8 de abril de 2013

Jerusalém: um ensaio contra a igualdade negativa

Por : Everton Marcos Grison


Gonçalo M. Tavares
Um romance, melhor, um livro "escrito com sangue", de penetrante discussão filosófica acerca do tempo, da história. Quem lhes organiza? Quais são seus limites? O mal que se vê na história perpassa por todo o tempo? O autor constrói uma narrativa dentro do tempo, falando do tempo e lhe desafiando, indo e voltando, usando-lhe e largando suas possibilidades e afrouxamentos.
          Haverá alguém na história e no tempo que entenda de sanidade? Haverá alguém "são"? Todos são loucos ou, loucos são todos que se acham com plena sanidade?
     
  A forma que a narrativa é conduzida desencadeia uma raiva insana no leitor. Mas esta insanidade é benéfica, pois comprova as palavras de José Saramago ao entregar o prêmio que leva seu nome a Gonçalo M. Tavares; "Jerusalém é um grande livro, que pertence á grande literatura ocidental. Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater" (José Saramago no discurso de atribuição do Prêmio ao romance Jerusalém).  Ou ainda a definição de Fabrício Carpinejar gravada em uma das orelhas do livro de poesias 1, também de Gonçalo M. Tavares; "Gonçalo M. Tavares é um possuído. Em três anos, lançou quatorze livros, entre romances, novelas e poesias. Desconcertou a crítica portuguesa ao demonstrar uma perícia musical e inventiva no trato com a linguagem. Não é possível segurar o rapaz! Um Fernando Pessoa esvaziando o baú antes do necrológico". 
          Acredita-se que ele quer seu leitor assim; raivoso, emputecido, enlouquecido, endiabrado... O que parece ser certo é que a sanidade, palavra celebrada e sinônimo de normalidade, representa um simples sopro de voz, não possui referentes, ou seja, não representa nada. É uma mera grafia vazia.
          Ligada a discussão da sanidade está a reflexão acerca do cativeiro. A medicina de forma indiscriminada, promove um assalto a singularidade de cada indivíduo. Os pacientes são vistos como clientes e o roubo é tão grande, que cada um chega ao ponto de esquecer-se de si próprio. Eles, os médicos, determinam quem é saudável, além de profetizarem quais seriam as suas necessidades. Os pacientes se tornam presas vulneráveis, nas mãos dos doutores que não possuem doutorado e no máximo, podem ser chamados de senhores, como manda a boa educação numa conversa entre desconhecidos.
          Todos vivem em distintos cativeiros, no interior de caixas de comprimidos, afogados em "mls" de substâncias,  esquecidos como monstros que em meio a multidão não são percebidos.
          O livro cultua a memória, atributo indispensável,único, pessoal, que determina toda uma consciência de si. Os médicos não sabem quem são seus pacientes, pois além do mais, nas páginas em que leram, nos estudos que lhes roubaram tempo e nas falas dos professores, todos eram e são iguais.
          Este tipo de igualdade é ruim, pois aniquila aquilo que se tem de mais precioso; a singularidade. O sujeito, conceito complexo e impreciso, é aniquilado igualando todos a um designador comum; "GADO".
          Partir da ideia de que todos são diferentes, no sentido de proteger sua unidade, jamais haverá outro igual a este, parece ser uma alternativa plausível para superar as mais variadas formas de violência, que tornam todos iguais, desprovidos de rosto, corpo, personalidade e vida.
          Nesta igualdade negativa e destrutiva ninguém é pessoa, todos são unica e exclusivamente "GADO", ou seja, suas mortes ou existências não têm a mínima relevância. Representam o dinheiro amassado, posto a força na cavidade do bolso, sem muita importância e com medo paulatino de que se perca ao chão. Se todos são iguais no tempo, na história e em relação aos outros, isso representa uma intenção precisa; a normatização. Todos normais, iguais, loucos de pedra, tempo e história. "GADO".


           Edição Portuguesa: Editora Caminho / Edição Brasileira: Companhia das Letras
Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Em Portugal recebeu vários prêmios, entre os quais, o Prêmio José Saramago 2005 e o Prêmio LER/Millenium BCP 2004, com o romance Jerusalém (Caminho); o Grande Prêmio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores <<Camilo Castelo Branco>> 2007 com Água, cão, cavalo, cabeça (Caminho). Jerusalém foi ainda o romance mais escolhido pelos críticos do jornal Público para <<Livro da Década>>. Prêmios Internacionais: Prêmio Portugal Telecom 2007 (Brasil). Prêmio Internazionale Trieste 2008 (Itália). Prêmio Belgrado Poesia 2009 (Sérvia). Nomeado, na França, para o Prix Cévennes 2009, com Jerusalém, e para os prêmios Femina Étranger 2010 e Médicis 2010, com Aprender a Rezar na Era da Técnica. Estão em curso cerca de 160 traduções dos seus livros, em edições distribuídas por 35 países. 

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