24 de junho de 2012

Golpe no Paraguai: Uma pancada rápida e rasteira




Por: Everton Marcos Grison



          Foi uma pancada rápida, rasteira e corrosiva. Derrubaram o presidente Lugo do Paraguai em pouquíssimas horas. Um governo para ser articulado demora muito tempo, são muitas cabeças, muitas ideias... Mas sua desestruturação é rápida quando se tem por trás grandes alicerces econômicos e claro, dotados de ideologia tratada a soja transgênica.  O "processo de impeachment”" foi legal, agiram dentro da legislação respaldados por grande maioria e de quebra, cada Excelentíssimo recebeu uma saca de sementes... Pelo que parece, a grandiosa Monsanto, empresa que monopoliza o ramo de sementes, venenos e o diabo a quatro neste continente tem participação ativa neste processo... 
           Tudo foi orquestrado e meticulosamente pensado, com apoio midiático de uma parcela considerável que desinforma a população em todo este continente americano, da ponta norte ao sul, do leste ao oeste. Com isso quero dizer que se alguém pretende "entender" ou ter uma dimensão verdadeira do que aconteceu, não adianta ligar a Tv em busca  disso. As grandes organizações estão rotando a "vitória" e não contam como chegaram a esta empreitada. Abaixo reproduzo techos de uma reflexão feita por Leonardo Severo (A desinformação midiática e o golpe da Monsanto), jornalista e escritor, autor de O Latifúndio Midiota. O material foi enviado a mim via email, pelo politizado amigo Misael, chafurdador da política sul americana e figura inestimável: 


"O cerco midiático contra Lugo vinha se fechando, num país em que 85% das terras encontram-se nas mãos de 2% da população e onde os mesmos donos dos três principais jornais, umbilicalmente vinculados às transnacionais e ao sistema financeiro, também controlam as emissoras de rádio e televisão. Assim, de forma suja e monocórdica, foram convocadas manifestações, com bloqueio de estradas, para o próximo dia 25 de junho. Grandes “tratoraços” em protesto contra a decisão do governo em favor da saúde da população e da soberania alimentar - de não liberar a semente de
algodão transgênico Bollgard BT, da Monsanto, cuja sequência genética está mesclada ao gene do Bacillus Thurigensis, bactéria tóxica que mata algumas pragas de algodão. A decisão, que afetava milionários interesses da multinacional estadunidense, havia sido comunicada pelo Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal e de Sementes (Senave), uma vez que a liberação não tinha o parecer do Ministério da Saúde e da Secretaria do Meio Ambiente.

Fonte: pesquisa Google
“A Monsanto, através da UGP, estreitamente ligada ao Grupo Zuccolillo, que publica o diário ABC Color, se lançou contra a Senave e seu presidente Miguel Lovera por não ter inscrito a sua semente transgênica para uso comercial no país”, denuncia o jornalista e pesquisador paraguaio Idilio Méndez Grimaldi.

Para tirar o Senave do caminho foi alegado o surrado argumento da “corrupção” no órgão, o mesmo estratagema da máfia de Carlinhos
Cachoeira para tomar de assalto o DNIT e alavancar negociatas, via  utilização de seus vínculos com a revista Veja para denunciar desvios no órgão – conseguindo inclusive a queda do ministro dos Transportes.

Desta forma, “denúncias” por parte de uma pseudossindicalista do Senave, Silvia Martínez, ganharam manchetes na mídia canalha. O jornal ABC Color do dia 7 de junho último acusou o chefe do Senave, Miguel Lovera, de “corrupção e nepotismo na instituição que dirige”. Mas o fato é que a
pretensa sindicalista advogava em causa própria, do marido e de seus patrocinadores. Conforme revelou Grimaldi, “Silvia Martínez é esposa de Roberto Cáceres, representante técnico de várias empresas agrícolas – todas sócias da UGP (Unión de Grêmios de la Producción) - entre elas
Agrosán, recentemente adquirida pela Syngenta, outra transnacional, por
120 milhões de dólares”.

Algo similar à UDR (União Democrática Ruralista) de Ronaldo Caiado, e
aos ruralistas da senadora Kátia Abreu, a UGP é comandada por Héctor
Cristaldo, sustentado por figuras como Ramón Sánchez – vinculado ao
setor agroquímico - entre outros agentes das transnacionais do
agronegócio. “Cristaldo integra o staff de várias empresas do Grupo
Zuccolillo, cujo principal acionista é Aldo Zuccolillo, diretor proprietário
do jornal ABC Color desde sua fundação sob o regime de Stroessner, em
1967. Zuccolillo é dirigente da Sociedade Interamericana de Prensa (SIP)”,
esclarece Idílio Grimaldi. O jornalista lembra que o Grupo Zuccolillo é o
principal sócio no Paraguai da Cargill, uma das maiores transnacionais do
agronegócio do mundo. “Tal sociedade” construiu um dos portos
graneleiros mais importantes do Paraguai, o Porto União, a 500 metros da
absorção de água da Companhia de Saneamento do Estado, sobre o rio
Paraguai, sem qualquer restrição”, esclarece.

Com a proteção do apodrecido Congresso que condenou Lugo, as
transnacionais do agronegócio no Paraguai praticamente não pagam
impostos, com uma carga tributária de 13% do PIB, tão insignificante que
acaba inviabilizando os serviços públicos.

Vale lembrar que a saúde e a educação eram totalmente privadas antes da
ascensão de Lugo à Presidência, num país em que os latifundiários não
pagam impostos. O imposto imobiliário representa apenas 0,04% da carga
tributária, uns 5 milhões de dólares - segundo estudo do Banco Mundial –
ainda quando a renda do agronegócio alcance cerca de 6 bilhões de dólares
anuais, em torno de 30% do PIB.

Na sexta-feira, 8 de junho, a UGP publicou no ABC Color seus “12
argumentos para destituir Lovera” . ( http://www.abc.com.py/edicion-
impresa/economia/presentan-12-argumentos-para--destituir-a--
lovera-411495.html). Tais "argumentos” foram apresentados ao então
vice-presidente da República, Federico Franco, correligionário do ministro
da Agricultura e pró-Monsanto, recém nomeado “presidente”.

Na sexta-feira, 15, descreve Grimaldi, “em função de uma exposição anual
organizada pelo Ministério de Agricultura e Pecuária, o ministro Enzo
Cardozo deixou escapar um comentário à imprensa: um suposto grupo de
investidores da Índia, do sector agroquímico, cancelou um projeto de
investimentos no Paraguai pela alegada corrupção no Senave. Nunca
esclareceu de que grupo se tratava. Nas mesmas horas daquele dia
ocorriam os trágicos acontecimentos de Curuguaty, onde morreram onze
camponeses e seis policiais”. O sangue derramado foi o pretexto utilizado
pela direita para o impeachment.

Como na Venezuela, franco-atiradores

O que se sabe é que a exemplo da tentativa de golpe de Estado na
Venezuela, onde a CIA utilizou franco-atiradores para assassinar os
manifestantes contrários ao governo para jogar a culpa do massacre sob os
ombros de Hugo Chávez, também em Curuguaty agiram franco-atiradores.
E dos bem profissionais. E movidos pelos mesmos propósitos.

Na região de Curuguaty está localizada a estância de Morombí,
propriedade do latifundiário e grileiro Blas Riquelme, dono de mais de 70
mil hectares. O “terrateniente” é uma das viúvas da ditadura do general
Alfredo Stroessner (1954-1989), um dos principais beneficiados pela
tristemente célebre Operação Condor, desenvolvida pela CIA no Cone Sul
para torturar, assassinar e desaparecer com todo aquele que ousasse
contrariar os interesses estadunidenses na região. Ele também foi
presidente do Partido Colorado por longos anos e senador da República,
sendo igualmente dono de uma rede de supermercados e estabelecimentos
pecuários.

Como Riquelme havia se apropriado mediante subterfúgios legais de
aproximadamente dois mil hectares pertencentes ao Estado paraguaio,
camponeses sem terra ocuparam o local e solicitaram do governo Lugo a
sua desapropriação para fins de reforma agrária. Um juiz e uma promotora
ordenaram a retirada das famílias por meio do Grupo Especial de
Operaciones (GEO) da Polícia Nacional, esquadrão de elite que, em sua
maioria, foi treinado por militares dos EUA na Colômbia, durante o
governo fascista de Álvaro Uribe.

Na avaliação de Grimaldi, que também é membro da Sociedade de
Economia Política do Paraguai (SEPPY), somente uma sabotagem interna
dentro dos quadros da própria inteligência da Polícia, com a cumplicidade
da Promotoria, explicaria a emboscada na qual morreram seis policiais.
Uma ação estrategicamente planejada com um objetivo bem definido. “Não
se compreende como policiais altamente treinados, no marco do Plano
Colômbia, pudessem cair tão facilmente numa suposta armadilha feita por
camponeses, como quer fazer crer a imprensa dominada pela oligarquia. A
tropa reagiu, matando 11 camponeses e deixando cerca de 50 feridos”.
Lugo: Presidente destituido



Entre os policiais mortos, ressalta, estava o chefe da GEO, Erven Lovera, irmão do tenente-coronel Alcides Lovera, chefe da segurança do presidente. Um recado claro e preciso para Lugo. 

A serviço da Monsanto

Conforme o jornalista, no marco da apresentação preparada pelo Ministério  da Agricultura – a serviço dos EUA -, a transnacional Monsanto anunciou outra variedade de algodão, duplamente transgênico: BT e RR ou
Resistente ao Roundup, herbicida fabricado e patenteado pela
multinacional, que quer a liberação da semente no país.

Para afastar incômodos obstáculos, antes disso o diário ABC  color vinha denunciando “presumíveis” fatos de corrupção dos ministros do Meio
Ambiente e da Saúde, Oscar Rivas e Esperança Martínez, que também
haviam negado posição favorável à Monsanto.

A multinacional faturou no ano passado, somente com os royalties pelo uso
de sementes transgênicas de soja no Paraguai, 30 milhões de dólares, livre
de impostos, (porque não declara esta parte de sua renda). “Independente
disso, a multinacional também fatura pela venda das sementes
transgênicas. Toda a soja cultivada é transgênica numa extensão próxima
aos três milhões de hectares, numa produção em torno de sete milhões de
toneladas em 2010”, revela Grimaldi.

Por outro lado, acrescenta o jornalista, a Câmara de Deputados já aprovou projeto de Lei de Biosseguridade, que contempla criar uma direção de Biossegurança com amplos poderes para a aprovação do cultivo comercial
de todas as sementes transgênicas, sejam elas de soja, milho, arroz, algodão... Este projeto de lei elimina a atual Comissão de Biosseguridade,
ente colegiado de funcionários técnicos do Estado paraguaio, visto como
entrave aos desígnios da Monsanto.

“Enquanto transcorriam todos esses acontecimentos, a UGP vinha
preparando um ato de protesto nacional contra o governo de Fernando
Lugo para o dia 25 de junho, com máquinas agrícolas fechando parte das
estradas em diferentes pontos do país. Uma das reivindicações do
denominado ‘tratoraço’: a destituição de Miguel Lovera do Senave, assim
como a liberação de todas as sementes transgênicas para cultivo comercial”.

Dado o golpe, como estamparam os grandes conglomerados de mídia no
Paraguai neste sábado, “a manifestação da UGP foi suspensa”. Afinal, “há
um novo governo, mais sensível ao mercado”.


Agradeço ao inquietante texto de Leonardo Severo e também, ao Misael que compartilhou esta interessante reflexão. Já que a grande mídia emporcalha a situação, ou simplesmente se omite como foi no caso do lançamento do livro de Amaury Ribeiro; Privataria Tucana, contando os podres de embolorados candidatos a cargos políticos no Brasil. A Internet é um meio forte e eficaz de proliferação de notícias com cunho crítico e "verdadeiro". Não podemos admitir o que foi feito no Paraguai. Este acontecimento nos diz respeito de maneira direta e determinará um futuro muito próximo... 





Um comentário :

Jonas J. Berra disse...

Parabéns pela postagem Everton. Ficou muito boa.