Logicae e o Tractatus de Sacramento Altares. Em 1325 foi confinado no convento franciscano de Avignon, onde permaneceu até 26 de maio de 1328, quando de sua decisão em favor da pobreza evangélica dos franciscanos e sua fuga até a Itália, onde se colocaria sob a proteção de Ludovico, o Bávaro. Essa fuga é a marca de seu afastamento dos estudos de filosofia e teologia, pois a partir de então se interessaria mais por obras de caráter eclesiológico e político.

          Quando chegou a Pisa em 9 de junho de 1328, estava acompanhado por um grupo de fugitivos franciscanos. Logo, funcionários imperiais e o povo o acolheram com festa, mas, ao mesmo tempo, recebeu a excomunhão, que também era dirigida a todos aqueles franciscanos em fuga. A partir daí, as disputas políticas envolvendo as autoridades papais continuaram, durando até a sua morte em 1349 em München. A provável causa, segundo biógrafos, foi a peste negra, que devastou grande parte da Europa.

      Do ponto de vista filosófico, uma das contribuições de Ockham se encontra no desenvolvimento da doutrina sobre os universais [2], cuja natureza ontológica já havia sido relativamente negada por Duns Scot, com sua teoria da estidade. Se Duns Scot elabora com cautela sua negação, Ockham a radicaliza, afirmando que os universais não possuem uma realidade objetiva. Eles existem apenas no intelecto do homem e é algo que ele mesmo produz. O homem pensa em algo como os universais, pois é capaz de imaginá-los, porém, coisas como a palavra ‘rosa’ não passa de sopro de ar. Não existe uma natureza ontológica como roseidade [3] da rosa. Não existe uma ‘rosa’ no mundo das ideias [4] que sirva de modelo para todas as rosas existentes e que possua, por sua própria natureza, o nome de ‘rosa’. Sabemos o que é uma ‘rosa’ porque atribuímos a um ser vivo ou a uma coisa esse nome - nominalismo. Sabemos o que é uma ‘mesa’ porque determinamos que um dado objeto, segundo suas qualidades físicas ou sua função de utilidade, tenha esse nome. 

          Nas palavras de Ockham:
Nada fora da alma, nem por si nem por algo de real ou de racional que lhe seja acrescentado, de qualquer modo que seja considerado e entendido, é universal, pois é tão impossível que algo fora da alma seja de qualquer modo universal (a menos que isso se dê por convenção, como quando se considera universal a palavra ‘homem’, que é particular) quanto é impossível que o homem, segundo qualquer consideração ou qualquer ser, seja asno (apud ABBAGNANO, 2007, p. 836).

          Dentre as principais consequências da nova proposta de Ockham a respeito dos universais, temos o abismo gerado entre o conhecimento dito científico e o domínio do conhecimento religioso. Fé e Razão, neste contexto, começam a se separar radicalmente. A defesa que Ockham faz dessa posição pode ser observada quando ele adere ao movimento político do império, que contrapõe a autoridade temporal do papa (nada infalível como se pensava). 

          Para saber mais sobre esse momento crítico e suas consequências é importante buscar além das obras que se seguem nas referências, outras, que possibilitem uma compreensão mais ampla a respeito do assunto.

Referências de leitura

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

SCOT, Duns. Escritos Filosóficos; OCKHAM, William. Seleção de Obras. São Paulo: Nova Cultural, 1989- OS PENSADORES.

OCKHAM, Guilherme de. Lógica dos Termos. Vol III. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.

STÖRIG, Hans Joachim. História Geral da Filosofia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
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[1] Resumidamente, o Empirismo é uma corrente filosófica que acredita que só se adquire conhecimento verdadeiro através da experiência (a posteriori). Já o Racionalismo parte da concepção de que já temos, em nós, um conhecimento que antecede ao da experiência (as ideias inatas, e/ou conhecimento a priori). Assim, o conhecimento verdadeiro não depende dos dados da experiência, mas da racionalidade que apreende esses dados. 
[2] De um ponto de vista ontológico (de seu fundamento) clássico, o universal é a forma, ideia ou essência de algo que pode ser partilhada por outras coisas, conferindo às coisas seu caráter em comum (ABBAGNANO, 2007, p. 1169). 
[3] Ver filme “O nome da Rosa” de Umberto Eco. 
[4] Ockham é frequentemente acusado de ter cortado as barbas de Platão, pois este defendia uma completa essência das coisas: algo como o ‘cavalo’ ideal, a ‘mesa’ ideal, a ‘árvore’ ideal. Todas essas coisas, que vemos todos os dias, não passariam, para Platão, de cópias do real, encontrado no mundo das ideias. A teoria platônica que chegou até Ockham e sua interpretação, geravam a disputa medieval dos universais.

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