26 de fevereiro de 2013

A entrevista de Yoani Sánchez ao Roda Viva

Por: Jonas J. Berra

         O Roda Viva da TV Cultura deste dia 25 de fevereiro fez uma longa e parcialmente esclarecedora entrevista com a blogueira cubana Yoani Sánchez, que ficou famosa pela sua oposição ao governo de Fidel Castro e a chamada Revolução Cubana. Abaixo aponto para partes da fala da blogueira que, ao meu ver, considerei interessantes de serem mostradas pela sua plausibilidade.


QUEM É YOANI PARA YOANI?

         Definiu-se como questionadora, uma espécie de “diplomata do povo”, surgida de uma soma de várias tendências. Apesar de sua aparência liberal, defendeu que luta pela igualdade, tendo, ao seu ver, um compromisso muito claro com a liberdade.
Se tivesse de escolher entre o governo cubano e os EUA, ficaria ao lado dos EUA devido à tentativa de eliminar o embargo econômico, mas não entrou em mais detalhes. Seria bom saber quais as vantagens e desvantagens de Cuba entrar num acordo com os EUA.


MOBILIZAÇÃO SOCIAL

         Questionada sobre a diferença entre a mobilização popular no norte da África e a falta de mobilização em Cuba, Yoani procurou mostrar que em Cuba as condições para um levante popular, historicamente, foram inferiores. Tal dificuldade estaria no índice menor de jovens da ilha e a falta de acesso às tecnologias como internet e telefone. Desse modo, ela jogou o problema para a falta de jovens, apontando para o envelhecimento da população, enquanto que no norte da África, a juventude seria a responsável pela revolta popular.


EDUCAÇÃO

         Apesar de tantos pontos negativos, a educação foi, segundo ela, uma conquista importante. Mas lembrando que caberia saber exatamente o que é essa educação em Cuba, por exemplo, sem esquecer da precariedade. De repente um hospital possui um equipamento sofisticado, mas falta aspirina.
Para ela, é importante manter as conquistas na educação. A extensão, por exemplo, já que a maioria das pessoas tem acesso, mas pensar também na qualidade. Colocar por terra, também o mito da gratuidade. Todas as pessoas que trabalham por 20 dólares mensais, mesmo sem estarem estudando, estão ajudando a pagar a educação de todos. Isso nos faz crer que não seria, portanto, um benefício do governo, mas da própria população.

A INICIATIVA PRIVADA

         Segundo ela, o governo parece ser obrigado a aprovar a iniciativa privada, mas mantem uma série de limitações, que impedem o crescimento dessa iniciativa. Uma dessas dificuldades é que as importações precisam ser feitas pelo governo, o setor privado não pode importar sozinho. O governo, conforme sua explicação, também não aceita que exista uma inevitável diferença econômica entre as pessoas em função da pluralidade de profissões. Quando alguém parece estar ganhando dinheiro, o governo acha que isso está necessariamente gerando desigualdade social e é preciso fechar o referido negócio.

O NÃO LEVANTE POPULAR

         De acordo com a blogueira, o cidadão cubano não se opõe ao governo por medo. Esse medo vai provocando uma condição de apatia, que gera uma inercia. Mais do que isso, afirma ela, o governo condena os críticos, os estigmatizando. Os sataniza. Desse modo, o cidadão acaba preferindo não arrumar problema e o resultado disso acabou sendo a criação de cidadãos passivos, que sequer sabem que lhes falta a liberdade. Com isso ela deu a entender que eles ficaram como que cegos frente ao totalitarismo que os cerca.

REPÚDIO DE MANIFESTANTES NO BRASIL

         Para ela, a sua suposta relação com a Cia é um conto infantil. Para mostrar a irracionalidade dessa afirmação, ela explicou que observava pessoas serem apontados como agentes da Cia por escreverem contra o governo, mas que quando ela mesma começou a escrever, e começou também a ser acusada de trabalhar para a Cia, percebeu que nenhuma daquelas pessoas trabalhava realmente para a Cia.
Já as manifestações de repúdio eram previsíveis. Segundo ela, sempre com muita violência verbal, até física, para abalar a autoestima da pessoa que carrega uma mensagem. Mas uma das coisas que pareceu mais incomodá-la nisso foi ver que os que a repudiam, muitos deles, nem a conhecem, nem sabem o que ela tem escrito em seu blog. Para ela, seria ótimo se ao menos fossem contra as suas ideias, que fossem pessoas que pensassem sozinhas, que argumentassem por si mesmas, mas infelizmente seguem um roteiro (panfletário, repassado devido ao desconhecimento) para a eliminarem moral e mentalmente como mensageira. Essa seria, também, uma das estratégia do governo de Cuba para não discutir o texto, mas a pessoa que o escreve. Com isso, o governo mata ética e moralmente as pessoas que estão criticando.

DITADURAS DE ESQUERDA E DIREITA

         Ela não crê em distinção entre ditadura de direita e ditadura de esquerda. Para ela, o governo cubano (totalitário) se apropriou da linguagem democrática, fazendo propaganda como se suas eleições fossem as mais democráticas do mundo. Mas, contra essa ideia, bastaria analisar o que ocorre na assembleia, que anula a si mesma, que jamais vetará uma lei que venha do poder institucionalizado. Os candidatos não podem apresentar um programa e se posicionar frente a um tema. Por outro lado, quanto a eleição de seus representantes políticos, ela afirmou que o próprio sistema eleitoral não possibilita saber quem é a pessoa que assume como deputado e questionou: “Como vou saber apenas com uma foto e um currículo qual escolher?” (tradução nossa).

VEJA A ENTREVISTA COMPLETA:




2 comentários :

Everton Marcos Grison disse...

Muito interessantes seus apontamentos Jonas. Infelizmente, o tempo usado para as questões mais sérias e contundentes, foi usado pelos que dialogaram com ela de forma inadequada. A escolha destes debatedores me parece "muito pensada", ou seja, compromissada com certas ideologias. Nenhuma pergunta tratando dos textos do blog dela, não foi dado o nome ou endereço do blog para acesso dos telespectadores. Debate fraco. Ela defende coisas interessantes e tem posições que precisariam de uma apreciação mais aprofundada. Não estou questionando a competência dos debatedores, jamais, entretanto poderia ter sido melhor. É tremendamente verdadeiro o que ela diz em relação as ditaduras: não existe ditaduta de esquerda e de direita. Existe apenas DITADURA. Isso me remete a um texto do saudoso e gênio Gonçalo M. Tavares, que está no livro Histórias falsas e diz mais ou menos isso: Ditadores? Não existem. Não há o plural para esta palavra. É pequenez intelectual tratar como ditaduras. É falta de conhecimento ser contrário a ditadura brasileira e defender a cubana. Existe a DITADURA e os ditadores são todos iguais: determinam e se preciso matam. Não quero defender e nem criticar ela, mas, com certeza precisamos ler seus textos e criticá-la, se preciso, de forma intelectual. Atacamos as ideias e não as pessoas. Como nos ensinou Voltaire: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las". Muitos dos protestos contrários a ela vão na contramão; querem atacar a pessoa física e esquecem as ideias.

Jonas J. Berra disse...

Sim Everton, você tem razão.
Poderíamos questionar os que entrevistaram a cubana. Mas o Roda Viva me pareceu mais preocupado em deixar que ela falasse, afinal, ela é uma visitante. Além do mais, já foi vergonhosa a forma como ela foi recebida por manifestantes. Seria mais vergonhoso ainda arriscar colocando alguém que a atacasse novamente. Que tipo de país somos? Somos capazes de ouvir, ou apenas criticamos por criticar? Ela deu várias outras entrevistas em que provavelmente precisou responder perguntas mais complexas. Sem defender a escolha das pessoas que a entrevistaram, mas realmente a proposta não era negar o que ela diz, pois são verdades, verdades pessoais da posição dela. Não adiantaria nada colocar militantes comunistas dizendo que o que ela diz é errado, pois se trata da posição intelectual e moral dela. Questionável, é claro, mas é o posicionamento dela.