29 de janeiro de 2013

Hannah Arendt

Por: Jonas J. Berra

      Hannah Arendt nasceu em Linden, Alemanha, de uma família judaica no dia 14 de outubro de 1906. Os pais eram membros do partido social-democrático. Hannah desde cedo demonstrou ser muito inteligente. Aos 16 anos já lia Kant e já conhecia grego e latim. Em 1924 ingressou na Marburg University, tornando-se discípula de Heidegger e Jasper. Em 1975 foi para Freiburg, onde estudou um semestre com Husserl. Doutorou-se em filosofia por Heidelberg em 1928 com a tese "O Conceito de Amor em Agostinho".
      Ela sempre sustentou com coragem sua postura antinazista. Em 1933 seu apartamento tornou-se um abrigo para algumas pessoas que haviam fugido dos interrogatórios dos nazistas. Nessa época ela fazia pesquisas sobre o anti-semitismo. Em 1940 sentiu na pele o sofrimento de ser exilada. Com o caos provocado pela entrada dos exércitos alemães na França, ela conseguiu escapar e encontrar seu marido, com quem partiu para os EUA em 1941.
      Sua chegada em Nova York significou a missão de entender o que acontecera aos europeus, em especial à Alemanha, resultando na obra Origens do Totalitarismo. Ela nunca foi niilista, nem amoral, mas uma pensadora que seguia por onde o pensamento (reflexivo) a levasse. Ela não tinha a pretensão de promover soluções, mas mostrar a importância do pensar por conta própria (ARENDT, 2004, p.11).
      Arendt retomou o problema do mal na filosofia justamente no contexto da reflexão sobre a experiência totalitária das sociedades do século XX em Origens do Totalitarismo. Já na obra Eichmann em Jerusalém essa pespectiva, que se tratava do mal radical, passa a levar em conta o mal banal, um tipo de mal sem raízes, que se espalha principalmente nas repartições públicas. O caso de Eichmann ficou mundialmente conhecido como uma controvérsia porque a filósofa destacou que se tratava de um sujeito patético, cuja linguagem era carregada de clichês e códigos de expressão e conduta, mas que não se tratava de "estupidez, mas irreflexão" (ARENDT, 1992, p. 6). Essa simples existência (a ideia de que outro faria o mesmo em seu lugar) é o significado de seu trabalho: como um funcionário, não tinha a função de questionar, mas por em prática as diretrizes que lhes eram ordenadas.
      Curiosamente, não se pode concluir que o uso da expressão "banal", no caso da filósofa, que se refere à certa involuntariedade em torno de determinados atos, ou inexistência de pensamento (no sentido de reflexão) e de juízo (no sentido de ponderar sobre os próprios atos), signifique que tais pessoas não devam ser julgadas e até punidas. A banalidade, de modo algum, pode servir de justificativa para aqueles que pretendem se isentar de responsabilidade. Deve haver um momento anterior, uma situação primeira em que a escolha leve para outra direção que não a de apoiar as atrocidades.

Referências de Leitura

ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito: o pensar,o querer, o Julgar. Tradução: Antônio Abranches, Cézar Augusto R. de Almeida, Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume-Duramá, 1992.

ARENDT, Hannah. Responsabilidade e Julgamento. Tradução: Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: Anti-semitismo, Imperialismo, Totalitarismo. Tradução: Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.


15 comentários :

José Galisi Filho disse...

Ola, Jonas, eu moro do lado da casa em que Ela nasceu aqui no Linden Nord, Hannover, no inicio do seculo passado, que era um nicho da burguesia judia e liberal. Hannover mantem ate hoje as cicatrizes desse expurgo intelectual, é parte da memoria coletiva da cidade e sua identidade. Um dos cemiterios principais judeus fica ao lado da sede da Universidade Leibniz. Estou para postar ja ha algum tempo o capitulo "Raca e Burocracia" das "Origens do Totalitarismo", com um roteiro visual bem trabalhado que inclui uma parte dessa paisagem urbana. Reuni um material que talvez fosse de seu interesse, alem dos documentarios do Arte, que ja postara no Urania. Fiquemos em contao um abraco Jose

Jonas J. Berra disse...

Obrigado pelo comentário José,
É muito bom compartilhar essas conversar com você, que está onde um dos momentos mais dramáticos da história tradicional aconteceu. Nosso blog está se atendo ao básico, para uso didático no Ensino Médio e divulgação de eventos ligados à filosofia do Paraná. Por isso postamos coisas mais simples, com menos detalhes. Tenho lido algumas postagens suas. São muito inteligentes, com relações bastante complexas, difíceis para um público iniciante. Isso demonstra quão rica é sua experiência de vida. Seria ótimo um capitulo "Raca e Burocracia" das "Origens do Totalitarismo". Todos teríamos muito a ganhar com isso.
Um abraço, muito obrigado novamente!
Jonas

José Galisi Filho disse...

Jonas, esse capítulo é particularmente especial para quem quiser compreender de maneira mais técnica "Os Elementos do Anti-Semitismo" da "Dialética do Esclarecimento", num processo que também conhecemos como "endocolonização". Quando os ingleses descobriram jazidas de diamantes no Transvaaal, que era até então um território autononomo do boers, para azar deles, é claro, o resultado foi catastrófico. Os boers, holandeses puritanos tinham chegado lá depois de "Uma Grande Marcha", um acontecimento "místico" em seu imaginário, uma espécie de Nova Jerusalém do Apartheid, carregando seus escravos. Armados pelos alemaes e numa guerrilha eficaz e móvel, eles dizimaram as tropas britânicas. Entao os ingleses criaram os primeiros campos de concentração para as mulheres e criancas e os mataram de fome e também abateram o gado. Segundo Arendt, eles se tornaram o "primeiro exemplar do branco perdedor radical do Ocidente", colocados no mesmo nível da mao de obra escrava dos batunstões. Mas muito mais que o apartheid natural e bíblico de seu credo, os boers fundaram, como ela conclui, o verdadeiro o anti-semitismo moderno selvagem que terminaria em Aushwitz, pois seu principal inimigo era o "capital financeiro" que os "explorava". Esse foi um momento de "virada" entre o velho e o novo anti-semitismo, porque a burocracia do Império conseguiu "fundir" duas coisas que pareciam incompatíveis numa forma nova. A propaganda e o cinema nazista dedicaram a esse capítulo um clássico chamado "Ohm Krüger", cujo protagonista era uma replica de Churchill. A analise de Arendt dessa forma de "endocolonizacao que uma parcela da humanidade "branca" se degrada e se torna radicalmente anti-semita é um pesadelo que nao terminou. depois surgiram outros "perdedores radicais", até os homens bombas de hoje. é isso. Se voce puder explorar isso na escola, seus alunos verão como ela estava certa. A exploracao não é economico, como querem os marxistas, mas étnica, movida a expurgos e pogrons Esse tema interessa muito ao Brasil, pois esses puritanos estiveram em Recife antes de chegar Cidade do Cabo

Jonas J. Berra disse...

José, de modo geral, percebo um grande aprofundamento teórico seu. No entanto, me pareceu que o trecho (depois surgiram outros "perdedores radicais", até os homens bombas de hoje. é isso. Se voce puder explorar isso na escola, seus alunos verão como ela estava certa. A exploracao não é economico, como querem os marxistas, mas étnica, movida a expurgos e pogrons Esse tema interessa muito ao Brasil, pois esses puritanos estiveram em Recife antes de chegar Cidade do Cabo) ficou muito vago. Difícil de ser compreendido por quem não está por dentro do assunto.
O que são os "perdedores Radicais"?
Você crê que todos os marxistas, profundamente, reduzem a exploração a um problema econômico?
E esses puritanos em Recife? Que história é essa?
Por favor, nos explique essas questões mais um pouco!
Obrigado

José Galisi Filho disse...

Sim, Jonas, não é um tema fácil, e isto me parece fascinante na Arendt, justamente porque ele envolve uma categoria que não é "racional", ou seja, a identidade étnica e a forma pela qual a historiografia tradicional tentava, à época de Arendt, equacionar a escalacao de conflitos que desencadearia o Holocausto. Tentando resumir de maneira esquemática. Depois da Primeira Guerra, o Tratado de Versailles e os 14 Principios de Woodrow Wilson tentavam garantir a "soberania" de todas as minorias espalhadas pelo Leste Europeu. Entao foram tracadas linhas de demarcacao num mosaico que agregou populacoes e grupos étnicos distintos em um mesmo território, como os Sudetos alemaes, por exemplo. Hitler na sua juventude em Viena, durante o colapso do Império Austro Hungaro, via toda aquela diversidade etnica e a propria democracia parlamentar como a causa do caos economico. Mas as esquerdas europeias e os frontes populares na Franca, na Espanha e outros paises ao longo dos trinta, e sobretudo os comunistas alemaes radicalizados, viam a ascensao do fascismo como uma confirmacao da "racionalidade" da luta de classes, mas nao era isto que esta ocorrendo! O que estava ocorrendo é que quando a Grande Depressao de 29 atingiu em cheio a Europa, as linhas de ruptura e de conflitos etnicos em todas as sociedades europeias comececaram a se unir, em outras palvaras, a varias guerras civis em cada sociedade comecaram a virar UMA SO, uma grande guerra civil europeia e depois mundial em que essas populacoes "excedentes", essas minorias, como Arendt mostra, comecaram a ficar "supérfluas". é importante essa observacao dele de pessoas que "sobram", que estao "a mais". Essa é a tese da 2a. Guerra dos Trinta Anos Europeia (1914-1945), varios conflitos e ruptura internas dentro daqueles territorios criados por Versailles se unindo, mas quando olhamos para eles mais detidamente, ao contrario do marxismo vulgar, o que se vê é que sao na verdade conflitos etnicos, linguisticos e culturais que iriam determianr uma guerra civil mundial numa escla de ferocidade nunca antes imaginada. Eram catalaes lutando contra outras minorias, bascos tentando autonomia e assim por diante, mas todos, todos sem excecao contra os judeus. Foi nesse pont de unificacao das varias guerras que o anti-semitismo nazista ganhraria sua forma industrial, assimilando as licoes historicas da burocracia do Imperio Britanico. Mas voltando ao capitulo na descricao da Guerra dos Boers, Arendt mostra que os ingleses criaram uma maquina burocratica "eficaz" para administrar essas irracionalidades culturais. Os boers eram radicais milenaristas, eles eram brancos, descendentes dos holandeses da Companhia das Indias Ocidentais, mas acabram virando mao de obra barata nas minas de Orange e Transvaal no mesmo status dos ex-escravos e la eles identificavam aquele capital financeiro judaico que os reduzira a essa condicao. Continuando...

José Galisi Filho disse...

Mas voce perguntava sobre a identidade dos outros perdedores radicais. Muito bem, se eu e voce tivéssemos vivido naquela epoca entre a Polonia e a Ucrania, entre os Balcas e a Prussia Oriental, onde nasceu Kant na hoje Kaliningrad, seprada do reich alemao pelo "corredor polones", enato a gente veria que todo mundo estava e perigo, que todas aqueles minorias etnicas agregadas nos novos paises nao tinham mais futuro diante da tsunami nazista que se aproximava, engolindo a Austria, os Sudetos a republica Tcheca, a Polonia, pois o unico objetivo da Nova Ordem de Hitler era realizar esse "programa" de limpeza etnica. os nazistas nunca estiveram preocupados em ganhar militarmente guerra nenhuma, esse era o "teatro de guerra apenas" , a superficie e a mascara da verdadeira guerra na retaguarda, ou seja, limpeza étnica, excluir todos os judeus de seus territrios ocupados e quando isso nao foi mais possivel depois da derrota diante de Moscou em 1941, Hitler decidiu que era hora de eliminar todos os judeus nunma "Solucao Final". Nao era uma guerra de conquista economica, da luta de classes, por territorios vitais, dos imperialismos, isso e negado pelos fatos. O verdadeiro programa do nazismo era apenas a realizacao do delirio anti-semita radical. O transporte de vitias para Auschwitz foi feito em detrimento de qualquer objetivo militar de logista. Nesse sentido, Ardent mostra que depois de que todos os judeus do Leste fssem elimnados, outros grupos tambem seriam. os nazistas ja haviam elimnados todos os doentyes mentais, na lista estariam os idosos, os que nao correspondiam a Volksgemeischaft, à comunidade popular do sangue. Com excecao do marsimo franfurtiano, a esquerda europeia NUNCA entendeu isto depois da Guerra e foi assim que esses conflitos etnicos espalhados pelo mundo durante a Guerra Fria produziram outros genocidios em todos os continetes. Na Guatemala, por exemplo, descentes bracos de espanhois exterminando as populacoes indigenas sob o manto do anti-comunismo, na Secessao de India e Paquistao, pois o nacionalsimo europeu do XIX, que havia levado aos 14 Pontos no entre-guerras se combinou a todas as linhas de divisoes etnicas pelo mundo afora. Durante a Guerra Fria, as lutas de insurgencia nacionais pareciam ser um conflito de classes mas nao era. veja urgentemente o meu post do Niall Fergunson sobre o fim do Ocidente. ele comeca a serie numa sala de aula como Professor de Historia, e uma cena maravilhosa, em que ele pergunta as alunos por que tudo isso aconteceu.http://urania-josegalisifilho.blogspot.de/2011/11/niall-ferguson-civilization-ist-west.html Mas veja sobretudo esse video http://www.youtube.com/watch?v=q5AbQF1jJ_A questao que ele coloca é POR QUÊ. E isso que seus alunos , eu e voce queremos saber e é muito dificil entender. Que sao os perdedores. Como Niall Ferguson diz: quando eu era um aluno me diziam que era o conflito de classes, mas isso nao e verdade

José Galisi Filho disse...

The War of the World Episde 1
http://www.youtube.com/watch?v=q5AbQF1jJ_A

Resenha do NYT
http://www.nytimes.com/2006/11/12/books/review/Montefiore.t.html?pagewanted=all&_r=0

Jonas J. Berra disse...

Obrigado pelo comentário José.
Até então, me sinto mais esclarecido sobre o seu posicionamento e não vejo mais a radicalidade reducionista que parecia haver antes do ponto de vista metodológico.
Sem delongas, até porque não estou capacitado para continuar falando sobre o assunto tão profundamente quanto você.
Me parece que, se olharmos do ponto de vista de Arendt, os perdedores são todos, ainda que os que se dizem ganhadores não concordem com isso. Quem perde, no sentido dos direitos humanos defendidos por Arendt, são todos os que sofrem, sejam aqueles que ferem, sejam os que são feridos. Mesmo os que ferem acabam sendo feridos. Podem ser condenados por seus descendentes, como parece ter ocorrido na Alemanha depois de 1945. Os que não viram maldade parecem seguir a lógica da banalidade (sou apenas um funcionário). Mesmo assim, Arendt mesmo não acreditava em culpa coletiva, assim como defendia a ideia de que todos tem alguma responsabilidade. A culpa diz respeito, para ela, apenas ao indivíduo, enquanto que a responsabilidade que engloba todas as pessoas de uma forma ou de outra.
Ela fala disso quando comenta que, em certa medida, os próprios judeus se isolaram. Claro, eles se sentiam melhores (eram escolhidos por Deus afinal de contas, entre outras razões que não vou delongar).
Entendo sua visão sobre o aspecto econômico. Quando se fala dos judeus nessa época, creio que não é difícil entender que se trata mais de um aspecto étnico. Mas isso também era uma desculpa. Afinal, condenando a etnia dos judeus, se poderia tomar o seu dinheiro. Como aquela desculpa medieval das cruzadas ("vamos expulsar os muçulmanos e recuperar a terra santa"), que não era só uma questão religiosa, nem só econômica.
Sem dúvida os Frankfurtianos NÃO são um tipo de marxista qualquer. Eu conheço marxistas que não gostam dos Frankfurtianos (justamente por questões de nível teórico), que só leem Lenin e outras obras de ação, de militância. Não conheço praticamente nada dos Frankfurtianos, precisaria que o Everton me ajudar aqui. Mas já li alguma coisa do Adorno, por exemplo, falando da questão da influência estética (algo muito elementar e básico), mas já é um aspecto que demonstra duas coisas diferentes:
1. É difícil definir marxismo. Mas sabemos que existem os radicais.
2. Temos dificuldades em reduzir, principalmente hoje em dia, um problema a um único conceito, como econômico, por exemplo.
Estava conversando com o Everton sobre a questão da complexidade. Parece que a tendência é usarmos menos expressões reducionistas, porque, como você expôs, os eventos são interligados. São ramificações sempre mais complicadas de serem entendidas. É a história, inacessível de modo direto. Sempre pelos olhos de alguém.
Mas voltando, creio que ninguém sai ganhando uma guerra. Essa já era uma ideia mais clara de Bertrand Russel (um liberal, que nem lembro de onde tirei). Sempre há consequências desastrosas. Claro que usando a expressão "perdedores radicais", podemos entender aqueles que são tão frágeis que não tem para onde correr. O mundo se tornou tão pequeno, que parece que não há esperança. É como se, ao raiar da guerra, eles já estivessem mortos.

José Galisi Filho disse...

Jonas, obrigado pelo comentário e pela "reflexão dialogada", "comunicativa", naquele bom sentido social-democrata de Habermas! Eu havia feito uma pausa, mas me esquecera de fazer uma proposta prática para você e o Everton, que poderia ser uma experiência didática muito produtiva para ambos e ficaria muito interessado em ver os resultados, pois ela diz respeito a um episódio histórico monumental tão proximo de vocês. Eu sou apaixonado pela cinematografia de Silvio Back e, embora esteja tão longe e exilado por aqui, acompanhei detalhadamente o debate sobre a refilmagem do Contestado, chamado "Restos Mortais". O Contestado é um conflito civil colossal 100 vezes maior que Canudos, com mais de 50000 mortos e quase foi apagado da historiografia tradicional. na nova versao, Back apresenta médiums espiritas em transes reais numa releitura e auto-critica do original, no qual ele ainda se atinha fiel ao marxismo e "às determinacoes economicas e sociais" como "racionalizacao" de uma guerrilha de atrito. Portanto, o milenarismo aparecia como um "epifenômeno" daquelas forcas supostamente lógicas que "movem" a locomotiva da História. O que ele nos propoe agora é que a História é movida pela loucura, ela é quase um "transe" no qual as determinacoes étnicas, religiosas e de identidade linguistica estao em primeiro plano. eles veneravam uma menina virgem, que era considerada uma especie de encarnacao de Maria e sequer enterravam os mortos, pois o Dia do Juízo estava próximo! é simplesmente uma releitura genial, pois ele nos mostra que a História, que figuras como Hitler e Kohmeini são capazes de inverter os ponteiros do relogio, Nao existe, portanto, nenhuma "determiancao economica" ou racional que nos permita equacionar suas acoes imprevisíveis.

José Galisi Filho disse...

Entao voce perguntaria para seus alunos em Curitiba, como Niall Ferguson: o que voces acham que poderia explicar melhor esse desejo de não enterrar sequer os mortos, voces acham que isso é APENAS um conflito entre a "burguesia" da Ferrovia contra os que perderam suas terras à margem dela numa regiao pobre de Santa Catarina, ou será que existe aqui uma outra história secreta das identidades dessa pluralidade da confederaçao brasileira. Quantos Brasis existem nessa confederacao, quantos labirintos ainda nao foram trilhados nessa busca desesperada por um lugar em que as coisas "facam sentido", como na historiografia.Pois a gente se sente confortavel em "explicar" o ineplicavel, a saber, equer enterrar os mortos pois amanha será o Juízo. Imagine entao aquele professor secundario que procura esquematizar com suas categorias supostamente racionais a logica das forcas economicas que mascaram esse nivel mais profundo. Pode ser bom para o vestibular, para o MEC, para a CAPES, mas nao explica nada. O livro essencial para travar essa discussao é "Guerra Civil" de Hans Magnus Enzensberger", o ensaio que fundou intelectualmente o mundo pós- Guerra Fria. O Contestado é uma prova clara de que todos são perdedores, como voce mesmo disse. Eu formularia sua ideia dessa maneira. Aqui, meus amigos, o "sentido" capitula, aqui a linha foi interrompida, aqui na ha mais CONTINUIDADE, pois a propria ideia de continuidade trai a memoria. e preciso prservar a ruptura, a semente de utopia que ela acenava no ceu da Historia. Eles peerderam a santinha, a Ferrovia nao trouxe nenhum progresso, e até a memória foi apagada ate que Silvio Back reabilita o Anjo Vingador da Historia de Benjamin e insinua: sequer os mortos nao estarão em paz enquanto continuarmos apegados á ideia de progresso e eu vou invocar os espíritos de todos aqueles que sonhzram com essa fantasia democratica do Juízo. O Apocalipse é uma fantasia democratica em que todos são iguais, é uma fantasia revolucionaria. Quanto mais tentarmos olhar para dentro dessa irracionalidade, mais perceberemos, como mostra Enzensberger em Guerra Civil, como o marxismo vulgar, combinado com o nacionalismo importado daa Europa do XIX, tornou-se a mais assassina de todas as ideologias. Marx e Engels falavam dos eslavos como racas inferiores, que a sociedade tinha grupos lumpens e parasitas que nao se prestavam a dinamica da locomotiva da Historia, eles deveriam ser eliminados, eles acreditavam que a revolucao somente ocorreria em sociedades que tivessem preenchido às condicoes logicas e categoriais dessa passagem, mas eles estavam completamente enganados. Hitler nunca foi instrumento de "burguesia" nenhuma. ele apareceu na hora errada, no lugar errado e sequer alemao ele era, mas o estrago que produziu ate hopje esta longe de ser reparado.

José Galisi Filho disse...

http://www.youtube.com/watch?v=GuR0mhdSIOc

José Galisi Filho disse...

http://urania-josegalisifilho.blogspot.de/2012/08/hannah-arendt-denken-und-leidenschaft.html

Jonas J. Berra disse...

Vou seguir sua indicação José. O Contestado é um tema fascinante, que mexe com a nossa cabeça!

José Galisi Filho disse...

Jonas, tente recriar a cena da saula de aula do Ferguson. Eu admiro profudamente o espírito liberal e a tradição do empiricismo ingleses. É verdade também histórica que que eles deixaram a Palestina e a India sob o signo da vergonha para uma guerra civil que se prolonga até hoje, mas o Contestado não foi um "conflito de classes" para a fortuna apologética dos livros didáticos desses petismo primário. Imagine tambem, como exercicio de ficcao e imaginacao apocaliptica, que o Paraguai, que um governo radical e de lunáticos, resolvesse reivindicar metade de seu território perdido depois do genocidio de 95% de sua populacao masculina e entao sequer haveria mais Paraná ou Santa Catarina. Mas acrescente a isso o fato real de que quando a migracao desses contigentes (bolivianos, paraguaios e argentinos) chegar a seu pico na metade do século em Sao Paulo e Rio de Janeiro, ai entao o Brasil contemporâneo será testado em sua capacidade de ser uma sociedade multiétnica. Esse é um dos últimos mitos ques erá testado nas proximas décadas.O Brasil é uma confederação, um retalho continental que pode perfeitamente ser descosturado diante da radicalizao étnica mundial e das catastrofes ambientais e economicas que nos aguardam, que faro as pessoas sentirem saudades do velho fim do mundo dos Maias. Como diria Enzensberger, já nao se fazem mais Apocalipses como antigamente. Vou escanear o guerra civile te mandar uma cópia. Abracos

Cristian Abreu de Quevedo disse...

Senhores!
Gostei profundamente da discussão que pude ler. Agradeço ao Jonas pelo excelente e produtivo espaço de diálogo, creio que ao modo de Sócrates, que nos proporciona. Respondi seu comentário em meu blog (http://compreender-arendt.blogspot.com/) e reforço o convite para um café. Deixo meu telefone: 41-96516241. Sou um pequeno estudante de Arendt que gosta muito de dialogar sobre os mais variados temas. Abraços!