18 de abril de 2013

A Filosofia e alguns percalços da sua popularização como disciplina escolar

Jonas J. Berra [1]

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         Muitos estudantes de Ensino Médio costumam se perguntar: “para que a filosofia?” – E acabam eles mesmos por responder: “pra nada”. No entanto, veremos que existe outro modo de entender a utilidade da filosofia.
Não se trata do que necessariamente aprendemos de conteúdo filosófico (ainda que seja importante estudar a história da filosofia e as teorias dos filósofos), mas à atitude que podemos aprender com ela. Em outras palavras, parece que a filosofia pode ajudar (ela não faz tudo sozinha) a transformar o jeito de ser das pessoas, modificando seu modo de encarar o aprendizado e o próprio conhecimento. Enfim, para bem ou para mal, ajuda a ampliar o modo como a pessoa vê o mundo.
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        Por razões históricas, no Brasil, a filosofia ficou restrita aos estudos teóricos dos pesquisadores das universidades. A Lei nº 4.024/61 extinguiu a obrigatoriedade do ensino de filosofia e com a Lei nº 5.692/71, durante a ditadura, a filosofia foi retirada dos currículos escolares, pois não servia aos interesses políticos, econômicos e ideológicos do período. Inventavam-se, assim, desvantagens para impedir o seu ensino escolar[2]. Até o sociólogo Fernando Henrique Cardoso compartilhou dessa visão ao vetar o projeto de Lei 3.178/97, que reintroduzia no Ensino Médio a filosofia e a sociologia, e que havia sido aprovado na Câmara e no Senado. Isso representou uma ferida na democracia. Apenas recentemente essas disciplinas tornaram-se obrigatórias no país, graças à resolução n.º4, de 16 de agosto de 2006, da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação[3] (CEB/CNE).
         Apesar de ter voltado aos currículos escolares, a filosofia ainda sofre uma série de percalços. Um exemplo é a difusão da opinião de que não acrescenta nada ao conhecimento humano. Não é à toa que é muito comum ouvir estudantes pronunciarem a frase: “A filosofia é uma ciência tal que com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual”[4]. Essa afirmação é importante para situarmos a questão da filosofia como disciplina escolar, pois se isso fosse verdade, toda a luta pelo retorno da filosofia aos ambientes escolares teria sido em vão. Mas essa afirmação é autocontraditória. Existem características básicas que diferenciam a filosofia da ciência que são ignoradas por quem passa adiante essa frase. Além disso, as principais ferramentas conceituais[5] utilizadas nos estudos dessas áreas do saber são diferentes. A filosofia utiliza-se eminentemente da racionalidade, sem necessidade de fazer experiências empíricas, enquanto que a ciência é eminentemente experimental.
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          A afirmação negativa quanto à utilidade da filosofia poderia ser aceita apenas se a filosofia fosse algo totalmente inútil do ponto de vista prático. Assim, as ciências, de modo geral (incluiria a matemática, a física, a química e a biologia, por exemplo), são úteis para fazer descobertas e alterar a realidade física à sua volta, a religião para confortar o espírito, enquanto que a filosofia não teria uma função determinada, capaz de trazer uma efetiva contribuição social. No entanto, isso também se mostra errôneo, pois apesar de, metodologicamente ser possível fazer a separação das áreas do saber, essa separação não é totalizante. Na realidade, existe uma interconexão muito forte entre elas. Em todas as circunstâncias em que as pessoas resolveram colocar a sua racionalidade para funcionar, para ir além do saber dogmático ou convencional, a racionalidade filosófica se mostrou útil na fuga do estado primitivo da ignorância e do senso comum[6] em busca do conhecimento[7]. E isso é perfeitamente possível na matemática, na física, na química e na biologia. Ocorre, porém, que existem temas filosóficos que apenas uma disciplina escolar apropriada pode tratar. Por isso que a filosofia como disciplina, deveria ser mais valorizada do que tem sido.
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          Outro percalço enfrentado na popularização da filosofia como disciplina escolar, pode ser observado no nosso mundo contemporâneo, em que a posição crítica da atitude filosófica, geralmente, para desespero dos empresários capitalistas, pode se colocar contra a força da mídia e do mercado na manipulação das pessoas. Tanto a mídia como o mercado (no seu sentido liberal ou neoliberal), são usados com o intuito de influenciar e controlar a vida das pessoas, para que elas se sintam infelizes com as coisas que possuem e continuem adquirindo sempre mais coisas (objetos de consumo). Para manter o ciclo de consumo, as pessoas precisam de um alto poder de compra, o que parece só ser possível com atividades profissionais elitizadas (obtidas com cursos de medicina, engenharia, direito entre outros). O que isso causa? É desse contexto que, ainda que indiretamente, surge uma espécie de fetiche[8] em torno de determinados cursos universitários, dando a entender que, por exemplo, se tornando advogado, médico ou engenheiro, a pessoa será feliz. Por outro lado, as disciplinas de licenciaturas como a filosofia são consideradas inferiores devido a um ponto de vista econômico[9] neoliberal, para o qual o lucro e o capital levariam a pessoa à verdadeira realização profissional. Com uma licenciatura não haveria benefícios imediatos (e com isso a felicidade) e não haveria status, já que o licenciado ficaria excluído da moda do mundo do trabalho, regida pela competitividade. Esse quadro parece desanimador, mas é real, ainda que difícil de ser medido. Muitos estudantes sentem uma sensação estranha se a filosofia faz parte do vestibular, dada à subjetividade das respostas, que são entendidas, muitas vezes, como mera opinião.

Os percalços apresentados podem ser compreendidos ao menos sob três aspectos[10]:

              1) Político: usa-se a implantação da disciplina na matriz curricular como palanque eleitoral ou, ao contrário, sua possível retirada como ameaça, gerando uma luta interna da classe profissional. Também são criadas leis que efetivamente obrigam as pessoas a terem uma disciplina de conteúdos filosóficos, com conteúdos selecionados, deixando-se outros de fora como se fossem menos importantes. Além disso, muitas vezes, a disciplina escolar é colocada em prática apenas pela sua obrigatoriedade, levando às salas de aula profissionais com pouca qualificação e engessando, por outro lado, a criatividade dos profissionais qualificados.

            2) Econômico: mais relacionado às universidades. Ao mesmo tempo em que há o apelo pela produção filosófica, esse aspecto precisou se enquadrar em um sistema de produção textual, com prazos determinados, reduzindo a qualidade da produção. Além disso, há uma disputa pelas bolsas de pesquisa, de modo que essa disputa acaba influenciando no fenômeno da descaracterização da produção filosófica, denunciado por Susan Haack[11]. Outro fato econômico seria o modo como empresas tem se beneficiado de um mercado editorial, levando à frequente banalização da filosofia[12].

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          3) Social: seria considerar a filosofia, de um lado, como puramente especulativa, não trazendo qualquer relevância social e, por outro, como se fosse a solução para a maior parte dos grandes problemas sociais do país e até da humanidade. Duas posições utópicas. A filosofia como disciplina escolar não deveria ser considerada menos interessante apenas porque não leva a um saber técnico como as disciplinas científicas. Infelizmente a proposta neoliberal de alguns governos tem pensado na diminuição da carga horária de filosofia, enquanto aumenta-se a carga horária de outras disciplinas mais técnicas, tomando-se em conta a capacitação do estudante para o mercado de trabalho e esquecendo-se de sua humanização. Quando pensamos que é importante gerar sujeitos humanizados, não se está desvalorizando as outras disciplinas, mas ressaltando que os conteúdos e temas que a filosofia pode levar à sala de aula podem ser relacionados à reflexão de questões éticas e até psicológicas, ajudando o estudante a ver fatos ou situações de vários ângulos diferentes e ajudando-o no seu amadurecimento intelectual, na sua sensibilidade frente ao mundo e as injustiças e no aprofundamento de uma racionalidade criativa.

     Apesar de haver muitos outros aspectos que não cabem neste texto, é perfeitamente compreensível que existam discordâncias. Nem todos creem que os percalços realmente o sejam da forma como foram apresentados. O objetivo desse texto não é ser exato, mas filosófico, com relação às dificuldades mais básicas enfrentadas no dia a dia do professor de filosofia em meio a uma sociedade de consumo rápido (fast food). 
          Em vista de tudo que foi apresentado é importante ressaltar a utilidade da filosofia como algo que não precisa se submeter aos caprichos do mundo capitalista neoliberal. A própria forma interna da racionalidade filosófica geralmente consegue contribuir significativamente no desenvolvimento da capacidade dos estudantes de analisar o que ocorre no mundo – ajuda no amadurecimento do sujeito, ainda que nunca chegue a um estado definitivo de maturidade. Desse modo, não há como sustentar que a filosofia como disciplina não acrescenta nada ao conhecimento humano. O conhecimento filosófico por si só já é algo que ajuda (não fazendo tudo sozinho) a diminuir o espaço vazio da ignorância. Portanto, um espaço para o ensino de filosofia já foi conquistado, resta agora pensar em um modo de dar sentido a ele, para que não seja novamente perdido. 

NOTAS DO TEXTO


[1] Mestrando em Filosofia pela PUCPR, professor da rede pública do Estado do Paraná, criador e desenvolvedor do blog Reflexão Dialogada. Agradece ao Prof. Everton Marcos Grison por comentários críticos referentes ao assunto.

[2] “Quem sabe seja interessante dar uma visitada nas declarações do José Artur Gianotti, professor muito reconhecido da USP, e totalmente contrário ao ensino de filosofia no ensino médio. Ele diz: ‘para que filosofia no ensino médio? Para a pessoa ter seu diploma e trabalhar de empacotadora no mercado? ’ Uma vez ele esteve na UFPR, infelizmente não pude ir, ocorreu uma discussão muito complexa sobre suas posições, pois ele ajudou a formular o projeto de volta da disciplina aos currículos escolares, e hoje é contra o seu ensino no nível médio. Suas reflexões são atuais. Se não me engano ele publicou um livro ano passado falando disso” (Prof. Everton Marcos Grison ).

[3]ZIMMERMANN, Roque. O sociólogo que vetou a sociologia, s.d. Disponível em: <http://www.consciencia.net/filosofia/padreroque.html>. Acesso em: 20 março 2013.

[4] “Sobre isso é interessante dar uma olhada na apresentação escrita pela Marilena Chauí para a Antologia de Textos Filosóficos. Ela abre seu texto de apresentação com esta frase e discute a “utilidade da filosofia”” (Prof. Everton Marcos Grison). Acrescento a referência à Marilena Chauí, que em um pequeno trecho do texto afirma que “a filosofia foi excluída da grade curricular [no período da ditadura] por ser considerada perigosa para a segurança nacional, ou como se dizia na época, ‘subversiva’” – Prefácio a Antologia de Textos Filosóficos (SEED/PR).

[5]GERHARDT, Tatiana Engel; SILVEIRA, Denise Tolfo [org.]. Métodos de pesquisa. Coordenado pela Universidade Aberta do Brasil – UAB/UFRGS e pelo Curso de Graduação Tecnológica – Planejamento e Gestão para o Desenvolvimento Rural da SEAD/UFRGS. – Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009. Disponível em:<http://www.ufrgs.br/cursopgdr/downloadsSerie/derad005.pdf>. Acesso em: 21 março 2013. Uma ferramenta conceitual pode ser entendida se pensarmos na analogia da pá do pedreiro. O pedreiro a usa para construir. Assim, o estudante de filosofia usa conceitos para construir novos conhecimentos, com um novo sentido para ele próprio.

[6]Ademir José Rosso; José Augusto de Carvalho Mendes Sobrinho. O Senso Comum, a Ciência e o Ensino de Ciências. Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 19, no. 3, setembro, 1997. Disponível em:<http://www.sbfisica.org.br/rbef/pdf/v19_353.pdf>. Acesso em: 21 março 2013.

[7] “Quem sabe seja interessante ressaltar que a filosofia é um admirar-se pelas coisas. Uma busca pelos por quês, os “o quês”. Ela está presente em todas as áreas, pois cada qual da sua maneira desenvolve uma curiosidade, possuem uma admiração por algo e tentam cada uma a sua maneira, conhecer o que está diante de si” (Prof. Everton Marcos Grison).

[8] O conceito de Fetiche é trabalhado por Enrique Dussel relacionado ao poder político em sua obra 20 Teses de Política (Ed. Expressão Popular, 2007). No entanto é perfeitamente fácil relacioná-lo ao problema da preferencia por certos cursos Universitários de nossa sociedade ocidental contemporânea.

[9]CONSAE. Licenciaturas. É o fim delas? O que o MEC fez no passado? Por que o MEC e o CNE consentem na permanência do programa instituído pela resolução CNE 2/1997? O que o MEC vem fazendo? Consae, 2010. Disponível em: <http://www.cursosconsae.com.br/SIC/SIC2710.pdf>.Acesso em: 20 março 2013.

[10] “Outro percalço é o distanciamento existência entre a universidade e a escola pública. Deveríamos efetivamente parar com a ideia de que na universidade se pesquisa, enquanto que na escola pública se ensina” (Prof. Everton Marcos Grison).

[11]HAACK, Susan. Manifesto de Uma Moderada Apaixonada: Ensaios Contra a Moda Irracionalista. Loyola/SP; PUC/RJ, 2011. Em seu livro, Haack explica como a pesquisa científica atual no campo da filosofia tem sido descaracterizada, tornando-se produção literária, desvinculada da busca pela verdade. Escreve-se texto literário, mas usa-se o nome de texto científico.

[12]SANCHES, Tatiana Amendola. Filosofia pop: o fenômeno da popularização da filosofia e suas relações com a cultura midiática. Revista Mediação. Vol. 13, Nº 13 - julho/dezembro de 2011. Disponível em: <http://www.fumec.br/revistas/index.php/mediacao/article/view/547/pdf>. Acesso em: 18 março 2013.

REFERÊNCIAS DE LEITURA

CONSAE. Licenciaturas. É o fim delas? O que o MEC fez no passado? Por que o MEC e o CNE consentem na permanência do programa instituído pela resolução CNE 2/1997? O que o MEC vem fazendo? Consae, 2010. Disponível em:<http://www.cursosconsae.com.br/SIC/SIC2710.pdf>. Acesso em: 10 março 2013.

DUSSEL, Enrique. 20 teses de política. Buenos Aires: Consejo Latino americano de Ciencias Sociales – CLACSO; São Paulo: Expressão Popular, 2007.

FURTADO, Celso. O Mito do Desenvolvimento Econômico. Paz e Terra, 1996.

GERHARDT, Tatiana Engel; SILVEIRA, Denise Tolfo [org.]. Métodos de pesquisa. Coordenado pela Universidade Aberta do Brasil – UAB/UFRGS e pelo Curso de Graduação Tecnológica – Planejamento e Gestão para o Desenvolvimento Rural da SEAD/UFRGS. – Porto Alegre: Editora da UFRGS,
2009. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/cursopgdr/downloadsSerie/derad005.pdf>. Acesso em: 18 março 2013.

HAACK, Susan. Manifesto de Uma Moderada Apaixonada: Ensaios Contra a Moda Irracionalista. Loyola/SP; PUC/RJ, 2011.

HERRERO, Emílio. A descoberta do mercado universitário. Universia, 2005. Disponível em: <http://noticias.universia.com.br/destaque/noticia/2005/04/20/484847/descoberta-do-mercado-universitario.html>. Acesso em: 20 março 2013.

JORGE, Nuno Santos. Lógicas da procura dos cursos de Medicina em Portugal, s.d. Disponível em: <http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR462de6b58d9d7_1.PDF>.Acesso em: 20 março 2013.

MILLER, Daniel. Consumo como cultura material. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 13, n. 28, p. 33-63, jul./dez. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ha/v13n28/a03v1328.pdf>. Acesso em: 18 março 2013.

SANCHES, Tatiana Amendola. Filosofia pop:o fenômeno da popularização dafilosofia e suas relações com acultura midiática. Revista Mediação. Vol. 13, Nº 13 - julho/dezembro de 2011. Disponível em: <http://www.fumec.br/revistas/index.php/mediacao/article/view/547/pdf>. Acesso em: 18 março 2013.

ZIMMERMANN, Roque. O sociólogo que vetou a sociologia,s.d.Disponível em:<http://www.consciencia.net/filosofia/padreroque.html>.Acesso em: 20 março 2013.

ROSSO, Ademir José; SOBRINHO, José Augusto de Carvalho Mendes. O Senso Comum, a Ciência e o Ensino de Ciências.Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 19, no. 3, setembro, 1997. Disponível em: . Acesso em: 18 março 2013.

6 comentários :

Everton Marcos Grison disse...

Muito interessante a reflexão. A filosofia é um problema e causa problemas, pois dinamita uma "buRRocratização" persistente que solapa as formas de reflexão aprofundadas. O sinônimo vigente é "raso", no sentido literal; ser "raso" significa estar integrado. A filosofia parte de uma reflexão que questiona a si própria, investigando acerca do mundo e de si. Que disciplina o faz? Quem se pergunta; para que isso? Desta maneira, ela promove um desajuste necessário em uma sociedade conformada; "...desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial..." (Renato Russo). Ela possui compromisso humano e social, diferentemente de muitas áreas que são organizadas unica e exclusivamente, em nome do capital. A filosofia é um mal necessário, pois desperta a CURIOSIDADE. Se as coisas continuarem como andam, em pouco tempo, ser curioso será considerado crime. A filosofia é uma criminosa que rouba a ignorância e apresenta outras realidades...

Jonas J. Berra disse...

Ótimo comentário Everton! Obrigado novamente pela ajuda e pelas críticas feitas durante a produção do texto!

José Galisi Filho disse...

De maneira paradoxal e irônica, Jonas, diante da impossibilidade objetiva de reunificar as fraturas epistêmicas das antigas esferas do conhecimento, que a "Great Science" do século passado levou até as últimas consequências, fundindo tecnologia e poder de destruição total e absoluto da espécie no complexo "industrial-militar", o último refúgio da filosofia e do resgate mimético do "não-idêntico" seu seria a forma do ensaio: "Pensar é anticientífico" Adorno ("Mínima Morália" 80). Eis o "diagnóstico". Mas quem disse que a universidade aceita o ensaio como uma forma "profissional". Que Departamento poderia argumentar com a CAPES e seus critérios lineares de ranking que ela, a CAPES mesma não é "científica", não é verdade

"Diagnóstico. — A harmonia preestabelecida que existe entre as instituições e aqueles que estão a seu serviço mostra bem que o mundo se tornou entrementes aquele sistema, que os nacional-socialistas injustamente insultavam na relaxada República de Weimar. Silenciosamente, veio crescendo toda uma humanidade ávida pela absurda persistência da dominação. Contudo aqueles homens, favorecidos pela organização objetiva, apoderaram-se aos poucos das funções que, de direito, deveriam representar a dissonância contra a harmonia preestabelecida. Entre os provérbios invalidados encontra-se o que diz: “Toda pressão produz uma pressão contrária”: se a primeira é grande o bastante, a segunda desaparece, e a sociedade parece — com o mortal equilíbrio das tensões
—querer antecipar-se consideravelmente à entropia. A empresa da ciência possui sua contrapartida exata na espécie de mentalidade que ela aciona: eles não precisam mais infligir-se nenhuma violência para dar provas de que são os controladores voluntários e zelosos de si mesmos. Mesmo quando se mostram, fora da empresa, como seres bastante humanos e racionais, ficam paralisados numa estupidez pática no instante mesmo em que se põem a pensar de maneira profissional. Mas, longe de sentir alguma hostilidade nas proibições de pensar, os candidatos a posições — e todos os cientistas são tais candidatos — sentem-se aliviados. Posto que o pensar lhes impõem uma responsabilidade subjetiva, que sua posição objetiva no processo de produção lhes impede de assumir, renunciam ao pensamento, encolhem os ombros e passam para o lado do adversário. Logo, a má vontade de pensar transforma-se na incapacidade de pensar: as pessoas que encontram sem dificuldade as mais refinadas objeções estatísticas, quando se trata de sabotar um conhecimento, são incapazes de fazer ex cathedra as mais simples previsões concretas. Elas agridem a especulação e matam nela o bom senso. As mais inteligentes pressentem o adoecimento de suas faculdades intelectuais, porque a doença não se manifesta, de início, em todos os órgãos, mas só naqueles cujos serviços elas vendem. Algumas esperam ainda, cheias de medo e vergonha, serem convencidas de seu defeito. Mas todas descobrem que ele foi publicamente elevado a um mérito moral e vêem-se reconhecidas por uma ascese científica que a seus olhos não é nenhuma, mas sim a linha oculta de sua fraqueza. Seu ressentimento é socialmente racionalizado na seguinte formulação: pensar é anticientífico. E, no entanto, sua força espiritual foi intensificada ao extremo em várias dimensões pelo mecanismo de controle. A estupidez coletiva dos técnicos da pesquisa não é a simples ausência ou regressão das facul¬dades intelectuais, e sim uma proliferação destas mesmas faculdades, que devora com sua própria força o pensamento. A maldade masoquista dos jovens intelectuais decorre da malignidade da doença de que padecem."

José Galisi Filho disse...

Apenas como um adendo, segue o fragmento de uma entrevista "imaginária" com Hans Magnus Enzensberger, montada por Rainer Stollmann com passagens textuais de depoimentos de várias épocas:

TSH: Adorno said: 'Thinking is unscientific'.

HME: There you have it! Obviously I am not the first and certainly not the only one who has noticed that. The point is to see connections. I have done nothing but to describe as precisely as I could what appeared to me was a new connection. Contrary to opinions voiced elsewhere I continue to value and to read Marx. However, one has to confront the problem that the great achievement of his work also provides the legitimation for the Gulag. Without the seductive truth of materialism, Stalinism could never have survived for so long. I think this is really tragic. But we cannot simply continue like before; we have to try to protect our thinking against being abused in this way. Benjamin, Adorno and Horkheimer are writing quite different, more 'unscientific' compared to Marx. Today there is no such great theory anymore as in the nineteenth century, and this is not only because of the experience of epigones but also because of this horrible, terroristic transformation of scientific theory into practice. The idea to start again at the beginning, with an essay for example, appears quite plausible to me.

Jonas J. Berra disse...

Concordo com tudo que disse José!!
Obrigado pelos ensinamentos. Você, mais do que todos nós, sabe dos efeitos da burocratização e da banalização do conhecimento reflexivo trazido pela indústria científica, onde a finalidade é desvinculada de uma ética. E, como bem colocaste, o ensaio é a melhor forma de escrever filosofia, enquanto os órgãos de publicação científica querem reproduzir o que há de mais positivo no positivismo e no pragmatismo.

José Galisi Filho disse...

Jonas, o ensaio é sua sentença de morte na hierarquia. Já que você citou a "indústria academica" e a serialização da escrita, o que não significa que ela não deva ser profissionalizada no sentido da inteligibilidade e na ampliação do público de filosofia, no jornalismo, por exemplo, lembre-se de uma citação de Gianotti, de 1986 ("A Universidade em Ritmo de Barbárie", que era originalmente um programa para uma "Reforma" ministerial): "A filosofia pode ser um ganha-pão tão burro como qualquer outro". "Sábios e sabidos" era o slogan do panfleto. Como distinguir a malandragem daquele conhecimento orgânico e real, quando a componente ilusória mesma do mundo faz da Universidade a verdadeira Disneinlândia e o Parque Temámico dos conhecimentos "curriculares" das Secretarias, dos "programas obrigatórios", daquilo que Adorno chamou certa vez de o já "pedagogizado. Afinal de contas, como dizia o Gianotti, há sempre a esperanca de que se aprenda, no fim, fazendo, para responder à sua obervação no início: Para que filosofia, qual é sua "utilidade prática". A questao, como ele desenvolve com maestria, é que é dificil distinguir, a partir de um certo ponto de burocratização, qualquer limite entre uma competência imaginária e real. Quem vai decidir, no fim, quem se salva é o mercado de trabalho. no Brasil há ainda a esperanca de um concurso publico para a Shangrilá da estabilidade. Até pesquisadores alemaes querem fazer um por ai, pois aqui o jogo de faz de conta ja acabou. Acabou o mundo organizado do trabalho remunerado para as humanidades na Europa continental. Mas enquanto isso as humanidades, na sua maioria, no mundo inteiro, vêm se afundando cada vez mais na irrelevância social por essa lógica endôgena dos pares, do jogo dos sabidos e da pura malandragem. Como você concluiu, não existe conhecimento real sem ética. Qualquer criança sabe disso muito antes de ter lido Kant e naquele dia luminoso em que ela tem contato, pela primeira vez, com o edifício da Crítica, ela se sente confirmada na universalidade daquelas questões mais infantis, justamente aquelas que são as mais difíceis e que nenhuma malandragem pode responder: o que é realmente conhecer, entender, qual é a gramática com que se soletra os fenômenos, quais são as regras do jogo, o que é de fato ciência. Quando meu filho nasceu, eu percebi que teria de começar tudo de novo para que ele não fosse vítima do "Eterno Retorno" da malandragem dos "sabidos". Certamente ele nasceu num mundo muito diferente do meu e não cometeráos mesmos erros, outros certamente, mas não os meus.